Reitor quer trazer o governador à Uesb e garante apoio institucional a professores no debate sobre política e direitos

Depois de longo tempo fiz uma entrevista como as que gosto de fazer, procurando tirar do entrevistado o máximo de seu pensamento sobre questões do seu entorno profissional ou político. Faço os questionamentos na condição de quem quer se informar para, logo depois, repassar a informação aos leitores. Muita gente evita entrevistadores como eu, prefere perguntas clichês que permitam levantar a sua bola, render elogios e não abrir espaço para críticas. Exemplos são os governantes que querem ouvir o repórter perguntar quantas salas vai ter a escola, mas ficam zangados ou se calam quando a pergunta é sobre a demora na obra ou sobre o preço alto cobrado pela empreiteira.

IMG_0025Minha conversa com Luiz Otávio de Magalhães, reitor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) durou uma hora e 20 minutos, portanto, rendeu. Ele falou de metas, de dificuldades, do que esperava encontrar e o que esperava não encontrar quando assumiu a reitoria em junho deste ano, depois de ter sido eleito com 61,09% dos votos, em abril. Mas, de tudo o que ele disse, realço a firmeza na defesa do direito de a universidade continuar sendo o que a faz distinta de outras instituições: um espaço de liberdades, de pensamento, de movimento e de escolhas, o espaço da democracia.

Luiz Otávio falou de aspectos da gestão, incluindo burocracia, orçamento, política, mas falou também do sentimento da universidade, um sentimento que ele e a maioria dos professores, na avaliação do próprio, nutrem e querem preservar. “A universidade foi para essas pessoas aquele momento de transformação da vida, de revolução, onde se formaram, em todos os aspectos, onde desenvolveram as suas relações afetivas duradouras, desenvolveram valores, desenvolveram cada coisa que marca. O sonho, quando a gente pensa na universidade, é de que a gente realmente tenha uma universidade que seja referência de transformação para as pessoas que passam por aqui.”

EMBRIONÁRIOS

Com cinco meses à frente da Uesb, Luiz Otávio de Magalhães reconhece a capacidade que a instituição teve para chegar até estes dias, vencendo dificuldades e se construindo a partir de muitos esforços, mas disse que, infelizmente, a universidade não conseguiu produzir os instrumentos necessários para se autoavaliar, para saber como se deu o seu crescimento, como se dá o resultado de sua ação e existência na vida do aluno, ou até para saber que pode fazer pelo futuro. “Nós não temos, por exemplo, um PDI, Plano de Desenvolvimento Institucional, que são as diretrizes [da universidade]”.

IMG_0012
O reitor lamentou que a Uesb, uma das mais importantes instituições de ensino do estado da Bahia, não consiga fornecer informações consolidadas sobre a avaliação dos seus cursos de graduação. Falta, segundo ele, um sistema objetivo que possa oferecer um perfil desses cursos e do que precisa ser feito para melhorá-los. “Nós não temos bancos de dados com relação a metas para cada curso, dificuldades encontradas para cada curso. Toda vez que sai um resultado de Enade, que não é avaliação de um curso, é um componente da avaliação de um curso, fica aquela correria pra ver o ranking, se está melhor se está pior, se está para baixo ou para cima, quando, na verdade, a gente tinha que ter informações mais precisas, mais completas e metas definidas de uma forma objetiva.”

Ele classifica de embrionários os sistemas próprios da Uesb para se autoavaliar, para se autodiagnosticar. “Hoje, tudo que a gente faz, em termos de avaliação e em termos de ensino e de avaliação, é altamente subjetivo, em que você pode encaixar vários tipos de coisas. Então, essa construção de instrumentos de gestão – porque a gente está falando de administração pública, de avaliação acadêmica -, esses instrumentos, nós encontramos ainda de uma forma embrionária, um pouco precária.”

O que Luiz Otávio e sua equipe encontraram está na história da Uesb. “Do ponto de vista de uma estrutura acadêmica, de funcionamento de uma instituição universitária, a gente encontrou. Mas, isso não foi uma surpresa”, considerando a história da constituição e da formação da instituição, ressaltou o reitor, traçando um panorama histórico – sua especialidade – da implantação da universidade pública no Brasil e da própria Uesb, que se iniciou a partir da união da Faculdade de Formação de Professores e da Escola de Agronomia, no início dos anos 1980. “Agora, o que nós não encontramos – e eu não quero dar um tom assim de crítica, etc., faz parte do processo de construções -, foi uma estrutura de gestão administrativa compatível com o tamanho da universidade. E essa engrenagem de gestão nós encontramos de uma maneira, no nosso entender, muito precária”.

SEM CAIXINHAS

O que fazer e como fazer? “Uma das ações que estamos adotando, já montamos grupos de trabalho, é terminar este ano com a definição de uma metodologia, para o ano que vem a gente implantar um PDI da nossa instituição. E nesse PDI tem que aparecer as estratégias de expansão”, explicou o reitor, assegurando que as metas traçadas consideram um horizonte de cinco anos, “porque essas metas têm que ser da instituição, não é só da gestão, não é um instrumento para avaliação da gestão, é um instrumento para avaliação da instituição.” Além do PDI, há grupos de trabalho para elaborar o  Projeto Pedagógico Institucional (PPI), para trabalhar o diálogo da formação pedagógica na universidade, “ou seja, a gente não pode continuar trabalhando em caixinhas, o colegiado de Direito faz o seu horário, Administração faz o seu horário e cada um vai lá, dá a sua aula para sua turma.”

As metas e planos não são poucos. Para alcançá-los a Uesb vai precisar de gente, estrutura e equipamentos. Até um espectrofotômetro  – equipamento para análise molecular de plantas e folhas, que custa entre R$ 900 mil e 1 milhão de reais – está na lista. Concurso público também. Tudo depende de dinheiro. A Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia tem um orçamento maior que 98% dos municípios da Bahia, é maior, por exemplo, que os de Itapetinga e Jequié, onde ficam seus dois outros campi, além do de Vitória da Conquista, sede da reitoria. Segundo o reitor, o orçamento dá conta em termos de pessoal e manutenção das atividades, mas não é suficiente para ampliação. “Algumas pessoas dizem, ‘então, a universidade tem muito dinheiro’. Não tem muito dinheiro. O problema é que a universidade demanda muito pessoal, porque a universidade é gente, é gente que trabalha, é gente que estuda, e ela demanda equipamentos que não são equipamentos quaisquer, fazer pesquisa de ponta no Brasil não é fácil, não é barato”.

Luiz Otávio ressalta que, além do orçamento reduzido, a Uesb ainda sofre com contingenciamento, aquilo que está previsto no orçamento, mas não é repassado. “O orçamento é reduzido e depois contingenciado, só que isso não pode tirar da gente a expectativa de pensar lá na frente, porque a população ela cresce, se amplia, se a universidade pública congelar, a gente está admitindo que expansão de vagas na rede superior sempre vai ser lá pela instituição privada, à distância, e isso a gente não quer.”

É neste ponto que entra a política, a necessidade de articulações na esfera governamental. O caminho, diz Luiz Otávio, é o diálogo. “Nós estamos na expectativa de termos esse diálogo, nós acreditamos que é possível sensibilizar os agentes públicos do governo do estado, que envolve governador, secretário de educação, Secretaria de Ciência e Tecnologia, que são os setores principais por onde dialoga a universidade, no sentido de valorização dessas atividades.” O reitor e o governador já tiveram três encontros, segundo Otávio, muito breves, quando Rui Costa afirmou que “tem muito interesse de conversar sobre as universidades, mas essa conversa teria que ser feita depois do período eleitoral, que a Uesb será recebida e a gente vai ter um momento pra gente avaliar a situação da universidade. Ficamos com essa expectativa”.

IMG_0006DESCONFIANÇA

Apesar da promessa de Rui Costa, Luíz Otavio confessa um temor: de que o governador não vá além dessa promessa. Essa foi a impressão que ele teve ao ouvir o que Rui disse sobre as universidades estaduais e seus gestores durante a campanha. Ele diz que passou a se preocupar depois de ter ouvido o governador em entrevistas e debates. Para o reitor, faltou firmeza do governador da Bahia na defesa das universidades estaduais.

“Todas as vezes que aparecia alguma abordagem crítica sobre aspectos das ações do executivo estadual, o governador sempre tinha uma reação, sempre defendia suas ações: ‘Não, porque na saúde a gente fez isso, em termos de estradas a gente fez isso, infraestrutura o governo investiu tanto, etc., etc….’. Mas. quando confrontado com alguma crítica com relação à situação das universidades estaduais, a reação do nosso governador sempre foi mais ambígua. Ele não se preocupava em defender as universidades. Quando falavam que as universidades têm muitos problemas, ele respondia que o problema não é do governo, ‘o problema é porque os reitores têm autonomia, eles não têm tradição de boas gestões’, etc., etc. Eu ouvi isso pelo menos em duas entrevistas.”

Luiz Otávio lembra de uma entrevista em que Rui Costa teria dito que os reitores se comportam como uma pessoa que ganha um cartão de crédito e não sabe como utilizar, “Isso me preocupa muito, porque passa uma imagem de que o governo do estado, que é quem mantém a universidade, está com uma percepção negativa e equivocada do papel da universidade. Eu não sei exatamente como que foi se criando essa imagem.”

Preocupado com a imagem que o governador Rui Costa teria das universidades estaduais e dos reitores e reitora, Luiz Otávio quer encontros mais amíude com o chefe do Executivo baiano. “Eu gostaria que na inauguração de um laboratório novo na área do café, na implantação de um curso novo, de ter o governador aqui, porque eu acho importante que o próprio poder público estadual tenha um conhecimento mais aprofundado sobre o que faz a universidade. O governo do estado tem que saber que a universidade estadual vale a pena, que tem um impacto”.

Até que reitor e governador conversem com mais demora e profundidade e ambos possam compartilhar uma visão única da universidade, se é que isso é possível, Luiz Otávio de Magalhães vai implantando as medidas administrativas e trabalhando para inserir mudanças que acredita que possam melhorar a Uesb, do ponto de vista do estudante, do professor e da sociedade. Um trabalho que ele diz fazer com base na filosofia de defesa do ensino público, da universidade como campo de evolução do ser humano, de crescimento individual das pessoas e desenvolvimento das comunidades.

CONVIVÊNCIA E TRANSFORMAÇÃO

“Eu quero crer que esse papel que a universidade desempenha não fique de forma insensível aos gestores do governo estadual; [que saibam] que não dá para apostar que a universidade pública no interior pode ser substituída por instituições privadas, que vão apostar no ensino à distância. Ensino à distância pode ser mais barato do ponto de vista econômico, mais eficiente do ponto de vista de geração de lucro, mas a educação à distância, em si, ela não transforma a vida das pessoas. Na educação superior, como qualquer educação, o que transforma não é só o conhecimento, mas o contato, a convivência, é você estar junto com as pessoas”, afirma.

E nessa posição em favor da universidade, o reitor direciona sua força para a defesa da autonomia da mesma e para a liberdade do professor. Faz uma defesa veemente da democracia e dos direitos das pessoas. “A nossa posição é a seguinte: as atividades de ensino, pesquisa e extensão de professores, elas têm que continuar sendo desenvolvidas como atividades institucionais. Se o professor está com um projeto para discutir direitos humanos, para discutir fascismo, nazismo, etc., mas é uma atividade de extensão registrada no departamento, isso é uma atividade da instituição, quem responde por ela é a Uesb, é a Uesb com o seu reitor, com a sua estrutura de procuradoria jurídica”, afirmou, garatindo que a Uesb não vai admitir que um professor em atividade institucional, seja na sala de aula ou numa atividade de extensão, seja alvo de ações de restrição na sua liberdade de pensamento.

IMG_0020
Para Luiz Otávio, diante do que ele viu e ouviu na campanha eleitoral de presidente da República, a universidade pode se tornar alvo de tentativas de estabelecer uma ditadura de um pensamento contrário às afirmações de direitos de minorias. “E repare, quando eu falo em minorias eu estou falando em minorias do ponto de vista do poder político. Minoria incluiu mulher, não por uma questão demográfica, mas uma questão de acesso às instâncias de decisão; minoria inclui o negro, os negros são a maioria da população demograficamente, mas em termos de estrutura, ocupação de cargos chaves no poder eles são minoria. E a universidade pretende ser – e a gente não abre mão de ser – não apenas uma instituição de desenvolvimento de conhecimento de ciências, mas também um instrumento de defesa, de proteção de populações vulneráveis e de emancipação dessas populações.”

O reitor da Uesb explica que tudo o que foi dito na campanha pelo candidato a presidente eleito e pelas atitudes verificadas em várias situações, por parte de seguidores de Jair Bolsonaro, gera um clima extremamente inseguro, particularmente para a universidade, “porque a universidade sempre se assentou na prerrogativa dos seus direitos, nós somos instituições baseadas, primeiro, nas tradições do direito humano e do direito social, da livre expressão, da manifestação do pensamento livre aberto, sem restrições.”

A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA SEGUE ABAIXO.

IMG_0009 (2)
Luiz Otávio de Magalhães, nasceu em Bauru (SP), em 1964. Está em Vitória da Conquista desde 1988. Foi eleito reitor da Uesb em abril deste ano. Possui graduação em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Unesp/Campus de Franca (1986), mestrado em História Social pela Universidade de São Paulo (1996) e doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (2002). É membro do Conselho Estadual de Educação – Bahia, atuando na Câmara de Ensino Superior, e professor titular da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). Tem experiência na área de História, com ênfase em História da Grécia Antiga, abordando principalmente os seguintes temas: Grécia Antiga, Democracia Ateniense, Historiografia Grega, História e Literatura, Cultura Escrita e Oralidade no Mundo Greco-Romano. É professor do programa de Mestrado em Letras: Cultura, Educação e Linguagens, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. É também editor responsável da Revista Politeia: História e Sociedade.

BLOGO que foi que você esperou não encontrar na Uesb e encontrou, do ponto de vista de gestão e de dificuldade?

LUIZ OTÁVIOO que nós encontramos na Uesb… Primeiro nós encontramos uma instituição que funciona, com todos os percalços, com todas as dificuldades internas e externas. A universidade tem vencido um desafio que não era fácil de ser vencido, a Uesb tem uma história que vem lá da Faculdade de Formação de Professores, depois junto com a Escola de Administração e a Escola de Agronomia, instituições que tinham objetivos muito específicos. A Faculdade de Formação de professores era para formar professores para trabalhar na escola de primeiro e segundo graus. A Escola de Agronomia era em cima de uma vocação regional e de dar conta da formação de outros profissionais que seriam importantes para o município. A Escola de Administração a mesma coisa, precisava de quadros para gestores de pequenas empresas, as médias empresas de comércio e indústria que a gente tinha em Conquista. Isso são demandas que não constituem uma universidade. Então, a Uesb vem de uma história de instituições que não foram moldadas para serem universidade, é muito diferente se a gente pega por exemplo histórias das grandes universidades do Brasil.

A Universidade de São Paulo foi a única universidade implantada de fato, ela foi implantada em 1934, e repare, uma universidade estadual em 34. Em 32, o estado de São Paulo, ele moveu quase que uma guerra civil contra o governo central, contra, na época, Getúlio Vargas, que tinha assumido o controle do estado brasileiro através de um golpe militar em 1930 e retirou do poder central aquelas grandes famílias tradicionais do café de São Paulo, então houve uma reação em 1932, o estado de São Paulo é derrotado e cria-se uma outra estratégia: “Vamos criar uma nova elite brasileira baseada no saber, no saber técnico científico, e essa nova elite é que será o futuro quadro do futuro estado brasileiro, a gente vai retomar o controle estado através da universidade”. E assim aí foi pensada uma universidade como instituição de ponta, de articulação, de ensino, de pesquisa e extensão e a USP foi pensada realmente como primeira universidade, trazendo cientista do mundo todo, Estados Unidos, Itália, França, Alemanha, de todo lugar vieram. Na minha área, na área de História, a gente teve Fernando Braudel, que veio para cá, em Antropologia veio Levi-Strauss, na área de química, física… pesquisadores do mundo todo. E, depois, vem a reação e cria-se também a tradição das universidades federais, então, para não ficar atrás, também o estado nacional passou a criar suas universidades, a universidade do Brasil, depois a universidade do Rio de Janeiro. Em vários momentos a universidade foi pensada assim, gestada já como projeto de universidade, foi a Unicamp, a UNB, várias instituições pensadas para ser universidades.

A Uesb surge de uma outra história, ao longo do caminho é que ela foi assumindo o papel de transformar aquela instituição que não tinha a tradição de pesquisa, de pós-graduação, não tinha integração de ensino com pesquisa, com extensão, tinha poucos laboratórios. Então, isso foi uma missão que a Uesb adotou, ao longo dos anos 80, 90, de realmente se transformar em uma instituição universitária, que tivesse produção acadêmica capaz de dialogar com várias instituições no Brasil e no mundo. Hoje nós temos estudantes de graduação, mestrado e doutorado espalhados no mundo, hoje temos estudantes de graduação em Portugal, na Espanha; estudante de pós-graduação no Canadá, nos Estados Unidos, e temos professores publicando em várias instituições no mundo todo. Então, essa instituição nós encontramos, com todas as dificuldades, a gente tem um grupo forte de professores, agregando estudantes de iniciação científica, programas de pesquisas, temos servidores trabalhando em setores chaves de execução de convênios, captação de recursos, intercâmbios, isso que dá conta de fazer funcionar essa instituição.

Do ponto de vista de uma estrutura acadêmica, de funcionamento de uma instituição universitária, a gente encontrou. Mas, isso não foi uma surpresa, se a gente for pensar um pouquinho, o primeiro mestrado da Uesb foi em 2002, em Agronomia, passaram-se 16 anos daquele primeiro mestrado e hoje nós temos 21. O primeiro doutorado foi em 2008, Zootecnia, hoje nós temos sete. Então, tem movimento aí. E, repare, cada programa desse é um grupo de doutores produtivos com estudantes de iniciação científica, pesquisa, publicação, projetos que geram um mestrado que depois geram um doutorado, isso nós encontramos.

Agora, o que nós não encontramos – e eu não quero dar um tom assim de crítica, etc., faz parte do processo de construções -, foi uma estrutura de gestão administrativa compatível com o tamanho da universidade.

Repare, a universidade ela é, primeiro, uma instituição significativa do ponto de vista da dimensão, a universidade gira em torno de pelo menos umas 15 mil pessoas, e se a gente pegar aí um grupo de estudantes de graduação, pós-graduação, mestrado, doutorado, especialização, estudantes de curso de ofertas especiais, pessoas que atuam nos nossos projetos de extensão, professores, efetivos, professores substitutos, os nossos funcionários efetivos, terceirizados, tudo isso dá uma população de 15 mil pessoas. A Uesb tem um orçamento para dar conta disso, em termos de pessoal e manutenção de suas atividades; tem um orçamento, por exemplo, que é superior ao do município de Itapetinga, é um pouco superior ao orçamento do município de Jequié, então, administrar essa máquina não é uma coisa simples, algumas pessoas dizem, “então, a universidade tem muito dinheiro”. Não tem muito dinheiro. O problema é que a universidade demanda muito pessoal, porque a universidade é gente, é gente que trabalha, é gente que estuda, e ela demanda equipamentos que não são equipamentos quaisquer, fazer pesquisa de ponta no Brasil não é fácil, não é barato. A gente está agora em negociação para importar um equipamento, um espectrofotômetro que é um equipamento para análise molecular, que é algo em torno de R$ 900 mil a 1 milhão de reais; é um equipamento para análise de plantas, para análise de folhas, Por exemplo, um dos cursos originais da Uesb é o curso de Agronomia, que está muito ligado a tradição do café, mas para um produtor de café colocar seu café à venda, ele tem que ter um selo de que foi feita a análise do seu cafezal e na Bahia, não existe nenhuma instituição que faz isso. Ou é um médio produtor que tem condições de mandar amostra para São Paulo ou Minas Gerais ou então ele não vende, ele vai vender o café bruto, sem ser elaborado, sem ter um ganho a mais de trabalho nesse café.

Então, para a gente ter esse tipo de equipamento, que dá uma qualidade na nossa pesquisa e dá uma repercussão na atividade econômica da região, você tem que ter um investimento, para isso você tem que ter grupos de estudos e pesquisa que demonstrem que esse aparelho vai fazer diferença na universidade, vai fazer diferença na região. Para isso, você tem que ter uma estrutura de avaliação de suas atividades, para você tomar decisões administrativas de aplicação de recursos, você tem que ter indicadores, tanto para a parte de pesquisas como de graduação ou de extensão. E essa engrenagem de gestão nós encontramos de uma maneira, no nosso entender, muito precária.

Nós temos 47 cursos de graduação na Uesb, mas se você me perguntar, agora, quantos estudantes estão efetivamente matriculados e cursando, a gente vai ter que parar para fazer uma conta, pegar informação de diferentes programas para fechar esta conta. Nós temos uma grande preocupação com a evasão estudantil, mas nós não temos nenhum sistema que ofereça qual o perfil da evasão em cada curso da universidade, para ter esse tipo de informação a gente vai ter que fazer um a um, pesquisando em diferentes programas, dentre os muitos diferentes que existem na instituição, e essas informações muitas vezes são necessárias para você tomar alguma decisão. Por exemplo, nós não temos ainda na universidade um conjunto de informações consolidado sobre a nossa própria região. Nós estamos no sudoeste da Bahia, nós que somos de universidades públicas, nós tendemos a ter uma visão um pouco depreciativa sobre as instituições privadas, a gente age como se não existissem instituições privadas oferecendo ensino superior na nossa região, o que para a gente é um erro, porque existe uma determinada demanda para o ensino superior, e a gente precisa saber com quem a gente está, eu não digo competindo, mas oferecendo serviços. A gente não pode ter um plano de fortalecimento de expansão de novos cursos se a gente não souber quem está no município de Conquista, quantas instituições privadas nós temos. Quais os cursos que essas instituições oferecem? São cursos presenciais? São cursos à distância? E repare a gente não pode menosprezar, porque, muitas vezes, essas instituições privadas não são instituições amadoras, a grande parte dessa instituições é ligada a grandes grupos, inclusive grupos internacionais, que têm uma rede e modelos de gestão altamente eficientes para o objetivo dessas instituições, e o objetivo delas não é desenvolver pesquisa de ponta, não pós-graduação, mestrado, doutorado, mas elas são muito eficientes para atrair estudantes de graduação e elas se mantêm. A gente tem que saber com quem a gente está lidando, esse tipo de informações nós não encontramos aqui.

Nós não encontramos informações consolidadas, por exemplo, com relação à avaliação dos nossos cursos de graduação, nós não temos nenhum sistema objetivo na nossa instituição para termos um perfil desses cursos e as ações, o que precisa ser feito para serem melhorados.

Nós não temos bancos de dados com relação a metas para cada curso, dificuldades encontradas para cada curso. Toda vez que sai um resultado de Enade, que não é avaliação de um curso, é um componente da avaliação de um curso, mas, fica aquela correria pra ver o ranking, se está melhor se está pior, se está para baixo ou para cima, quando, na verdade, a gente tinha que ter informações mais precisas, mais completas e metas definidas de uma forma objetiva. Hoje, tudo que a gente faz, em termos de avaliação e em termos de ensino e de avaliação, é aquela avaliação qualitativa, mas que é altamente subjetiva, em que você pode encaixar vários tipos de coisas. Então, essa construção de instrumentos de gestão – porque a gente está falando de administração pública, de avaliação acadêmica -, esses instrumentos, nós encontramos ainda de uma forma embrionária, um pouco precária.

O nosso desafio, em primeiro lugar, é construirmos um projeto que realmente sirva de referência para nossas ações cotidianas.

Não se trata de ter um projeto, um plano de desenvolvimento para dizer: “Olha, isso aqui é nosso projeto”, e guardar na gaveta, é preciso de um plano que estabeleça metas de gestão muito claras e que seja algo consultado cotidianamente, a partir do qual a gente tome decisões sobre criação de cursos, e, não digo extinção de cursos, mas a gente pode fazer adaptações de cursos. Vamos supor: nós temos um curso de química, esse curso de química ele tem algumas dificuldades, essas dificuldades têm que aparecer, têm que estar bem claras num projeto de avaliação que pode apresentar alternativas: “Olha, o curso de química está frágil, mas ele, com um pouco de investimento, pode virar um curso de engenharia química”, que daria um outro dinamismo para essa área, em termos de avanço de conhecimento e assim por diante. Nós temos um bom curso em Jequié de Sistema de Informação, é um curso que já tem 20 anos que é ofertado. Por que que esse curso não pode ser repaginado e a gente criar um curso de Engenharia da Computação? São alternativas, mas, para isso a gente tem que ter um sistema de avaliação mais preciso que hoje nós não temos. Muito, hoje, é tateando em torno de, eu não digo opiniões, mas da experiência de quem está na universidade. Mas, uma instituição como a Uesb, que, como eu falei, tem 47 cursos de graduações, 21 de mestrados e 7 de doutorados, a gente tem que ter um sistema de informações mais consolidado para auxiliar nessas decisões.

Do jeito que você fala, eu fiquei imaginando que nesse período que você menciona, não sei a partir de quando, mas até você assumir, que a Uesb teve então uma espécie de crescimento vegetativo, onde faltava a inteligência, a informação, e vivia dessa coisa espontânea: “abre o vestibular, faz a matrícula, o aluno frequenta, o professor dá aula, o salário é pago; é preciso levantar uma parede, levanta a parede; precisa fazer uma janela, faz a janela”, mas a universidade não tinha um dinamismo próprio de uma instituição que pensa?

Eu acho que têm muitas práticas que elas são repetitivas, por inércia, na universidade. Por exemplo, na primeira reunião de Consep que nós organizamos, que foi ali no mês de agosto, tinha um tema obrigatório, a abertura do edital do vestibular. O vestibular de 2019 que estava na pauta, mas um conselheiro levantou a questão: nós fazemos vestibular desde que existe Uesb, por que a gente não para e repensa o vestibular? Por que tem que fazer o vestibular de novo, com os mesmos moldes? Vai abrir licitação, é sempre a mesma empresa que vence (a gente abre licitação são poucas empresas que concorrem), ou seja, não é possível que a gente pode evoluir. Mas, cadê os dados da avaliação? Qual é o perfil aluno que entra pelo vestibular? Qual a diferença do aluno que entra pelo vestibular do aluno que entra pelo Sisu? Por que que a gente nunca implantou nenhuma forma diferente de ingresso? E cadê os dados de avaliação de perfil desses novos alunos que estão entrando?

Então a gente vai fazendo as coisas por repetição.

Nós criamos um modelo de oferta de curso baseado na autonomia do colegiado: o colegiado faz o horário do curso, um curso pode oferecer uma disciplina que é igualzinha a disciplina que é oferecida em outro em curso, então, nas grandes áreas isso é muito comum. Se você pegar Contábeis, Administração e Economia, que dialogam dentro da mesma área, você tem disciplinas que são comuns. Só que o curso de Economia vai colocar aquela disciplina no semestre no horário para aquela turma de Economia e Contábeis vai fazer aquelas mesmas disciplinas, às vezes com o mesmo professor, para a turma de Contábeis. Se você pegar todos os nosso cursos de licenciatura, licenciatura têm quase um terço da carga horária de disciplinas comuns, aí você tem uma disciplina Política da Educação para a licenciatura em Física, tem seis alunos matriculados; depois você tem Políticas Educacionais para licenciatura em Matemática, tem nove alunos matriculados, isso porque a gente tem um modelo que está repetindo.

Por que a gente não tem uma formação mais integrada? Qual o problema de eu juntar os alunos de Física, de Matemática, Computação para uma aula de Cálculo, de uma disciplina de Cálculo? Por que que Cálculo tem que ser oferecido separadamente? É algo que a gente fragmenta e a gente não cria margem de diálogo. Nós nunca paramos para pensar em ofertas de cursos interdisciplinares. Todas as instituições que foram criadas depois do Reuni, na Bahia, que teve a ampliação da Ufba, teve a criação UFRB, Univasf, a Federal do Oeste, em Barreiras, a Federal do Sul… todas elas oferecem cursos interdisciplinares, os Bis, bacharelados interdisciplinares. Que é o quê? É você fazer uma formação comum e depois você abre. Nós nunca paramos para refletir sobre isso, a gente está sempre repetindo um modelo. Em que momento a gente vai parar para discutir com a região, com o perfil do aluno que entra, perfil do estudante do ensino médio da nossa região? A LDB estabeleceu desde 1996, tem mais de 20 anos, cursos superiores, os cursos de graduação, se dividem em: licenciaturas, quando você tem uma área de conhecimento e você vai ter o estudo dessa área de conhecimento, mas com foco para a educação básica; bacharelados, que é a mesma área de conhecimento, mas com foco para a área de pesquisa, e tecnólogo, cujo foco não é a área de conhecimento em si, mas a aplicação para o mercado.

Isso tem 20 anos. Por que que a gente nunca parou para discutir? Será que o tecnólogo não pode ser uma alternativa interessante para o nosso perfil, para a nossa região, do estudante que sai do ensino médio, do estudante que sai do ensino técnico? O que eu quero dizer com isso? Por exemplo, hoje eu estive em Itapetinga, teve lá atividade importante, a Semana do Produtor, organizada pela FAEB, pelo Senar, com grande apoio da Uesb, e lá e as pessoas falam assim: “Olha, temos o curso de Zootecnia aqui em Itapetinga, mas por que não pode ter um curso de Tecnólogo em Laticínios? A pessoa não precisa fazer o curso todo de Zootecnia. O tecnólogo é um curso voltado para o mercado, é verdade, mas, às vezes, esse mercado é importante. É um curso mais curto, de três anos, presencial, com laboratórios. Nós temos o melhor laboratório de leite do Norte e Nordeste em Itapetinga.

Não é para substituir, acabar com o curso de Zootecnia, pelo contrário. Zootecnia é um curso muito bom, tem mestrado e doutorado, mas eu posso ter um outro foco, para dialogar com quem vem do ensino técnico e pode fazer um curso de tecnólogo e a gente vai ter um foco mais específico para aquela vocação, vai atender uma expectativa. Porque hoje, a grande questão é: na agropecuária, como em vários ramos da economia, para esses setores produtivos sobreviverem, eles precisam de produtividade e produtividade vem de tecnologia, que vem da universidade, ou essa tecnologia aparece lá ou então eles não sobrevivem. Eles têm dificuldades enormes para garantir produtividade em gado de corte, laticínios, etc., então, por que não ter um curso dessa maneira? Aqui, em Conquista, nós temos um curso tradicional muito forte de Agronomia, agora a gente pode ter um curso de agroecologia. Não precisa estudar toda a cadeia envolvida, não precisa ser um engenheiro agrônomo, mas um curso de três anos, com foco num aspecto específico de mercado, e um mercado importante que tem que ser valorizado. Por que que a gente não para para discutir isso? Nós temos cursos de Ciência da Computação e Sistemas de Informação, por que a gente não pode ter um tecnólogo em desenvolvimento de games? Tá certo que é um foco no mercado etc., mas um curso também com foco no mercado pode ter. Não precisa ser um curso ad infinitum, são cursos que aproveitam a nossa capacidade intelectual, a nossa capacidade de equipamentos, nossos laboratórios, não demandam de enormes investimentos.

São focos que a gente pode dar na nossa instituição, eu acho que falta um pouco isso também, essa capacidade, essa necessidade de a gente questionar nossas práticas, de sairmos um pouco de nossa zona de conforto para não ficar professor de história dando a mesma aula.

Por que aquela aula não pode ser compartilhada com alunos de outros cursos, cursos afins? Por que que eu tenho que dar História da Grécia Antiga sempre para a turma do segundo semestre de História? Eu não posso trazer gente de filosofia, eu não posso trazer gente de letras, por quê?

Você colocou muitos porquês, e está me parecendo que você está falando como apenas alguém que analisa a universidade, mas você já é o reitor. Agora, vamos falar de como, o quê. Diante desse quadro, dessas análises todas, o que já está encaminhado em termos de comissão de estudos elaborativos, ou mesmo de prática? Já há algo, considerando esse orçamento que você tem aí, que praticamente só dá para cuidar do custeio, pagar o custeio da universidade?

Bom, como fazer envolve, no caso da universidade, envolve primeiro um convencimento. A universidade, felizmente – isso foi uma conquista que vem lá da Constituição de 1988, e depois a LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional] vai consolidar isso – tem como princípio básico da organização da universidade a democracia. Qualquer instituição universitária no Brasil o princípio básico é a democracia. E a LDB deu um formato específico para essa democracia, que alguns concordam outros não, mas a LDB deixou muito claro: nenhuma universidade pode existir sem conselhos deliberativos e esses conselhos têm que ser formados por, no mínimo, 70% de docentes, o que deixa claro o seguinte: não é o reitor, mas todos os conselhos, conselho superior, conselho setoriais, esses conselhos é que detêm a deliberação sobre ações acadêmicas e deliberativas e 70% deles têm que ser de professores, não podem ser pessoas indicadas pelo reitor, são professores que vêm indicadas pelos departamentos, pelos colegiados, etc.

Então, o primeiro passo é você estabelecer um debate, um debate que aponte para um caminho, nesse sentido. E essa foi uma das coisas que nós não encontramos aqui na gestão, esses instrumentos de planejamento.

Nós não temos, por exemplo, um PDI, Plano de Desenvolvimento Institucional, que são as diretrizes. Assim como os governos trabalham, os executivos: para fazer a lei do orçamento precisa, primeiro, ter uma lei de diretrizes orçamentárias, e para estabelecer as diretrizes tem que seguir o PPA, um plano de plurianual de desenvolvimento, que seria, no nosso caso um, PDI, que nós não temos. Uma das ações que estamos adotando, já montamos grupos de trabalho, é terminar este ano com a definição de uma metodologia, para o ano que vem a gente implantar um PDI da nossa instituição. E nesse PDI tem que aparecer as estratégias de expansão. A universidade tem muitos problemas e principalmente problemas orçamentários, de frustração orçamentária. Além do orçamento reduzido, nós ainda sofremos com contingenciamento, que é aquilo que está previsto no orçamento, mas não é repassado. O orçamento é reduzido e depois contingenciado, só que isso não pode tirar da gente a expectativa de pensar lá na frente, porque a população ela cresce, se amplia, se a universidade pública congelar, a gente está admitindo que expansão de vagas na rede superior sempre vai ser lá pela instituição privada, à distância, e isso a gente não quer. A gente precisa, pelo contrário, é ampliar. Hoje, menos de, talvez, 7% da população jovem de 18 a 24 anos está numa universidade pública, acho até que menos que isso. São 9% de jovens em toda a rede superior e desses 9%, em torno de um terço ou um quarto é que está na universidade pública. O compromisso que a gente precisa ter com a sociedade é de ampliação, é de falar: “Olha, a universidade é uma instituição importante de conhecimento, de formação de quadro, de impacto na economia, ela tem que existir”. E se ela tem que existir tem que pensar lá na frente, ela tem que estar pensando em ampliação, em novos cursos ou por adaptação de cursos, alguma coisa ela tem que ter. Então, isso tem que estar no PDI.

Toda gestão tem que ser avaliada e esses instrumentos de avaliação têm que ser construídos coletivamente. Não posso terminar um mandato daqui a quatro anos e só dizer “a gente cumpriu nosso plano”. Sim, cumpriu como? Cadê os índices? Então esses indicadores de avaliação têm que ser construídos. A gente está propondo que seja uma construção coletiva, que a gente termine o ano com uma metodologia e com grupos de trabalho para implantar as nossas metas para um período que a gente quer, um período de cinco anos, porque essas metas têm que ser da instituição, não é só da gestão, não é um instrumento para avaliação da gestão, é um instrumento para avaliação da instituição. Nós estamos criando, além do PDI, o PPI que é o Projeto Pedagógico Institucional, que é justamente para trabalhar isso que eu comentei, que é o debate, de diálogo da nossa formação pedagógica.

A gente não pode continuar trabalhando em caixinhas, o colegiado de Direito faz o seu horário, Administração faz o seu horário e cada um vai lá, dá a sua aula para sua turma. A nossa formação pedagógica tem que estar no formato de diálogo, de interdisciplinaridade, isso tem que aparecer lá, no projeto pedagógico.

Quais são as disciplinas que são comuns a todos as licenciaturas? Então essa disciplina que é comum tem que ter um sistema de oferta que misture. Se Política Educacional é ligada a toda licenciatura, então não é para fazer uma turma de cinco alunos para um curso, 12 alunos para outro. A gente faz uma turma e traz os alunos de todas as turmas. Se a gente não criar bacharelado interdisciplinar, que a gente misture na formação os alunos de diferentes bacharelados. Quando a gente vai em Jequié, lá tem curso de Farmácia, Fisioterapia, tem diversos cursos na área da saúde, cursos afins, que estão dialogando, por que você não pode ter disciplinas que juntem o aluno de Farmácia com Fisioterapia etc.? Isso tem que estar no projeto de formação pedagógica, é a maneira que a gente vê a formação pedagógica dos nossos estudantes. Tudo isso a gente está colocando no papel para que possa redesenhar as nossas práticas acadêmicas.

Eu ouvi de dois professores uma avaliação crítica de que essa autonomia dos departamentos cria espécies de ilhas, eles ficam estanques, não dialogam, não só nesses aspectos de horário das disciplinas, mas decidindo o que, durante muito tempo, a administração da universidade deixou de fazer, porque se acomodou com a situação, tipo: “Deixem que eles cuidam de lá, eu vou fazer contas aqui, administrar, pintura de parede, colocação de janela”. Isso você também verificava quando você falava em resgate, numa universidade diferente? Você estava pensando um pouco nisso e essa integração é sua base fundamental de trabalho, quando se apresentou candidato a reitor?

Tem um aspecto… uma vez eu participei de uma palestra que tratava de tecnologias da informação e suas aplicações na educação superior e o palestrante falava que se uma pessoa do século XVI entrasse no túnel do tempo e viesse pra cá, hoje, ele ia fazer um passeio pela cidade e ia estranhar muita coisa, todo o sistema de transporte, de saúde etc., para ele seriam coisas inimagináveis. Mas, tem um lugar em que se uma pessoa do século XVI entrasse, ela saberia exatamente o que estava acontecendo, que é uma sala de aula, que as nossas práticas educacionais ainda repetem o mesmo modelo, via de regra, de um professor que ensina aos seus estudantes, que é um modelo extremamente antigo. Eu não concordo totalmente com essa premissa.

De fato, eu acredito que existe uma certa tendência, que é uma coisa curiosa, pois a lógica da universidade é a produção do novo, da inovação, do conhecimento novo, mas nós também somos um pouco apegados a determinadas tradições. Vou dar um exemplo muito simples: a Uesb implantou há algum tempo o sistema Sagres, que é um sistema extremante simples, que é o registro de aulas, registro dos resultados, lançar as notas, etc., etc. Nós temos muitos professores aqui na Uesb que ainda têm muita resistência em usar o sistema Sagres, eles pedem para o secretário, “porque eu sempre trabalhei assim, eu não vou entrar lá no computador, para ficar registrando a hora, o assunto que eu dei, não vou fechar, eu corrigi aqui e eu peço pra alguém lançar pra mim”, e assim por diante. Repare, esse tipo de perfil, ele tem dias contados na universidade. Isso eu vejo aqui, é uma das coisas que eu encontrei e não esperava encontrar nesse nível.

Hoje, boa parte das ações de gestão da universidade elas não passam aqui [na mesa dele]. A mesa está cheia de papéis, porque aqui é um resíduo, mas, boa parte das coisas passa por sistemas informatizados, eu é que tenho que abrir o computador pra ver os processos que estão tramitando pelos sistemas eletrônicos. Só que isso é a parte da gestão que não foi a universidade que criou, a gestão geral do governo do estado é que foi impondo, são questões que envolvem o sistema de planejamento, o Fiplan, por onde toda a parte de planejamento da universidade passa. Então, se eu quero saber como é que estão as despesas, etc., eu não vou ter nenhum relatório impresso, eu tenho que entrar lá no sistema, se eu quiser os processos que estão dependendo de autorização da reitoria, do reitor, para ser encaminhados eu tenho que abrir a página para ver o que foi lançado hoje. E isso também está chegando no mundo acadêmico.

Quem trabalha hoje na gestão da pós-graduação é um professor que tem que ter produtividade, produtividade envolve projetos de pesquisas e extensão, esses projetos hoje tramitam. Ninguém lança uma proposta de mestrado para a Capes preenchendo papel. Quem está trabalhando no programa de pós-graduação, tem uma série de informações que ele tem que lançar. Nós temos professores, ainda, que passam meses sem mexer no seu currículo Lates, que é plataforma que você informa sua vida. Uma parte da avaliação do CPC, o Conceito Preliminar de Cursos, que é a avaliação que vale dentro do Sinaes, que é o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior, são informações todas elas organizadas de forma eletrônica, a universidade tem que entrar no sistema do Senso da Educação Superior, colocar suas informações, o representante institucional valida, etc., isso tem que fazer parte da vida hoje do professor, ele tem que ser uma pessoa atuante. O professor atuante hoje de pesquisa e extensão tem que ser um professor atento a todos esses mecanismos de desenvolvimento de atividades especiais.

Hoje eu tive uma reunião com o pessoal da Asplan, Assessoria de Planejamento, uma das nossas preocupações são as formas de execução dos recursos que são captados. Um professor consegue com seu projeto de pesquisa captar recursos fora do orçamento da universidade, ele consegue trazer recursos via projeto financiado pela Capes ou via emenda parlamentar, etc. Só que, quando você recebe esses recursos por conta do seu projeto tem que preencher uma plataforma, fazer um plano de trabalho detalhado, tudo que for usado tem que ter detalhamento de como aqueles preços foram obtidos, tem que estar lá no sistema, se eu tentar usar um recurso fora desse plano de trabalho, o projeto não é executado. A gente pode passar um ano, dois anos, três anos, o dinheiro é devolvido, porque você não teve um plano aprovado para usar aquele recurso. Essas são exigências hoje. O professor universitário não é mais contratado só para entrar numa sala de aula e mostrar o seu conhecimento, ele é um professor que tem que estar atuando e alimentando sistemas diferentes de ensino de pesquisa e extensão, e isso é uma coisa que a gente tem que reforçar hoje na universidade.

O professor não é uma pessoa que apenas vai entrar na sala de aula, ele vai entrar na sala de aula, claro, mas ele tem que entrar com toda uma prática anterior de registro de suas ações, ações diversificadas, porque é por aí que vai tramitar a maior parte das informações relacionadas ao conhecimento.

Uma coisa curiosa: uma coisa que sempre foi impactante para qualquer universidade, qualquer avaliação de universidade, até 20 anos atrás, era a biblioteca. Quando começaram os cursos de mestrado e doutorado, primeira pergunta era “como é a biblioteca dessa instituição?”. Hoje, a biblioteca continua sendo importante, mas, mais como um local de trabalho do que como acervo. Hoje está sendo divulgado que todos os periódicos científicos de todas universidades da Europa estão prevendo que, até 2020, todo material vai estar disponível online, sem cobrança de taxa, sem nada. Ou seja, para isso estar disponível é porque ali já criou uma cultura de que toda produção acadêmica vai passar por esses meios. Aquela coisa, publicar na revista impressa, “olha que bonito, a revista que tem um artigo meu, um quadro na minha prateleira, isso não existe mais. Então, a gente tem que estar atento a esses movimentos dentro das universidades.

Se seu tempo na Uesb, na reitoria, encerrasse amanhã, você diria que você já conseguiu, nesses cinco meses, colocar algo que você vislumbrava para funcionar, algo que a comunidade possa perceber?  O que é a universidade com Luiz Otávio, neste mês de novembro, ainda é a universidade anterior? E você ainda está planejando, nessa coisa da integração, nas comissões, com sua equipe, ou você já começa perceber que dá para tocar um projeto e ele está se consolidando, tomando formato?

Olha, eu tenho uma sensação um tanto otimista que caminha baseada em duas questões: primeiro, nós conseguimos montar uma equipe homogênea, uma equipe integrada, nós temos um corpo de pró-reitores e de assessores muito próximo, nós não conhecemos práticas de “fogo amigo”, de não sei o que, desgastes. Aqui, neste local onde a gente está, a gente tem reuniões quase que diárias, normalmente depois das 18:30, 19:00. O pessoal vem pra cá, a gente conversa sobre o que aconteceu, quais foram as dificuldades que a gente enfrentou, avalia os processos, um eventual problema que tenha aparecido, e aí a gente vai estabelecendo um clima para tocar as mudanças.

Aquela velha história, a universidade é muito complexa, nós temos assessoria que passa lá pela Ascom, que tem um sistema de rádio e tv, que aquilo é um mundo, um mundo em termos de exigências, de equipamento, em termos de papel pedagógico, de papel político, aquilo lá tem uma lógica; quando você vai pra pró-reitoria de Pós-Graduação, é outra lógica diferente. `Pró-reitor de pós-graduação trabalha muito com programa de pós-graduação, trabalha muito com aquela coisa de mestrado, da produção, de currículo Lates, plataforma Sucupira, quantos artigos publicados?, como é que você paga a taxa para que se traduza um artigo de um professor daqui que quer publicar numa revista da França, mas ele tem que pagar a tradução, etc, etc. Quando vai para a graduação, que é o trabalho do geral, são outras demandas, então, isso é um pouco difícil.

Mas, a gente está sentindo que conseguiu montar uma equipe que tenta imprimir uma marca de, no mínimo, inconformismo com a maneira de como as coisas eram trabalhadas. E temos também sentido uma certa pré-disposição na universidade como um todo.

Neste período fizemos duas reuniões de Consep e uma reunião de Consu, que são dois dos principais conselhos – o Consep reúne todos os diretores de departamentos, todos os coordenadores de colegiado, é um conselho em torno de 70 pessoas. Todas as pautas que nós colocamos no sentido da necessidade de revisão de alguns marcos, etc., nós temos sentido muita receptividade. Nós tivemos, por exemplo, que enfrentar um problema que estava se arrastando há muito tempo, que era o problema do nosso calendário.

Nós estamos hoje no intervalo de semestres, entre o primeiro e o segundo semestre, o segundo semestre de 2018 vai começar em 19 de novembro, estava programado para começar em 3 de dezembro, o que significava que no dia de 3 de dezembro, iria começar o semestre de 2018-2, nesse 2018-2 começa o ingresso dos alunos que fizeram o vestibular o ano passado com entrada no segundo semestre. Significa que o aluno fez o vestibular lá no ano passado e foi aprovado, mas nesse tempo, esperando começar as aulas em dezembro, ele só virá para a Uesb se ele não teve outra alternativa, se apareceu outra alternativa, ele não veio, e isso vem ocorrendo desde 2015, quando a gente teve problemas de calendário. Não questiono os movimentos legítimos, sindicais etc., mas aquilo gerou um problema de calendário e a gente vinha tocando.

Tradicionalmente, a gente faz assim: a gente tem férias em janeiro, um intervalo entre um semestre e outro, que é uma semana de prova final, mais três semanas de recesso e pronto. Então vai passando o tempo e você nunca ataca. Aí, chega um ponto e você fala assim: “Olha, se a gente não mudar nossas tradições vai ficar repetindo eternamente os mesmos problemas”. Agora, a gente conseguiu, vamos cortar duas semanas aqui, uma semana aqui, e esse semestre a gente começa dia 19 para a gente começar o outro, no ano que vem, em maio, em vez de começar em junho, julho. E pronto, 2020 a gente estará com o calendário regularizado. Então, tudo bem, aquela coisa assim: vai ficar muito pouco tempo para fechar a caderneta, prova final, lançamento de nota, etc., assim, se a gente não mexer, vai repetindo determinadas coisas, determinados problemas e aí a gente não supera isso.

A Universidade Estadual do Sudoeste era única, a gente não tinha esse grande número de instituições de ensino superior aqui, eu estou falando de 20 anos. Então, nesse tempo, a universidade falava muito com a cidade, praticamente todas as atividades que estão sendo feitas pelo conjunto das faculdades, que envolvem públicos externos, eram feitas pela Uesb. Penso que a Uesb se distanciou um pouco, ela se fechou dentro de si mesma. Eu não estou falando de núcleos de atenção jurídica, por exemplo, que são coisas obrigatórias. Você reconhece que a universidade reduziu sua atuação como universidade extensiva de relacionamento com a sociedade. Você acha esse envolvimento necessário ou você prevê que isso também muda com seus planos?

Olha, é aquela avaliação que é um pouco difícil de mensurar. A gente não sabe se essa capacidade de intervenção da universidade, enquanto instituição, nesses ambientes externos – e quando falo ambiente externos são ambientes que organizam a sociedade fora da universidade -, eu não sei se há a diminuição, eu sei que há muitos caminhos que foram criados de intervenção que hoje são pouco explorados. O curso de Medicina, por exemplo, tem uma clínica que atende pelo SUS, nós temos atendimentos em torno de 30, 40 atendimentos por dia aqui na universidade, para a população externa, isso é um contato que a gente tem lá, algo que foi construído pela nossa equipe, pela equipe do curso de Medicina. Nós temos um curso de Psicologia que tem uma unidade atendimento, lá no centro cidade, que faz 1.500 atendimentos/mês, que tem convênio com a Polícia Militar, que tem convênios com a estrutura de atendimento à criança, etc., e está dialogando diretamente com essas instituições. Na área de agrárias a gente tem um programa, na área de Agronomia, que presta assistência técnica em vários municípios, a pequenos produtores de caprinos. E prestar assistência é ter uma estrutura, com uma pessoa que recolha mostras de fezes e sangue e traga para cá, para fazer a análise do rebanho, o que pode ser feito para melhoria, etc., etc. Nós temos programas de desenvolvimento da cadeia de mandioca, de umbu gigante, nós temos uma série de ações que envolve esse tipo de intervenção.

Eu não sei, talvez falte ainda um certo contato institucional com os agentes públicos em geral.

Por exemplo, hoje tinha uma atividade em Itapetinga em função do trabalho de alguns professores que nós temos lá e eu fiz questão de ir, porque tinha um representante da Faeb, Federação de Agricultura e Pecuária da Bahia, tinha representante do Senar, Serviço Nacional de Aprendizagem Rural, que é o equivalente na área rural do Senac, do Senai, que são instituições importantes do ponto de vista de articulação de cadeia produtiva, que têm contato com produtores, que é onde a gente pode levar nosso saber na área de agrárias. Também já tem agendada em Itapetinga uma audiência especial sobre a universidade na Câmara de Vereadores e eu quero levar o que a gente produz dentro da universidade, os equipamentos que nós temos na universidade, o tipo de pesquisa de extensão que é feito. Esse diálogo eu tenho procurado mapear, é uma preocupação nossa. E mais do que essa comunidade mais regional, nós queremos a universidade autônoma.

Somos muito zelosos, orgulhosos de termos uma autonomia na universidade para decidir nosso programa de ensino, pesquisa e extensão, mas nós queremos nos aproximar do governo do estado.

Eu gostaria de ter uma atividade com a presença do nosso governador na nossa universidade, eu gostaria que na inauguração de um laboratório novo na área do café, na implantação de um curso novo, de ter o governador aqui, porque eu acho importante que o próprio poder público estadual tenha um conhecimento mais aprofundado sobre o que faz a universidade. O governo do estado tem que saber que a universidade estadual vale a pena, que tem um impacto.

É aquela história, nos últimos 20 anos a universidade parou de falar sozinha, apareceram outras instituições, veio a UFBA, veio o IFBA e vieram, principalmente, muitas instituições privadas, mas, na região, a universidade estadual faz a diferença; no estado, no interior, a universidade estadual faz muita diferença. Porque é certo que criaram-se outras instituições públicas, o IFBA e o IFBaiano, que antes trabalhava com o ensino médio técnico, mas em termos de ofertas de vagas de pós-graduação, mestrado e doutorado no interior, quem oferece essas vagas públicas é a estadual. No caso das federais, embora tenha sido criado UFOB e a Federal do Sul, a grande concentração de matrículas da pública federal na Bahia é Salvador e o Recôncavo, no interior quem faz isso é a universidade estadual. É muito importante que o governo saiba que isso tem uma repercussão, tem um funcionamento.

Tenho ido a todas as formaturas que eu posso e não vou lá para aparecer, eu vou porque eu quero conhecer como que as pessoas reagem, como que as pessoas veem a universidade num momento como esse, e é uma experiência muito boa, formatura é sempre um momento especial…

Eu falo mais é desse diálogo mesmo, do reitor estar presente, essa presença institucional. Eu acho que também ter a ver como fazemos imprensa em Conquista. Em São Paulo, por exemplo, sobre todos os assuntos tem especialista da Unicamp se manifestando, uma pessoa da USP se manifestando. Aqui, notamos que não tem essa exploração da Uesb. Quando eu falo é mais disso, da presença institucional. Sei dos advogados, sei dos médicos formandos, mas essa coisa da universidade se reverberada lá fora: “Olhe nós temos a Universidade Estadual do Estado da Bahia, essa coisa de orgulho que nós tínhamos e que a bem da verdade se perdeu um pouco.

Mas, como é que está o seu diálogo com o governo do estado, o que foi que o governador já lhe disse?

Olha, tem uma coisa que me preocupa muito, por isso falei que eu gostaria de ter o governador em uma atividade na universidade, porque eu reparei o seguinte: durante a campanha eleitoral (nós temos um governador que foi reeleito) ele estava em campanha para reeleição, em momentos de entrevistas, em debates, quando questionado pelos outros candidatos, todas as vezes que aparecia alguma abordagem crítica sobre aspectos das ações do executivo estadual, o governador sempre tinha uma reação, sempre defendia suas ações: “Não, porque na saúde a gente fez isso, em termos de estradas a gente fez isso, infraestrutura o governo investiu tanto, etc., etc….”. Mas, quando confrontado com alguma crítica com relação à situação das universidades estaduais, a reação do nosso governador sempre foi mais ambígua. Ele não se preocupava em defender as universidades. Quando falavam que as universidades têm muitos problemas, ele respondia que o problema não é do governo. O problema é porque os reitores têm autonomia, eles não têm tradição de boas gestões, etc., etc. Eu ouvi isso pelo menos em duas entrevistas.

Eu ouvi uma em que ele falou que os reitores se comportam como uma pessoa que ganha um cartão de crédito e não sabe como utilizar, e isso me preocupa muito, porque passa uma imagem de que o governo do estado, que é quem mantém a universidade, está com uma percepção negativa e equivocada do papel da universidade. Eu não sei exatamente como que foi se criando essa imagem. Então, aprofundar esse diálogo com o governo do estado é para nós uma coisa importante, desde que a gente assumiu, em junho. Mas, é que a eleição da Uesb ocorre no mesmo ano da eleição de governador. E a gente teve também uma outra dificuldade, que era um período de eleição, logo depois que nós assumimos já veio o período de vedações eleitorais, várias matérias da universidade elas tiveram que ser interrompidas, matéria de tramitação de concurso público de seleção pública, até de divulgação oficial. A gente teve restrições com relação as nossas atividades da rádio, da tv, da homepage, o que pode, o que não pode etc., e esse período de vedação vai até o final do ano, porque a vedação vai até o término do mandato, isso também diminuiu as oportunidades contato, de conversa. No período de eleição você tem o trabalho de gestão, de administração, tem uma mobilização com relação à eleição e essa era uma atividade que a gente não poderia participar, porque a gente está na universidade como gestor, então a gente que ter um diálogo com o governador, com os secretários com o vice-governador na condição de gestores.

Eu tive três momentos de contato muito breve com o governador e nas três atividades o que o governador afirmou foi que tem muito interesse de conversar sobre as universidades, mas essa conversa teria que ser feita depois do período eleitoral, que a Uesb será recebida e a gente vai ter um momento pra gente avaliar a situação da universidade. Ficamos com essa expectativa. Terminou o processo eleitoral há cerca de duas semanas, a gente está tentando retomar os contatos, mas existe também uma outra dificuldade nesse momento, é que nós estamos no período que não é simplesmente pós-eleitoral, embora o governador tenha sido reeleito, é que em termos de prestação de contas do Estado elas tem um período de encerramento por ano, mas também um período especial que é o encerramento de mandato. Inclusive a gente esteve na Secretaria da Fazenda e isso tudo foi colocado, que são coisas que hoje mobilizam, porque é preciso fazer o encerramento de todas as pendências com relação a este primeiro mandato. Nós estamos na expectativa de termos esse diálogo.

Nós acreditamos que é possível sensibilizar os agentes públicos do governo do estado, que envolve governador, secretário de educação, Secretaria de Ciência e Tecnologia, que são os setores principais por onde dialoga a universidade, no sentido de valorização dessas atividades.

Eu participei de uma formatura da turma Ciências Biológicas que é um curso muito bem avaliado, curso nota 4 no Sinaes, um curso que tem vários professores atuando no mestrado na área de genética em Jequié ou na área de Agronomia aqui, e uma professora falou: “Aqui tem uma aluna que fez um relato na rede social, no Facebook, falando da trajetória dela”. Ela era filha de uma família em que a mãe recebia benefício Bolsa Família, etc., depois, com outros recursos, ela virou confeiteira, e com esse trabalho de confeiteira ela conseguiu sustentar suas filhas. Essa menina entrou aqui no curso de Ciências Biológicas e conseguiu se manter através dos programas da universidade, foi bolsista em toda a trajetória, bolsa de Pibid, bolsa de iniciação científica, concluiu o curso e hoje ela faz um depoimento da centralidade da importância da universidade, da transformação não apenas dela, da aluna, mas da maneira como a família se vê, aquela coisa. Assim, nós estamos num meio em que existem instituições que podem fazer diferença na trajetória de jovens de família.

Eu quero crer que esse papel que a universidade desempenha não fique de forma insensível aos gestores do governo estadual, que não dá para apostar que a universidade pública no interior pode ser substituída por instituições privadas, que vão apostar no ensino à distância. Ensino à distância pode ser mais barato do ponto de vista econômico, mais eficiente do ponto de vista de geração de lucro, mas a educação à distância, em si, ela não transforma a vida das pessoas. Na educação superior, como qualquer educação, o que transforma não é só o conhecimento, mas o contato, a convivência, é você estar junto com as pessoas. Você acha que um indivíduo, na sua casa, em frente a um computador, com seu esforço, ele vai se transformar? Não é assim. Ele tem que partilhar valores diferentes, concepções de mundo, debate, discussão, isso é que forma, isso é que muda as pessoas.

Faltam muitos professores na Uesb, muitos cursos têm disciplinas sem professor. Como é que você pensa em resolver isso, diante da dificuldade do concurso e da seleção para este ano e também para depois, que a gente sabe que é uma questão de verba?

O concurso público é uma matéria de deliberação do Estado, do governo do estado. É o tipo da matéria com que a gente espera que o governo do estado demonstre a maneira como ele vê as universidades. Nós temos quadro, não deixamos de ter professores por não termos um quadro, nós temos quadro aprovado pela Assembleia Legislativa, temos vagas, temos inclusive muitas vagas derivadas de processos de aposentadorias, de afastamentos, de alguns pedidos de exoneração, então, nós temos vagas, o que nós não temos ainda é autorização para a realização de concurso público. Esse é um assunto que a gente não conseguiu tratar porque é um assunto vedado pela Justiça Eleitoral.

Quando a gente assumiu, três meses antes da eleição, e até o término do mandato [do governador] não pode tramitar nenhum processo de contratação, a gente não teve nenhuma discussão sobre o assunto e isso pra gente é uma incógnita, nesse sentido de que faz parte daquele bojo que mencionei, de uma relação que a gente quer estabelecer com o governo e que a gente seja capaz de, efetivamente, demonstrar como que essas instituições, que têm um papel a desempenhar, são instituições que valem a pena e, principalmente, [mostrar que] o que está sendo solicitado em termo de concurso é justamente um cumprimento de um quadro que já existe, a gente não está querendo criar vaga nova, não.

Muitas dessas vagas a gente está fazendo remanejamentos internos, tem algumas vagas que nós não preenchemos depois de aposentadorias, porque houve acordo de fusão de turmas em alguns colegiados. Uma determinada área teve quatro professores que se aposentaram, mas a gente está pedindo apenas duas vagas, porque essas outras duas a gente está remanejando para cursos novos, que é onde a gente tem mais problemas, curso de Psicologia, de Ciências Sociais, que são cursos que foram implantados mais recentemente. A gente tem feito. Se esperam da universidade um certo dever de casa de tratar a gestão mais eficiente, a gente tem trabalhado nesse sentido, só que a gente quer também uma contrapartida. Não adianta, simplesmente, a gente fazer um esforço para tentar otimizar essas vagas se também não for liberada vaga nenhuma. Então, essas vagas são necessárias e elas serão tratadas dentro de uma negociação política, mas a gente espera que seja técnica acadêmica e social entre a universidade e governo do estado.

Me fale das suas expectativas e da perspectiva da universidade considerando o novo governo federal que começa em janeiro. Há algum temor?

Sobre o governo federal, é impossível ficar indiferente, porque é algo preocupante.

Se formos levar em consideração tudo o que foi dito em todo esse processo eleitoral, a gente tem motivo para estar muito preocupado. O que a gente viu no processo eleitoral foi uma aposta em uma abordagem não apenas da universidade, mas a universidade acaba se tornando o centro da sociedade como um todo, uma aposta no sentido de desconstrução de vários elementos que para a gente eram elementos que já estavam consolidados, patrimônio da sociedade, patrimônio da sociedade brasileira. Na campanha eleitoral eu recebi um vídeo em que pessoas colocavam capim em uma carroça e iam para a avenida oferecer como se fosse comida para nordestinos.

Eu vi um vídeo em que o candidato tratava de quilombolas, algo como: “Eu estive lá no quilombo e o mais leve, ali, pesava não sei quantas arrobas”, falando de negros dizendo que não servem nem como reprodutores. São três coisas que têm o mesmo foco. É o foco da desumanização – eu transformo indivíduos humanos e comparo a animais. Isso é uma estratégia brutal de negação de direitos humanos, embora tenha se criado uma falácia em torno da questão de direitos humanos, como se defender direito humano fosse defender direitos de bandidos, mas, o fato é que a nossa sociedade brasileira e a civilização ocidental se assentam no direito básico do direito humano.

Direito humano não é defender bandido, direito humano é reconhecer que todo indivíduo, pelo fato de ele ser homem, dele ser mulher, ser da espécie humana, ele já é portador de direitos, independentemente de sua procedência regional, de sua etnia, de sua religião, de sua cor, de sua orientação sexual.

As pessoas têm direitos inerentes à sua existência, isso é o básico. Não podemos tratar como natural as pessoas serem tratadas sem essa condição. Eu vi um outro vídeo com uma pessoa gritando “vamos matar viado”. É a negação de um direito humano, direito humano fundamental, que é o direito à vida. Por que pessoas com orientação sexual não vão ter esse direito? Isso foi tratado de uma forma natural, várias práticas de negação de diretos humanos. Vimos também várias falas de negações de direitos sociais. Direito humano é aquele direito que toda pessoa tem pelo fato de existir, de ser da espécie humana: direito à vida, direito à liberdade, direito à dignidade, direito à segurança. Você não pode ameaçar uma pessoa porque ela é homossexual, porque ela é negra, negação de direitos humanos.

Direitos sociais são aqueles direitos conquistados pela tradição, pela luta social, que é o direito trabalhista, é o direito à saúde, é o direito à educação, que são direitos que foram tratados com o mais absoluto desdém e desprezo. Isso tudo, para nós, gera um clima extremamente inseguro, e particularmente para a universidade, porque a universidade sempre se assentou na prerrogativa dos seus direitos, nós somos instituições baseadas, primeiro, nas tradições do direito humano e do direito social, da livre expressão, da manifestação do pensamento livre aberto, sem restrições.

E a gente viu nessa campanha eleitoral muitas ações direcionadas às universidades. Nas semanas antes das eleições nós tivemos na Universidade Estadual do Pará policiais militares armados, que entraram na sala de aula para levar o professor; o professor só não foi para a delegacia porque bateu o pé e disse que não iria, que só iria se fosse acompanhado de um advogado. Houve uma intervenção policial sem mandado judicial dentro de uma universidade. Nós tivemos intervenções do Ministério Público em uma universidade de São João Del Rei. Representantes do Ministério Público foram até a assessoria de comunicação para exigir que uma nota em favor da democracia saísse do ar, uma nota da reitoria da universidade; enquanto a nota não saísse do ar era uma multa de R$ 5 mil por dia para a reitoria e ameaça de prisão. Nós tivemos ações na Federal de Campo Grande, Federal de Dourados.

Foram ações tão acintosas que gerou até a necessidade de um posicionamento do Supremo Tribunal Federal, nós tivemos ministros do Supremo tentando assegurar a autonomia e o direito à autonomia e à liberdade de pensamentos dentro das universidades. E quando as coisas chegam a esse nível, ou seja, o presidente do Supremo ter que se posicionar, é porque já existe um temor de que isso se torne uma prática disseminada. E nós, infelizmente, temos também insegurança se um posicionamento do Supremo Tribunal, hoje, é capaz de assegurar a tranquilidade institucional às universidades. Vamos lembrar que um dos representes do pensamento do presidente, um filho do presidente, que dizia que o Supremo pode ser resolvido com um soldado e com um cabo, ou seja, a gente tá numa situação, que nem a posição do Supremo é garantia de ordem institucional.

A Uesb, por exemplo, tem cotas para negros, cotas para quilombolas, cotas para indígenas e somos orgulhosos disso, e a Uesb não tolera nenhum tipo de atividade discriminatória por orientação sexual, por cor, por religião, isso não é admissível dentro da universidade. Então, a universidade ela pode se tornar alvo de ações que queiram estabelecer uma ditadura de um pensamento contrário às afirmações de direitos de minorias. E repare, quando eu falo em minorias eu estou falando em minorias do ponto de vista do poder político. Minoria incluiu mulher, não por uma questão demográfica, mas uma questão de acesso às instâncias de decisão; minoria inclui o negro, os negros são a maioria da população demograficamente, mas em termos de estrutura, ocupação de cargos chaves no poder eles são minoria.

E a universidade pretende ser e a gente não abre mão de ser, não apenas uma instituição de desenvolvimento de conhecimento de ciências, mas também um instrumento de defesa, de proteção de populações vulneráveis e de emancipação dessas populações. Se metade do que foi falado na campanha eleitoral se concretizar, a gente, sim, tem muito motivo para preocupação.

Estamos tendo conversas, temos conversado com os departamentos, a gente já fez duas reuniões públicas com diretores, com a comunidade em geral, em duas oportunidades, e a gente já falou que a nossa posição é a seguinte: as atividades de ensino, pesquisa e extensão de professores, elas têm que continuar sendo desenvolvidas como atividades institucionais. Se o professor está com um projeto para discutir direitos humanos, para discutir fascismo, nazismo, etc., mas é uma atividade de extensão registrada no departamento, isso é uma atividade da instituição, quem responde por ela é a Uesb, é a Uesb com o seu reitor, com a sua estrutura de procuradoria jurídica.

A gente não vai admitir que um professor em atividade institucional, na sala de aula, num projeto de extensão, numa atividade de extensão, ele seja alvo de ações de restrição na sua liberdade de pensamento.

A gente vai acolher todas essas atividades institucionais de ensino e pesquisa. Se faz parte da carga horária do professor, faz parte da disciplina dele, faz parte do que ele faz no departamento, quem responde é a instituição. Atividades que sejam de outras instituições, que sejam do sindicato, DCE, etc., que não sejam da instituição, mas que sejam pautadas pelo respeito pela diferença, nós vamos dar apoio político, não podemos dar apoio institucional, porque o reitor não responde pelas ações do DCE, da Uesb, isso a gente não pode fazer, mas se for algo da defesa da ideia, do princípio básico da democracia, a gente dá o nosso apoio, nosso respaldo político, não institucional, não jurídico, mas o apoio político a gente vai oferecer sempre.

E o aluno filmar o professor na sala o que você acha desse conselho?

Eu já tive várias oportunidades, e se tornou mais ou menos comum, mas eu já tive várias oportunidades em que dando aula o estudante pediu: “Professor, posso gravar sua aula?”, aquela coisa de também ter o material para depois conferir, etc. Então, isso não é uma prática estranha da relação do professor com sua turma, só que isso foi colocado de uma forma intimidatória, foi uma questão de intimidação, com o fim único de produzir uma prova contra o que se chama por aí de apologia, não se sabe exatamente o que é.

O que a gente quer deixar claro para o professor é que ele tem a sua autonomia em sala de aula, para recusar ou para permitir que sejam registradas suas atividades, e que se houver o registro dessa atividade como uma atividade de sala de aula, então está bem, quem vai responder vai ser a reitoria, porque é uma atividade institucional feita com o respaldo dessa reitoria. Dessa reitoria não, dessa instituição. Então, faz parte da atividade dele como professor universitário, então quem tem que responder é a universidade.

E, por fim, qual é a sua grande meta, quando você sair daqui que marca quer deixar? Você tem um sonho, uma ambição? Você vai deixar o que na universidade, que já está a caminho?

A ambição que a gente tem? Olha, a maior parte dos professores da universidade são pessoas que foram marcadas pela vida universitária. A universidade foi para essas pessoas aquele momento de transformação da vida, de revolução, onde se formaram, em todos os aspectos, onde desenvolveram as suas relações afetivas duradouras, desenvolveram valores, desenvolveram cada coisa que marca. Eu fui uma dessas pessoas. Eu comecei a trabalhar com 14 anos de idade, minha carteira de trabalho é registrada no dia 14 de janeiro de 1978, trabalhei até 1983, aí pedi demissão, larguei a minha cidade e fui estudar.

Na minha cidade, Bauru, não tinha ensino superior público, só tinha um campus da USP, com um único curso de Odontologia, e uma universidade pública de História só tinha no interior em Assis e em Franca. Então fui para Franca, larguei o emprego e, lá, entrei numa grande incerteza, porque já não tinha mais o trabalho, não tinha fonte de renda e a universidade foi aquela coisa que muda, muda completamente a vida, a maneira de pensar, o mundo, muda a sua rotina, aquela coisa de se envolver com projetos de pesquisa, se envolver com militância política, se envolver com a discussão interna da universidade.

Entrei na universidade em 83, que era o finzinho da ditadura militar – em 82 teve a primeira eleição para governador desde a ditadura, que aqui na Bahia foi eleito João Durval, em São Paulo foi Franco Montoro. A eleição foi em 82, mas o mandato começou em 83, foi quando eu entrei na universidade, um momento de efervescência política, de grandes debates, que depois vai culminar em todo o processo da Constituinte em 86, pelas Diretas Já, e eu já estava lá na universidade. Depois vem toda aquela expectativa que a Constituinte trouxe: vamos desenhar um novo Brasil. E eu estava na universidade.

E tudo isso para mim era um outro mundo, era um mundo público, porque na verdade a vida que eu tinha antes era muito da vida privada, do meu trabalho, o meu lazer, em casa, doméstico, rádio, televisão, etc. De repente, você percebe que o mundo é muito maior do que essa rotina cotidiana do trabalho, da casa, da família, você tem um mundo enorme para ganhar. E esse mundo enorme da política, da cultura, do conhecimento e que pode agregar outros elementos de suas habilidades, ele é um mundo fascinante. Para mim essa dimensão pública, política, de todos os indivíduos, quem me ensinou foi a universidade.

E, assim, o sonho quando a gente pensa na universidade, é isso: que a gente realmente tenha uma universidade que seja referência de transformação para as pessoas que passam por aqui.

Author: Giorlando Lima

Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 58 anos de idade, 42 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

2 thoughts on “Reitor quer trazer o governador à Uesb e garante apoio institucional a professores no debate sobre política e direitos

Comente