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Eleições Jornalismo Política

Com atraso, a minha breve entrevista com Fernando Haddad, candidato a presidente do Brasil.

Imagino que qualquer jornalista gostaria de entrevistar qualquer um dos candidatos a presidente nesta que é a mais importante eleição nacional desde 1989 e uma das mais importantes de toda a história. Dizem que a campanha está fraca, que não se vê campanha na rua, como se fosse uma forma de a população demonstrar seu desinteresse. A verdade passa longe desta impressão. O brasileiro só pensa e fala em política. Mesmo os que ameaçam não ir votar, anular o voto ou votar em branco. As redes sociais são o campo onde essa participação do brasileiro mais se verifica, certo que como um campo minado, mas intensamente movimentado.

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São 13 candidatos a presidente, com cinco se destacando. Haddad era, naquele sábado (15), o segundo posicionado na pesquisa Datafolha, empatado com Ciro Gomes (PDT) e atrás de Jair Bolsonaro (PSL). Foi o meu primeiro entrevistado nesta corrida nacional. Como jornalista queria poder entrevistar todos os candidatos. Fico pensando nas perguntas que faria a cada um. Esta semana anotei em um papel o que gostaria de perguntar a Geraldo Alckmin (PSDB), porque soube que ele viria a Vitória da Conquista no próximo sábado, mas a visita teria sido cancelada e dificilmente será remarcada (se é que já foi marcada alguma vez). Bolsonaro não virá no primeiro turno; Ciro não sinalizou que venha e Marina é certo que não virá. Os demais, com certeza não incluíram a região em seu roteiro.

Então, ter conseguido fazer três perguntas a Haddad, sendo duas delas forçosamente sobre Vitória da Conquista, deverá se constituir na minha maior participação como jornalista nesta campanha presidencial. E para que acontecesse, eu tive que “brigar” com o candidato. Vou explicar.

Quando a pick-up com Haddad, a esposa dele, Ana Estela, a candidata a vice, Manuela D’Ávila; mais o governador Rui Costa e o candidato a senador, Jaques Wagner, parou ao lado da Banca Central, na Praça Barão do Rio Branco, foi sinalizado que aconteceriam breves discursos, para uma saída rápida, porque a agenda do presidenciável estava atrasada e eles ainda teriam evento em Jequié. Coletiva de imprensa, entrevista, só se fosse um golpe [desculpem a má palavra] de sorte. Mas, eis que vejo o meu amigo, mestre e colega José Raimundo Oliveira e o meu outro amigo Humberto Filho já em cima do carro, ao lado de Haddad com a câmera e o microfone da Globo se destacando entre mãos gesticulando e cabeças se virando para um lado e para outro.

IMG_9626Eu havia passado todo o trajeto colado no carro da comitiva, fui pisado, empurrado, xingado, porque queria fazer a foto que ilustraria a matéria do BLOG sobre a visita do candidato do PT a presidente. E antes, à noite, fiquei elaborando duas perguntas a fazer a ele. Uma eu fiz. A que não fiz seria: “A pesquisa Datafolha mostra o senhor e Ciro empatados no primeiro turno e ele ganha todas as simulações do segundo, o senhor imagina que pode haver um entendimento já agora, visando, quem sabe, passar de Bolsonaro já no primeiro turno?”. Quando Haddad terminou de falar com José Raimundo, o carro saiu e seguia em direção ao aeroporto. Eu estava frustrado. Meu planejamento e esforço estavam sendo desperdiçados. Resolvi que não seria assim.

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Quando a pick-up passava perto de mim, deu uma pequena parada. Como fiz durante todo o percurso, de pouco mais de meia hora, da Praça da Escola da Normal até o Saruê (onde eu me descolei do carro para cortar caminho pela Alameda Lima Guerra), eu gritei o nome do candidato, “Haddad! Haddad!”. Ele olhou, se abaixou um pouco e eu tasquei: “Só vai falar para a Globo? Logo a Globo? Tem mais imprensa!”. Foi quando Haddad ganhou um ponto crucial comigo e respondeu que falaria comigo, daria a entrevista logo que parasse o carro de novo. Mas, ao que parece ele não tinha combinado com todo mundo e o carro seguiu. Eu atrás. Em frente à agência do Bradesco alguém avisou à assessoria dele que havia uma repórter do SBT querendo entrevistá-lo. A pick-up dá uma paradinha e o pessoal chama a moça e seu cinegrafista. Haddad olha para mim, faz um sinal para eu me aproximar e estica o braço para me ajudar a subir.

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Esta foto foi enviada pelo colega jornalista Mauri Azevedo. Dá para ver que estou sobre o carro, ao lado do candidato

Não foi fácil colocar o corpanzil de 110 quilos na caçamba do carro. Uma pena que ninguém fez uma foto. Se fosse uma mulher com uma flor na mão, uma criança parecida com aquela da foto célebre de Lula ou mesmo um político desses que fazem tudo para aparecer nas filmagens, alguém teria registrado a cena do candidato a presidente que ajudou, com esforço braçal, um jornalista a fazer seu trabalho. Quando eu já estava no carro, bati no ombro dele e disse que ele havia ganhado mais um ponto e poderia estar, ali, a tirar um voto de Ciro. (Não tirou, ainda). O importante, porém, é que eu estava ao lado de Fernando Haddad – a quem comecei a conhecer melhor por meio do excelente perfil escrito peça jornalista Clara Becker, em outubro de 2011, na revista Piauí – e poderia fazer as minhas perguntas.

Esperei a repórter do SBT fazer as perguntas dela e filmei uma parte da entrevista. Estando em cima da pick-up recebi do jornalista Mário Bittencourt, do Correio, um celular para segurar e gravar as respostas do presidenciável e também o microfone de José Raimundo. Mas, logo, ambos também se ajeitaram e não precisavam mais de minha ajuda. O governador Rui Costa organizou a “coletiva”, levando-nos para a frente da carroceria do carro, onde já estava, apoiado no “Santo Antônio” ou outro nome que se dê, o repórter da Folha/UOL, Bernardo Barbosa. O outro a participar da “coletiva” foi Mário.

Eu queria saber quando Haddad iria começar a falar dele mesmo e apresentar seu plano de governo, quando a estratégia da eleição deixaria de ser apenas representar Lula. Ele deu uma boa resposta. Não fiz a pergunta sobre Ciro, mas insisti para que o candidato falasse de Vitória da Conquista, o que já tinha em mente para o município e qual a sua mensagem direta para a população. Mas sobre isso Haddad ainda não tinha resposta e generalizou. Não que fosse ruim, mas ficou aquém do que eu esperava. Mas, para uma entrevista tão sonhada e tão difícil de conseguir eu acho que cumpri bem minha tarefa. Já entrevistei José Sarney, FHC, Lula e Dilma. O primeiro já na condição de ex-presidente; FHC e Lula como candidatos que viraram presidentes, e Dilma como presidente. Haddad será?

A CONVERSA COM HADDAD

A ENTREVISTA VAI REPRODUZIDA NA ÍNTEGRA, COMO ESTÁ NO VÍDEO POSTADO NOS SITES E REDES SOCIAIS DA CAMPANHA DELE.

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Haddad – (Respondendo a pergunta de Mário Bittencourt sobre pesquisa Datafolha, divulgada na véspera, em que ele e Ciro Gomes estavam empatados (13% cada) e Bolsonaro na frente com 26%.) – Eu sou sempre muito cauteloso com pesquisa, nós começamos uma campanha faz três dias, apenas, estamos no terceiro dia de campanha e sabemos que temos o melhor projeto para recuperar o país.

Mário Bittencourt – A gente ouve o povo chamando você de Andrade mostrando que não tem muito conhecimento sobre o senhor, como é que o senhor vê essa questão?

Haddad – A gente vê com naturalidade.

Giorlando – Primeiro, parabéns pela entrevista ao Jornal Nacional, pela serenidade, principalmente. O senhor tem feito discursos, a maior parte do tempo, na televisão e comícios, defendendo o resgate do projeto do ex-presidente Lula, se referindo à necessidade de liberdade do presidente Lula e dos direitos dos brasileiros, entretanto, com três ou quatro dias de campanha, eu queria lhe perguntar, em que momento o Haddad vai começar a falar de si mesmo e de suas propostas individuais, das suas próprias ideias?

Haddad – Nós só tivemos, desde a terça-feira, dois programas eleitorais na TV, então, a partir de agora, de hoje [sábado, 15] começa a entrar o plano de governo. Era natural que nós tivéssemos que insistir na candidatura Lula, que era um direito de ele concorrer. A ONU exigiu do Brasil o cumprimento de um tratado internacional que foi descumprido, então, a defesa dele, para nós, era muito importante. Hoje começa a campanha propriamente dita, porque nós registramos uma nova chapa há apenas três dias. Então, nós vamos ter de contar agora com as três próximas semanas para levar nosso plano de governo para todo país.

Giorlando – O que o senhor sabe de Vitória da Conquista e já há alguma coisa na sua cabeça pensando neste município?

Haddad – Olha, rapaz, eu lancei as bases da Universidade Federal aqui, de Vitória da Conquista. Fui o ministro que mais oportunidades criou no interior da Bahia. Se você for ao Oeste, vai lá em Barreiras, tem uma universidade federal; você vai em Porto Seguro, tem uma universidade federal ou tem um instituto federal; em Teixeira de Freitas, em Lauro de Freitas. Ou seja, estive na Bahia inteira, lançando as sementes de uma educação que oferece oportunidade para nossa juventude, e fiz isso porque tinha um presidente, quando eu era ministro, que sabia do déficit de atenção do governo federal em relação à Bahia, por 100 anos. Então, começamos a corrigir esse desequilíbrio e não podemos parar. O governo Temer paralisou tudo e temos que retomar tudo, porque o Nordeste é muito importante para puxar o crescimento econômico do Brasil como um todo. As oportunidades estão aqui. Olha o que está acontecendo na área de energia. Na área de energia renovável, o Nordeste está dando exemplo pro mundo, energia eólica, energia solar… Pegue o corredor do [Rio] São Francisco, já é uma das áreas de maior produção de energia eólica. E é um corredor que se presta a isso, para trazer energia barata para a população.

Bernardo Barbosa – Candidato, uma das propostas do senhor é retomar obras paradas, só que o governo está com as contas no vermelho, como é que vai ser feito isso, vai se endividar mais ou não?

Haddad – Não, não. Tem que ter uma conta separada para investimento, para não ter desinvestimento. Obra parada é prejuízo, gente. Daqui a pouco, você perde o que você investiu, você não pode fazer uma contabilidade burra e não imaginar que você parar obra com um ou dois anos você vai ter que refazer ela inteira e os bilhões que já foram investidos, você vai perder? Comece uma reforma na sua casa e para pra você ver o que acontece. Você perde tudo. Então, tem que ter uma conta especial, uma espécie de cheque especial, a juro baixo e não nesse juro aí, mas tem que ter uma conta especial para terminar as obras que estão com 70, 80, 60% por cento concluído, para não perder o dinheiro do povo que já está lá enterrado.

Bernardo Barbosa – Mas essa conta desse cheque especial viria de onde?

Haddad – Quando a gente rever o teto de gastos nós vamos voltar para uma matriz fiscal sustentável, mas com uma conta de investimento para geração de emprego, uma conta que tem que durar o tempo para a retomada da economia, assim como vai acontecer com a reforma bancária. Se a gente não fizer a reforma bancária, ninguém vai tomar emprestado para gerar emprego…

Assessor – Obrigado, senhores…

Bernardo Barbosa – O senhor não fica preocupado com essas simulações que colocam o senhor empatado ou atrás no segundo turno?

Haddad – Mas, eu estou há três dias, sou candidato há três dias só. Pedir para um candidato que tem três dias de campanha ser um campeão de segundo turno em todos os cenários… Mas, nós vamos chegar lá.

Giorlando – Uma palavra para Vitória da Conquista, Haddad.

Haddad – É contar com a gente, contar com o PT. O PT tem um carinho pela região toda. A gente sabe do potencial que tem aqui. Nós vamos para Petrolina, vamos para Juazeiro. O Nordeste inteiro recebeu muito investimento federal.

Eu, como ministro da Educação, sem sombra de dúvida, fui o ministro que mais investiu no Nordeste. Não tenho dúvida em afirmar. Desafio alguém a apresentar um outro nome de quem tenha investido mais no Nordeste do que eu como ministro. E era o quê? Era um sonho do Lula: equilibrar o jogo no Brasil.

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Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 56 anos de idade, 40 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

3 comentários em “Com atraso, a minha breve entrevista com Fernando Haddad, candidato a presidente do Brasil.

  1. Ótimo trabalho, Giorlandão!

  2. uau… parabéns pela matéria; ficou incrível… bem escrita e com ótimo conteúdo jornalístico. parabéns novamente.

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