Um poeta bateu à minha porta e justamente no dia em que as palavras estão meio tortas de tanto lutar

Hoje, as palavras estão meio tortas de tanta luta. Capengas, chorosas, lamuriosas, tristes, reativas, brutas, medrosas, valentes, essa mistura que vem depois que o nosso sonho não vingou e o sonho realizado dos outros nos parece um pesadelo… Contudo, as palavras não estão mudas. E que bom que não ficaram surdas nem cegas e é possível ver o que já está aqui e ouvir os sinais do que ainda vem.

Esta não é uma segunda-feira qualquer. Está muito mais dia de branco do que sempre. Doravante, a gente vai muitas vezes misturar medo com esperança. E sem que isso signifique, necessariamente, o que já significou, a esperança precisa vencer o medo. Vamos precisar redefinir o verbo resistir, no mínimo achar o jeito certo de fazer isso, para que os heróis não morram, para que lá no final não esteja o fim, mas o recomeço, se é que me entendem.

Não digam que a canção está perdida…

Hoje, um poeta bateu em minha porta. E num dia nublado, trouxe poesia. De rebeldia. Sem fantasia. Sem essa rima, inclusive. Mas, visceral, do interior profundo de quem tem dentro de si flores, pedregulhos, água cristalina, rios poluídos, sangue, vinho, mares, areias movediças, choros, risos, filmes e livros de amor, tiros de canhão, prisão, liberdade, dormir e acordar, temer e levantar, morte e vida, se enterrar e reviver, essa realidade toda que a gente engole pela vida e se espalha desarrumada dentro de nós, mas que o poeta – e ninguém faz isso melhor do que ele – organiza em poesia, como canções que ora ninam, ora dão sustos, mas deixam sempre a memória do despertar, para que não nos afoguemos em nossos calafrios de medo ou nos sufoquemos em nossa baba de prepotência.

Luís Rogério Cosme

Obrigado, Luis Rogerio Cosme, por vir.

“Todo jornal que eu leio me diz que a gente já era
Que já não é mais primavera.
Oh! Baby! A gente ainda nem começou.”

(Menções a músicas de Raul Seixas, de parcerias suas com Paulo Coelho – ou Luciano Lopez, não sei ao certo)

AMIZADES EM TEMPO DE SOLIDÃO

Luís Rogério Cosme*

Sei.. Escuro é lugar de medo,
Onde os bichos se escondem e mordem
Na agonia do sol que não vem cedo…
Kamizases ensaiam seus delírios e acordes:
Hora mágica, em nós, que não chega, horas azuis!
Amizades são estrelas em céus sem luz…

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Luis Rogério Cosme Silva Santos é natural de Jequié, Bahia. Professor Adjunto da Universidade Federal da Bahia,  campus de Vitória da Conquista. Doutor em Saúde Pública (UFMG). Mestre em Cultura, Memória e Desenvolvimento Regional (UNEB). Especialista em Saúde do Trabalhador (UFBA). Livros publicados: Os mortos e os metamorfistas (1996); Hematopoético: o sangue e a poesia dos trabalhadores (2004); A Alma do Animal Político: reflexões de um petista sobre a importância dos princípios (2012) e Democracia Golpeada: Narrativa hematopoética pós-golpe (2018).

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