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Eleições Política

Uma carta para minha sobrinha que eu amo e disse que votará em Bolsonaro

Os eleitores de Jair Bolsonaro que me conhecem – alguns são meus amigos e outros são da minha família – sabem que eu não faço política adjetivando pessoas, tratando candidatos como coisa, ainda que alguns deles possam ter a vontade relegar a mim e a outros que os contestam à condição de coisa. Não ataco. Por que eu atacaria algum dos meus irmãos ou irmãs, logo elas, com quem posso brigar pelo tipo de assunto que, comumente, pululam como conflito nas famílias, mas que nunca deixaria de amar incondicionalmente? Eu daria a meus sobrinhos e sobrinhas o horroroso epíteto de fascista ou nazista? Não, eu fico triste e falo para eles da minha tristeza, com argumentos que possam ser entendidos pelo amor e não pelo ódio.

Uma das minhas sobrinhas mais amadas – porque não nos enganemos, alguns são mais afetuosos e atraem mais afeto – disse que votaria em Jair Bolsonaro. Já ouvi tanta gente dizendo isso, gritando isso, brigando por isso, gente que eu gosto, que imaginava que não me surpreenderia com mais uma ou outra pessoa próxima fazer a mesma defesa. As pessoas têm seus motivos. Costumo dizer que para determinada reação uma pessoa pode não ter razão, mas sempre terá um motivo. Nem todos que estão dispostos a votar em Bolsonaro estão com um plano de dominação do Brasil e de exterminação dos que são contra. Há razões culturais, religiosas, econômicas. Eu tenho medo de Bolsonaro e muita gente tem medo do PT.

Eu não tenho culpa se o PT não se preocupou em desfazer o medo que minha sobrinha tem dele. Marina quis que Haddad fizesse um mea culpa. Mas, o PT não erra. E precisa livrar Lula da cadeia, o que eu também desejo, mas sem abrir mão da minha liberdade de escolha. E eu voto em Ciro. Mas, eu me sentiria muito culpado se deixasse a minha sobrinha votar em Bolsonaro sem que eu falasse a ela da ameaça que ele representa. Nem digo que Jair Bolsonaro vai perseguir, torturar ou mesmo matar os comunistas, os petistas, os gays, os negros, as mulheres, os que o criticam. Mas, sei de muita gente – muita mesmo – que pensa que se JB for eleito, é isso mesmo o que deve acontecer. “Pelo menos mandar a calar a boca”, como se disse um apoiador de proa do capitão reformado do Exército.

Por isso eu dormi triste na noite em que li a postagem da minha muito amada sobrinha no Instagram. No dia seguinte lhe falei do que eu senti. E acho, agora, que é a melhor coisa que eu posso dizer a qualquer pessoa sobre o que pode significar a eleição de Bolsonaro. Por isso, compartilho com vocês o que eu disse a minha sobrinha, uma jovem mãe de três filhos tão lindos que eu nem sei como descrever. Os nomes dela e de outras pessoas mencionadas ficarão ocultos.

“***, esse “ele sim” é Bolsonaro?”

– Sim, tio. Não por ser ele o melhor. Mas, é a opção que me resta. Relutei, pois o acho um tanto desequilibrado, mas, diante do meu critério de votação (contra aborto, ideolohia de gênero, ficha limpa, etc.), será ele a receber meu voto. Economicamente falando, seria Haddad, mas, por ser católica, a questão do aborto e a ideologia de gênero são pontos cruciais na decisão.

Bolsonaro, realmente é um bosta, mas o ensino da ideologia de gênero que Hadad, quando ministro da educação, estava querendo nas escolas me deixou muito preocupada. E nessas horas uma mãe deixa de pensar em si para pensar nos menores. Sobre o aborto todos sabem o posicionamento dele e dos partidos que o apoiam, principalmente o PCdoB, vice na chapa. É dolorido ter que votar em Bolsonaro, mas esses itens pesam mais. Não voto nele por concordar com ele. É complicado.

“Eu fico apenas triste. Haddad pode até pensar o aborto de modo diferente de você e defender a liberdade de escolha sexual, mas isso não forçaria você a abortar ou defender o aborto ou a mudar seu gênero ou orientar seus filhos nessa direção. Mas, Bolsonaro propõe limitar a liberdade, ele faz apologia do estupro, ele homenageia a tortura, ele é racista e misógino. Isso é algo que impõe, ele dá escolha, ele sinaliza que agirá com essas ideologias. Este seu tio aqui, que ama você de um jeito que a alma se alegra por sua existência, não vai virar gay por causa de Haddad ou de outro candidato que defenda direitos iguais, incluindo a união homoafetiva. Eu não vou mandar ninguém abortar, defendo a vida até a última circunstância, mas poderei ser vítima do modo de pensar de Bolsonaro. Essa possibilidade real e  prática, sinalizada nos discursos e na história dele, é o que me dá medo. Eu adoro a liberdade. Adoro defender que cada um se vista de acordo com suas convicções e seu senso de liberdade e direito lhe indicam; que cada um se porte de acordo com sua ética e coerência, em qualquer lugar, a qualquer momento. Isso, minha amada ***, Bolsonaro não defende.

Eu ontem fui dormir muito triste. Uma tristeza que me confirmou o quanto eu amo você, os pequenos ***, *** e o ainda menorzinho ***. Me deixou mais claro o quanto eu amo sua mãe, seu pai e sua irmã, minha querida ***, e, sem o sangue, mas com a familiaridade, o seu marido. Bolsonaro me dá medo. A tortura me dá medo. O racismo me dá medo. A ameaça à liberdade me dá medo. Porque essas coisas tiram a minha condição de escolher.

Ontem, achei fotos de meu pai. E lembrei que ele sofria por ser negro e pobre. E que ele tinha consciência política. Fiquei feliz por saber que ele não apoiaria uma proposta como a de Bolsonaro. Porque ele lutou para que a tirania sumisse do Brasil. Ele amava a liberdade e a democracia. Mas, depois, à noite, fiquei triste.

Mas, mesmo triste com o passo que você pensa em dar, eu a amarei sempre, cada vez mais. Essa tempestade vai passar. Estou te dizendo essas coisas não é meramente com intenção de mudar sua escolha. Eu a respeito. É porque eu não me sentiria honesto se não lhe dissesse do meu medo. Se não lhe falasse do que sei que pode vir. Fiquei triste porque é como se eu visse seres humanos lindos e bons levados para uma escolha tirânica, apenas porque o outro lado é aquele que pensa em coisas que eles não fariam. E que essas pessoas lindas que eu amo podem colocar no poder um homem cuja política e prática podem tirar a minha liberdade e até a minha vida.

Amada, eu vou votar em Ciro. Mas, vamos falar de Haddad, que você mencionou. Ele, pelo que eu saiba, nunca propôs ou impôs ideologia de gênero nas escolas. Isso é uma mentira. Sabe aquele kit sexo? Existe, alguém o fez. Mas, não foi Haddad, nem o governo petista, nem Ciro. Mas, não vem ao caso. Nem Haddad, nem Lula (que cometeu muitos erros) e nem Dilma (que fez um péssimo governo) fizeram projetos nesse sentido ou a favor do aborto.

Nem projeto de lei, nem projeto de orientação. Se mostrarem um a você é fake, falso, mentiroso.

Entretanto, ***, sobre essas questões que a angustiam, a verdade é que o mundo caminha nessa direção. Mesmo com Bolsonaro, em poucos anos as regras serão as mesmas no mundo todo. Lembra que há 50 anos a Igreja não admitia o divórcio? Que os fiéis católicos não podiam – não podia mesmo! – comer carne na Sexta-feira da Paixão. Lembra que há 30 anos ninguém podia fazer nada na Igreja, só os padres? Hoje até alguns sacramentos, como o casamento, podem ser feitos por leigos. Há mais exemplos e mais drásticos, de mudanças que ocorreram porque o mundo mudou, porque a humanidade fez a transformação, com os políticos a reboque.

Mas, essas mudanças não devem nos colocar contra a parede ao ponto de abrirmos mão de algo mais fundamental, que é o direito de escolher, de ir e vir, de protestar, de concordar, de exigir. Não há uma imposição. Porque o importante é sua estrutura pessoal, sua moral, sua certeza, sua fé, sua prática, seu exemplo.  Seus filhos serão o resultado do seu amor, da sua proteção, da educação que você e *** derem para ele.

Mas, se o seu candidato quiser criar uma regra que você não concorde, seja ela simples ou profunda, que apenas seja contrária ao que você prefere ou algo que altere o curso da sua vida, seu emprego, a escola de seus filhos, a sua relação com a sociedade, você pode não ter direito a dizer nada. É disso que estou falando. A liberdade é melhor que tudo.

Mas, agora, deixemos esse assunto para o dia 7 de outubro. Tire o susto do seu coração e deixe a sua consciência falar.

Deus abençoe você e mantenha seus anjos a cuidar de sua vida.

Beijo carinhoso.”

P.S.: Veja a foto abaixo. Eu não voto nele. Meu candidato é Ciro. Mas, você consegue imaginar Bolsonaro me erguendo pela mão, para me ajudar a subir no carro onde ele estava e me dar uma entrevista, com um semblante sereno, como mostra a foto? Há uma diferença maior. Deus é o único que sabe e penetra no coração, nas mentes e no tempo. Ele te iluminará e protegerá de qualquer um.

Haddad e Giorlando

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Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 56 anos de idade, 40 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

4 comentários em “Uma carta para minha sobrinha que eu amo e disse que votará em Bolsonaro

  1. Leninha Vila Nova Cavalcante

    Essa carta pode ser assinada com meu nome. Ela traduz sem tirar nem pôr o que penso. Eu ja sabia que vc é o cara da inteligência, da coerência e vi agora mais forte um homem sensível e essencialmente amor.
    Parabéns GIO. E vamos a frente. A história e a memória não deixará esquecer desta eleição..
    Deus cuida de nós.

  2. Maria lzabel de Quadros Vivas

    Quanto afeto e lucidez nesse texto. Obrigada pela escrita tão linda em tempos tão dificeid de ódio e egoísmo.

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