Primeiro é contra o PT, depois é Bolsonaro. O que dizem três eleitores conquistenses do candidato do PSL

Jair Bolsonaro, do PSL, teve 34,76% dos votos dos conquistenses. O candidato do Partido dos Trabalhadores, Fernando Haddad, teve 42,81%, praticamente o mesmo percentual obtido pela ex-presidente Dilma Rousseff no primeiro turno das eleições de 2014 (42,73%). Antes de prosseguir, um esclarecimento histórico: nas quatro eleições anteriores a 2018 o PT só venceu os dois turnos em Vitória da Conquista com Lula em 2002. Na eleição seguinte quem ganhou no primeiro turno no município foi Geraldo Alckmin (PSDB) e Lula venceu o segundo. Em 2010, José Serra (PSDB) venceu Dilma Rousseff nos dois turnos. Já em 2014 Dilma venceu no primeiro turno, mas perdeu no segundo para Aécio Neves (PSDB).

Nestas eleições, as primeiras em que o PSDB não tem protagonismo, desde 1994, quando elegeu FHC, o candidato que está à frente das pesquisas e aparece como virtual eleito, Jair Bolsonaro, perdeu a disputa para Fernando Haddad nas urnas conquistenses. O PSDB, com Alckmin foi o quarto colocado, ficando com 4,80% dos votos.

Retomando a matéria

O PT perdeu a eleição de 2016 para prefeito de Vitória da Conquista depois de uma campanha em que, assumidamente, a meta dos adversários era tirar o partido do poder municipal depois de 20 anos de sucessivas vitórias eleitorais. Com a vitória do candidato do PMDB (atual MDB), a expectativa dos vencedores era de que nas eleições de governador e presidente o PT seria definitivamente enterrado. As urnas mostraram diferente e, no primeiro turno, apesar do fenômeno Bolsonaro, Haddad venceu em Vitória da Conquista, na esteira do sucesso administrativo, político e eleitoral do governador Rui Costa, que obteve 63,2% dos votos e ajudou o candidato a presidente petista a cravar uma frente de mais de 13 mil votos sobre o presidenciável do PSL.

Para o segundo turno, os seguidores de Jair Bolsonaro querem inverter o quadro. Acreditam que o seu candidato terá uma frente igual ou maior que a registrada no segundo turno da eleição de prefeito, quando Herzem Gusmão venceu com uma diferença de quase 25 mil votos. Para tentar alcançar essa façanha, os bolsonaristas usam com intensidade as redes sociais e realizam carreatas gigantescas, a última com a presença do senador não reeleito Magno Malta (PR-ES). Quem olha de fora não vê uma pessoa à frente da campanha, um líder, apesar de o vereador David Salomão (PRTB), um dos primeiros a defender o candidato do PSL em Conquista, ter chegado a quase 15% dos votos válidos para deputado federal no município.

O grande grupo que participa dos eventos de Bolsonaro é composto por pessoas que basicamente se identificam pela ojeriza ao Partido dos Trabalhadores. Essa é a principal ligação entre os que mais se destacam na campanha. Ser contra o PT é o motivo anterior à escolha do candidato Bolsonaro. Para a maioria, o que mais importa ainda é tirar o PT “de uma vez por todas”, embora classifiquem o candidato do PSL como capaz de fazer um bom governo e como um símbolo anticorrupção.

O SENADINHO

No Café Maniff, localizado na Rua Rotary Club, bem em frente à OAB, se reúne há muito tempo um grupo que gosta de conversar sobre – e fazer – política. Recebeu o nome de senadinho. Quase todos os membros do grupo apoiam Bolsonaro. Fora um ou dois que ainda resistem, quem não apoiava no primeiro turno decidiu apoiar no segundo. Ou mesmo antes, como o secretário municipal de Mobilidade Urbana, Ivan Cordeiro, do PSDB, que deixou de apoiar Geraldo Alckmin em pleno primeiro turno. O senadinho é um grupo masculino, composto por empresários, médicos, advogados, administradores, fazendeiros, aposentados, todos muito bem situados na vida, como é do perfil da maioria do eleitorado de Bolsonaro. São capitalistas ou liberais.

Um registro de senadinho (Foto Blog do Anderson 20 de fevereiro de 2018)
Um registro de senadinho. (Nem todos nesta foto do Blog do Anderson, de 20 de fevereiro de 2018, participam do grupo)

Mas, olhando de longe não dá para dizer que nenhum deles é fascista ou deseja fazer renascer o nazismo. De perto a gente vê que não são. E se algum posicionamento ou concordância com o que diz o candidato do PSL expõe um exagerado conservadorismo, nada se acentua mais do que o ódio ao PT e a repulsa ao comunismo, condição em que eles põem o partido de Haddad, mesmo que o partido de Haddad não seja comunista.

Como ocorre com quase todos os que escolheram votar em Bolsonaro eles costumam concordar e reproduzir, espalhando nas suas redes sociais, o que recebem no WhastApp a favor do candidato e, ainda mais, contra o PT e os comunistas, os vermelhos a que se refere o presidenciável. Mas, não saem dando sopapos quando são questionados por quem não acredita nas mesmas coisas que eles. Talvez seja essa característica que os livre da pecha de fascistas que cabe a muitos – muitos mesmo – dos que apoiam o mesmo candidato que eles. Dá para conversar com o senadinho sobre política, ainda é possível contestar suas posições e criticar falas e atitudes de Jair Bolsonaro e família sem ser varrido do mapa – pelo menos, por enquanto. Mas, não é possível obter deles concordância. É improvável ouvir um “pode ser” quando a fala for discordante, um argumento contrário. O sobrenome do senadinho, quando se fala em Bolsonaro, é convicção.

O BLOG solicitou uma entrevista coletiva, um bate papo com o grupo, lá no Maniff. A ideia seria ouvir dos membros as razões por que cada um deles está com Jair Bolsonaro. Conversar sobre política sem a carga de tensão que se verifica na campanha eleitoral, em si. Pessoalmente, a impressão é de que a maioria dos componentes do famoso senadinho escuta, fala e debate democraticamente, não representando, em suas atitudes e comportamentos, a ameaça e a raiva contundentes e ostensivas que milhares (talvez milhões) de outros bolsonaristas praticam nas redes sociais e nas ruas de cidades brasileiras (e agora, até nos campus universitários).

O pedido de entrevista foi submetido a uma votação e não houve unanimidade. Alguns sugeriram que não falassem com o BLOG. Mas, sendo o Maniff, em tese, um espaço social neutro, frequentado por jornalistas e poetas, até, acabou por ocorrer a coincidência do encontro entre grande parte do senadinho e o responsável pelo BLOG – e o bate papo aconteceu. Três dos mais proeminentes componentes do grupo falaram sobre as suas razões para votar em Bolsonaro. Os médicos Paulo Maurício Pales (um amigo de longas datas) e Alan Fernandes Costa e o empresário Gideon Almeida.

Paulo Maurício Pales
Paulo Maurício Pales

Para Paulo Maurício, o voto em Bolsonaro é uma decisão de primeira hora. Antes mesmo da campanha eleitoral ganhar as dimensões que ganhou, quando o candidato do PSL ainda era uma mera possibilidade. “Voto em Bolsonaro porque sei que ele é preparado”, afirma. “Ele sempre foi firme na luta contra a corrupção e nunca mudou sua postura e nem pensei em outro nome”, explicou. Segundo Paulo, Bolsonaro sempre foi o mais firme ao apontar a corrupção de que é acusado o PT, “a pior coisa que já aconteceu na nossa política”. Ele diz que se não houvesse Bolsonaro ele poderia apoiar e votar em outro candidato contra o PT, mas, “é Bolsonaro o que tem as melhores condições para reparar o estrago que eles fizeram e fazer as mudanças que o país precisa para voltar a crescer, a se desenvolver sem roubalheira”.

Gideon e Bolsonaro
Gideon com Bolsonaro

O empresário Gideon Almeida também diz que seu apoio a Bolsonaro se justifica na confiança de que ele pode fazer um bom governo. “Voto nele, porque amo o Brasil, e acredito que suas propostas de governo para a educação, segurança, geração de empregos, incentivo ao empreendedorismo e combate à corrupção atendem aos anseios da sociedade brasileira”. Gideon diz que se o adversário de Bolsonaro não fosse o PT, iria depender muito de quem fosse o adversário do pesselista: “Eu iria ouvir as duas propostas para decidir, mas confesso que em se tratando do PT facilita a decisão, pois diante de tantas denúncias de corrupção, jamais votaria no PT ‘novamente’.”

FIGURA DE LINGUAGEM

Sobre o medo que as pessoas dizem ter de um futuro governo com Bolsonaro à frente, considerando falas do candidato, como a de que vai petralhar petistas ou varrer vermelhos do mapa, o empresário diz que essas manifestações são “figuras de linguagem que não traduzem sua verdadeira intenção, uma frase isolada que não representa a real intenção do candidato”, acredita, mas ressalta que, em sua opinião, “a própria população gostaria que ele realmente jogue duro com a bandidagem, com traficantes, com assaltantes, estupradores, etc.”. Ele afirma que não liga para o que dizem os adversários de Bolsonaro. “Não levo em conta o que dizem os esquerdopatas, são extremamente tendenciosos e ideologistas, e muitos estão comprados via bolsa família e outros meios.”

Gideon fala que no governo de Bolsonaro só serão penalizados – “pelo combate à violência” – os bandidos (vão colher o que estão plantando), por outro lado o homem de bem não terá com o que se preocupar, “pelo contrário”. Para ele, “não há risco para a democracia, pelo contrário, haverá mais liberdade e mais democracia”. No final das respostas, enviadas por escrito, Gideon Almeida classifica o candidato do PT, Fernando Haddad, como um fantoche, com “chance zero de vencer”.

Alan Costa Fernandes (2)
Alan Costa Fernandes

O médico Alan Fernandes, um dos nomes mais destacados da nova geração de políticos de Vitória da Conquista, com trânsito em todos os setores, explica que vota em Jair Bolsonaro porque “ele é um cara anticorrupção, ficha limpa”. Alan fala que Bolsonaro “tem um discurso mais forte, contudo, ninguém consegue colocar nele a imagem de corrupto”. Já no PT, segundo Alan, são pouquíssimas exceções as pessoas sérias e cita o deputado estadual José Raimundo Fontes como uma dessas exceções. “Mas, o PT nacional, que eu chamo da nobreza petista, de burguesia petista, tem uma cartilha que todos os militantes rezam por ela e ninguém vai de encontro. Então, o partido só conseguiria sair dessa lama com esses poucos nomes de pessoas decentes, mas eu acho muito difícil, porque o grupo que comanda o PT é totalmente envolvido com corrupção e eles jamais deixarão, por exemplo, um cara como Rui Costa chegar à presidência da República”.

Como Gideon Almeida, Alan comenta que ao falar em “fuzilar a petralhada” Bolsonaro usa uma figura de linguagem. “Do outro lado, várias pessoas do PT e da esquerda também fizeram discursos incisivos falando que matariam a direita, os coxinhas, que dariam uma boa cova, uma boa pá de cal, enfim, faz parte do jogo”, acredita, e acrescenta que “as instituições brasileiras estão fortes e protegem o cidadão, às vezes, até excessivamente, como o Supremo Tribunal Federal faz, no meu entendimento, ao agir muito politicamente. Mas nenhum presidente teria esse tipo de comportamento, de perseguir e tirar o direito de ir e vir das pessoas, porque é inaceitável”.

Com relação a um difundido temor de que a violência contra os cidadãos aumente em um possível governo de Bolsonaro, Alan comenta que o país já vive uma violência fora de limites – “nós já vivemos uma violência de guerra, um estado de guerra civil, em que o número de mortos é maior que em toda a Europa, cinco vezes maior que os assassinatos nos Estados Unidos” – e que a ideia de que os cidadãos serão vítimas se Jair Bolsonaro ganhar foi uma marca que o PT teria tentado colocar no adversário – “essa foi uma marca criada pelo PT, como marketing, para jogar em Bolsonaro uma mancha”. Mas, ele acredita que, “do ponto de vista de segurança, de violência, os números, que são altíssimos hoje, vão baixar, e consideravelmente, já a partir do próximo ano”.

À pergunta: “Acha que existe alguma chance de Haddad vencer? Se não, qual deve ser a frente Bolsonaro?”, o médico Alan Fernandes, mencionando as pesquisas, acredita que a vitória de Bolsonaro é certa. Mas, observando que “se pesquisa fosse o ponto final não precisaria ter eleição”, ele afirma que a diferença de votos em favor do candidato que ele apoia deve ficar entre 10 e 15 pontos percentuais. “Eu acho que o PT luta apenas para evitar uma frente maior, para não sair, como se diz na linguagem popular, ‘feio na fita’”.

 

Author: Giorlando Lima

Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 58 anos de idade, 42 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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