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Eleições Política

Melhor já ir agradecendo: Obrigado, Bolsonaro!

Ernesto Marques*

Um dos próceres do movimento tenentista dos anos 1920, o general Ernesto Geisel, quarto general-presidente da ditadura pós-1964, anotava com o rigor aprendido nas boas escolas das Forças Armadas, que a presença marcante de militares na política vem dos tempos coloniais. “Tem raízes históricas, mas agora, com a evolução, vai acabar” disse o general que ordenou o fim lento e gradual da ditadura, numa série de entrevistas organizadas em livro (Ernesto Geisel / Maria Celina D’Aaraújo e Celso Castro, Ed. FGV, 1997). Na mesma entrevista, concedida em 1996, ele citava Bolsonaro, “um caso completamente anormal, inclusive um mau militar”, e então o único deputado egresso da caserna, como prova de sua tese de que a ingerência dos militares diminuía com o avanço civilizatório do país.

A ascenção ao segundo turno destas eleições, de um “bunda-suja”, como os altos oficiais chamam os militares medíocres que não evoluem na carreira, prova o erro de avaliação de Geisel. Estamos diante da possível eleição de um sujeito chucro, defensor da ditadura vencida pela resistência democrática, que teve o atestado de óbito assinado por Geisel e Golbery e a última pá de cal jogada pelo general Figueirdo enterrou. Defensor da tortura e da matança indiscriminada de brasileiros. Mesmo derrotando-o nas urnas, precisamos agradecer ao capitão que um dia planejou explodir quartéis como forma de reivindicar melhorias salariais para os colegas de farda. Devemos gratidão a Bolsonaro por, dolorosamente, provar que ainda não evoluímos.

Em outros países sul-americanos também infelicitados por ditaduras longevas, militares covardes, como o obscuro coronel Brilhante Ustra, morreram cumprindo pena de prisão pelos crimes cometidos contra a humanidade. Se um monstro sádico como Ustra é saudado como heroi por um medíocre oficial reformado, e este é alçado à condição de grande líder nacional, é sinal de que não aprendemos uma importante lição de história: conciliação demais leva a retrocessos. O trabalho das muitas comissões da verdade instauradas no marco do cinquetenário da quartelada de 1o. de abril de 1964, em vez de processos judiciais, resultou apenas numa compilação de dolorosas memórias. Devemos gratidão a Bolsonaro por ser a prova viva deste gravíssimo erro histórico.

Com muita coragem intelectual, o sociólogo Jessé Souza, faz uma crítica demolidora do que ele chama de “vacas sagradas” das ciências sociais brasileiras (Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Raimundo Faoro). Como toda tese, é discutível e questionável, mas o candidato racista e misógino se nos oferece como prova do acerto teórico de Jessé. A epidemia de ódio, intolerância e preconceito disseminada com gáudio por Bolsonaro e bolsominons não deixa margem para qualquer dúvida. A festejada miscigenação baseada no estupro de negras e indígenas marca o nosso DNA com o gene da violência. O homem cordial não passa mesmo de uma agradável, elegante e bem elaborada quimera. E patrimonialismo, como explicação para a histórica promiscuidade entre público e privado, é uma bobagem perto da herança escravocrata que faz a elite do atraso odiar o povo que sustenta sua opulência gatuna. Um sujeito diz ter lido o livro de um torturador e consegue provar teses que resultaram de décadas de dedicados estudos de um sociólogo. Mais uma vez, obrigado, Jair!

Grandes impasses paralisam o Brasil no delírio persecutório contra a corrupção, como o cachorro correndo atrás do próprio rabo, e o último batião da esperança nacional é a Justiça. Desconhecemos a covardia do STF, ao engolir o AI-2 e engordar sua composição com mais 5 ministros, em 1965, para garantir maioria aos ditadores militares – no sábado 27, véspera da eleição, o Ato Institucional n.2 fará aniversário de 53 anos. Ignoramos o manto da impunidade secular de uma corte superior que, criada em 1891, condenou pela primeira vez um acusado por corrupção já no século XXI com o voto decisivo de uma ministra decidindo sem provas, mas com base “na literatura” que lhe permitia isso. É mesma ministra hoje presidente do Tribunal Superior Eleitoral, corte encarregada de apurar a denúncia do caixa 2 que teria financiado a difusão de notícias falsas que influenciou o resultado do primeiro turno. É a ministra chamada de “vagabunda corrupta” e ameaçada por um coronel reformado, diante da remota possibilidade de cassação do seu Messias. Mais uma vez, obrigado, por nos provar que a justiça não é para todos.

E um agradecimento corporativo! Dada a natureza eminentemente crítica da profissão, é quase impossível construir grandes consensos entre jornalistas – e isso é um enorme entrave para a organização das nossas entidades representativas. Mas as crescentes agressões físicas e morais, as cada vez mais frequentes ameaças e tentativas de intimidação contra profissionais e empresas jornalísticas, junto à promessa explícita de restaurar o terrorismo de Estado, conseguiram o que nós sequer sonhávamos. Mais de 300 jornalistas baianos sustentam um manifesto contundente contra o autorismo e em defesa da democracia. Nunca experimentamos tamanha mobilização e unidade em torno de uma causa. Obrigado, Bolsonaro!

E, finalmente, obrigado também pela sua intríseca estultice e incontinência verbal. Aquele discurso transmitido de casa por celular serviu para abrir os olhos de muita gente. Não apenas para covardia de quem foge a debates e entrevistas livres pela completa falta de consistência. Mas, sobretudo, para o caráter autoritário e violento. Quando tudo parecia perdido, a verborragia alertou muitos cristãos para a contradição de votar em quem seria capaz de torturar e matar o próprio Cristo por lutar por justiça e paz.

Parece já ter sido bastante, mas verdades nunca são demais, mesmo quando tão dolorosas. Então habla, Bolsonaro! Nós o agradeceremos e a história o condenará ao merecido ostracismo.

IMG_0622 (2017_05_14 01_16_18 UTC) (2)Ernesto Marques é jornalista e radialista, ex-secretário de Comunicação na administração Guilherme Menezes (Vitória da Conquista)


PUBLICADO POR ERNESTO EM SEU PERFIL DE FACEBOOK. CORRIGIDO PELO AUTOR.

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Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 56 anos de idade, 40 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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