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Educação

Uesb, essa afastada e silenciosa universidade.

Me espanta como a UESB é silenciosa em relação aos eventos sociais que mexem com Vitória da Conquista. Eventos sociais aí não são as festas e convescotes. É como se a universidade fosse um ente à parte da sociedade, com o fim exclusivo de fornecer formação e diplomas, com exceção do barulho que se faz internamente, agora, em razão de 1. A polêmica realização de uma seleção de funcionários para contrato por tempo determinado, em Regime de Direito Administrativo (REDA); 2. O início da campanha para a reitoria, aberta no dia 14 de março.

UESB Campus Vitória da Conquista

A última vez que a UESB abriu mão da sua condição recente de silenciosa não foi a UESB, foi o movimento de ocupação contra medidas que estavam sendo gestadas pelo governo Temer, como a PEC que congelava (e congelou) investimentos públicos por 20 anos e a da reforma do Ensino Médio, além de contestação ao programa Escola Sem Partido. A ocupação foi feita por estudantes, que tomaram o miolo da UESB por mais de dois meses, do dia 22 de outubro de 2016 a 9 de janeiro de 2017. A instituição, pela sua direção, professores ou servidores, apenas esperou o movimento acabar – ou quis apressar que ele se encerrasse, no cumprimento legítimo do papel administrativo.

Depois, mais nada.

Há professores, estudantes, servidores, pessoalmente ou em grupos, coletivos com ou sem associação com a universidade, mas quase todos da esfera exterior, que atuam e se manifestam diante de questões comunitárias, reagindo a ações governamentais que avançam contra pessoas ou grupos vulneráveis, como na expulsão – tida como violenta por parte da prefeitura – de moradores de áreas ocupadas. Mas, se há 17 meses os estudantes tomaram a universidade contra as PECs da maldade de Temer e aliados, nem eles mais têm-se feito ouvir no extra campus. Em 2017, o prefeito Herzem Gusmão sapecou um aumento de 18% na passagem de ônibus, sem ouvir o conselho municipal de transportes nem a Câmara de Vereadores, tampouco trabalhadores ou estudantes. Mas, o aumento ficou e quase nada se disse em qualquer instância da UESB.

Estou aluno da UESB, tento completar o segundo semestre do curso de Direito. E a impressão que tenho é a de que quanto mais a gente vai “virando UESB”, menos vemos a UESB. Ela nos engole e ficamos meio viciados no silêncio dela. No ano passado, os professores que deram aula para minha turma nos falavam – com ênfase – em sala de aula sobre todas as questões políticas que estavam em destaque naquele ano. Este ano, nem isso; nem o discurso da sala de aula. Nem Dona Ení, nem Marielle, nem a intervenção no Rio, nem a disciplina optativa sobre o golpe. A UESB, falo da UESB em Conquista – e da UESB comunidade -, está calada. A meu ver, cumpre apenas – e posso dizer que não tão bem – o seu insigne dever de prover aulas, dispor livros na biblioteca e entregar o diploma no final do curso.

Milhares de pessoas pensam diferente de mim e muitos contestarão o meu artigo. Professores queridos podem não gostar do que escrevo, colegas de sala podem me isolar da convivência, o centro acadêmico de Direito pode dizer que faz seminários (lá dentro), os demais CAs idem, o mesmo para o diretório central dos estudantes (existe um na UESB? Como vive? Por onde anda? Do que se alimenta? O que fala e faz? Precisamos desse Globo Repórter, urgente), todos apontando meu equívoco, dirão que estou sendo injusto, pois há diversas atividades na UESB, frequentes, sobre temas importantes. Reconhecendo, isso, aponto um “mas”: é tudo no ilustre reino acadêmico afastado fisicamente e conceitualmente da comunidade. Entre a Avenida Rafael Spínola, no bairro Zabelê, por exemplo, e o campus conquistense da UESB são 17 quilômetros e um vazio de ação, penetração e envolvimento.

Ressalto que não estou me referindo às tímidas ações de extensão, como a atuação do Núcleo de Práticas Jurídicas, etc., refiro-me a um falar e agir mais intenso, mais constante, mais efetivo com a sociedade, em torno de seus problemas, com oferta de pensamentos, posicionamentos firmes e projetos. Envolvimento institucional, político e social. O que me parece é que todos estão muito certos de que estão certíssimos daquilo em que acreditam, no que defendem e no que atacam. Seria bastante insistir no inócuo “Fora Temer” ou no castigado “Lula na cadeia”, praticando a lei da sobrevivência pacífica entre pensamentos que se estranham (apenas mentalmente). Ou seria suficiente, “em defesa da qualidade do ensino público”, manter o mote contra o governo Rui Costa e sua constrangedora política salarial que avilta as categorias de professores e servidores. (Não é ironia, o tratamento é aviltante mesmo).

Espero que a campanha em busca de votos para a reitoria, cuja eleição acontecerá no dia 11 de abril, permita esse debate sobre a relação da UESB – como entidade da qual não se pode recolher a caracterização política e de instituição de poder social – e a sociedade, especialmente quando há demandas dessa sociedade, quer sejam nos episódios em que o poder discricionário (e eventualmente discriminatório) das gestões administrativas públicas, nos diversos níveis, se excede; quer seja nos momentos em que a sociedade busca respostas a questões que pedem o apoio de instituições que têm crédito e serão ouvidas por sua força e tradição, como a universidade.

Entretanto, como costumo ressalvar depois de opinar sobre tais assuntos, posso estar errado em tudo, aceito as contestações e farei os devidos reparos, se for o caso. Mas, assino o que penso e digo porque não sei viver sem pensar de forma crítica e independente, como forma de contribuição, ainda que seja pelo erro, ao debate e à evolução.

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Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 56 anos de idade, 40 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

6 comentários em “Uesb, essa afastada e silenciosa universidade.

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  2. Giorlando Lima

    E sua ignorância, você a adquiriu onde? Ignorância e covardia, protegidas pelo anonimato.

  3. Realmente é triste esse silêncio, até porque muitos se silenciam, ainda como aluno da uesb ano passado fiz um post em meu facebook levantando críticas ao curso que eu fazia. O que consegui foi uma reunião no colegiado com professor tentando me calar e ameaçando processo e colegas contra mim. Existe uma mordaça por muitos que se tornam uesbianos.

    • Além do silêncio institucional, imperam dois sentimentos ditatoriais que calam a imensa maioria dos alunos: a) o professor é inquestionável; b) é uma universidade pública e lhe devemos uma gratidão reverencial. Como a maior parte daquela imensa maioria quer “se formar” sem trauma, aceita o silêncio corroborando-o.

  4. Gio, vc tem toda razão. A Uesb deve muito à comunidade que a financia. Ela entrou no que Boaventura Santos chama de quietismo,

    • Olá, Rubens. Sabemos que há atividades internas, votadas para o público discente. Mas são pouco valorizadas mesmo por quem as promove e ainda menos por quem seria o público alvo. Mas, a UESB “sumiu” da sociedade. Não fala, não mexe, não influencia e não interfere como instituição.
      Obrigado por ler e comentar.

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