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Eleições Política

Não são apenas PT e Bolsonaro neste Brasil

Este blog, embora permanentemente se esforce, como missão, por fazer um jornalismo isento, sem adjetivos ou campanhas parciais, também tem expectativas e torcida “porque não tenho sangue de barata” e sou um brasileiro preocupado como os outros. Não acho que estou sempre certo quando manifesto minhas convicções, apenas as tenho e me expresso nelas baseado; gosto do debate e mesmo quando insisto em defender um ponto de vista, antes que as facas risquem, sendo convencido, assumo. Porém, mais uma vez, exercendo o meu direito de expressão, escrevi o que vai abaixo.

No Domingão do Faustão do domingo, 9, (sim, eu vejo a Globo quando quero) Roberto Frejat, criador do Barão Vermelho, parceiro de Cazuza e compositor de belos rocks e pops disse, ao responder às provocações repetitivas e catequéticas de Fausto Silva, que não sabe “até que ponto ela [a população] tem informação suficiente sobre tudo que pode ser importante pra tomar uma boa decisão e também eu acho que a gente tem poucas alternativas, a gente tem hoje um país com poucas possibilidades de caminhos”.

Nesta segunda-feira, o motorista da Uber que me levou de casa à prefeitura também disse que acha que faltam opções. Desconfiado, ele mencionou alguns nomes e partidos para reforçar sua percepção. “A gente olha e não vê ninguém no meio desse povo todo da política”.

Frejat e o uberista disseram de modo diferente, a mesma coisa. E repetem uma massa gigantesca de brasileiros: não há opções de candidatos ou projetos. Como assim, que não há alternativas, opções?

Em 2014, disputaram a presidência da República 11 candidatos. Do PCO, de Rui Costa Pimenta e do PCB de Mauro Iasi, ao PT de Dilma Rousseff, passando pelo PSDC de Eymael, do PSTU, de Zé Maria, o PSDB de Aécio Neves e PSB de Marina Silva. Lá estavam Levy Fidelix e seu PRTB, Eduardo Jorge e o PV, Pastor Everaldo, com o PSC, e Luciana Genro, do PSOL.

Este ano, sem o PV de Eduardo Jorge, que é vice de Marina (Rede); sem o PCO, que está na coligação do PT; sem o PCB, que está com Guilherme Boulos (PSOL); sem o PRTB de Levy, que cedeu o vice de Jair Bolsonaro (PSL); e o PSC do Pastor Everaldo, que tem o vice de Álvaro Dias (Podemos), ou seja, sem cinco dos partidos que tiveram candidatos na eleição passada, 13 partidos têm nome na disputa presidencial e, apesar da saída de alguns nanicos, de esquerda ou de direita, o espectro continua largo e com candidatos com experiência política, histórias diversas e projetos de política e economia com viés para toda expectativa ou militância (prefiro o termo militância a ideologia).

Ciro Gomes
12 – Ciro Gomes (PDT)
Lula
13 – Lula (PT)
Henrique Meireles (MDB)
15 – Henrique Meireles (MDB)
Bolsonaro
17- Jair Bolsonaro (PSL)
Marina Silva
18 – Marina Silva (Rede)
19 - Álvaro Dias (Podemos)
19 – Álvaro Dias (Podemos)
Alckmin
45 – Geraldo Alckmin (PSDB)
Boulos
50 – Boulos (PSOL)

 

 

 

 

 

 

 

SÃO 13 CANDIDATOS

Tenho ouvido muitas pessoas repetindo Faustão, Frejat e o uberista. Não me arvoro a fazer afirmações sobre as razões para que elas se manifestem assim. Mas, arrisco opinar. Temo que as pessoas estejam muito ligadas nas “grifes partidárias” e nos seus antagonismos diretos. É como se as suas esperanças se limitassem a ver “renovação” no PT, no PSDB, no MDB. Ou que todos os que surgissem acontecessem como o fenômeno Bolsonaro, como opção para afastar as opções que elas rechaçam. “Não há opções” me parece algo como lamentar que elas não apareceram para ajudar a manter o status quo dos partidos de sempre, as agremiações que mandam, que ocupam o espaço há 20, 30 anos. Ora, mas são 13 candidatos, 13 projetos, 13 possibilidades de voto.

O que há  – e nisso Frejat está certo e o uberista confirmou em nossa conversa – é pouca informação, no sentido do interesse das pessoas se informarem. Só do campo do centro para a direita são oito candidatos. Do centro para a esquerda outros cinco. Não apenas dois ou três. Estas eleições não são somente sobre o PT e Alckmin, como se vê na insistente perda de tempo da esquerda em não apenas desidratar o ex-governador tucano, como afastar para bem longe o copo com a água de que ele parece precisar a cada frase que emite.

Fora os candidatos das fotos, ainda estão na disputa: 

16 – Vera Lúcia (PSTU)
27 – Emayel (DC)
30 – João Amoedo (Novo)
51 – Cabo Daciolo (Patriota)
54 – João Vicente Goulart (PPL)

Tampouco é apenas uma disputa de PT e Bolsonaro. Não é a eleição da prisão contra a facada. A despeito da importância fundamental de se ter em vista o que representam o encarceramento de Lula e o atentado contra Bolsonaro, não se trata, essencialmente disso. Esse antagonismo forçado e violento só tem servido para manter vivos os dois nomes que estão no centro dele. E este BLOG não se sente capaz de negar a legitimidade da fé militante de cada lado, dos argumentos de cada um na defesa de seus preferidos, mas também não poderia deixar de dizer que há mais opções, propostas, ideias, vontades, forças, valores sob essa nuvem carregada que cobre a discussão política nacional.

Penso que, ainda por motivos legítimos, todos os lados manipulam, sabem que se não houvesse um não haveria o outro. O conflito é perigoso, mas é necessário à sua sobrevivência ou crescimento. Esse debate programado, maniqueísta e recoberto de lamentações, vitimização, messianismo e dissimulações servem para encobrir as opções que Roberto Frejat e o uberista não enxergam, porque (razão predominante) não deixam.

Uma ideia é começar pelos candidatos a deputado. Nestas eleições, por Vitória da Conquista, três buscam reeleições. Para muita gente são as opções existentes. Estão disputando mandatos, vivendo de mandatos, mandando por mandatos, aumentando patrimônio nos mandatos, há 10, 14, 16, 20 anos. Há outros que pertencem às mesmas estruturas partidárias questionadas – o que não faz deles questionáveis -, já nessa vida há 30, 20, 14 anos. E há os que defendem projetos novos, ideias novas e, provavelmente boas, e o fazem pela primeira ou segunda vez. Mas, não são da estrutura, não fazem parte dos times, das grifes. Por isso, pouco são vistos. Se são vistos, não chamam a atenção.

O formato e as regras das eleições brasileiras para o parlamento servem para manter tudo como está. Tem deputado com mandato inócuo para Vitória da Conquista, mas será reeleito, porque as regras o privilegiam ou porque as pessoas vêm nele o contraponto ao que rejeitam. Não me importa se o Vasco vai ser campeão carioca, só não pode ser o Flamengo, pensam os cruzmaltinos num primeiro instante, mas, lá nas catacumbas da cartolice Flamengo e Vasco só farão de conta que concordam, porque, na verdade, na vera, como dizem, o Bangu e o Bonsucesso é que não podem chegar lá, porque podem quebrar a cadeia de poder, do revezamento conveniente entre os hegemônicos, os fortes, os mesmos.

Eles constroem as opções. E se a gente quer outras, mas se mantém sob o domínio das informações que eles propagam e consolidam, vamos, como Frejat e o uberista, ficar sem perceber (ou entender) as alternativas. E acabar fazendo de conta que escolhemos o menos pior, quando, pode acreditar, há bons ainda. É só olhar por conta própria.

 

 

 

 

 

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4 comentários em “Não são apenas PT e Bolsonaro neste Brasil

  1. Muito bom!

  2. Belíssima análise. Concordo plenamente.

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