O milésimo post do BLOG é de paz e amor, não só porque é Natal

Ontem, revendo arquivos que recebi pelo WhatsApp, o que faço no final de cada mês, vi uma carta do editor do Jornal do Sudoeste, meu amigo Antonio Luiz da Silva, em que ele me solicita um artigo para edição de fim de ano do jornal, com o tema “tolerância”. Como dá para perceber, eu não escrevi o artigo. Perdi uma excelente oportunidade, por negligência. Com a minha rotina e com meu amigo. Aproveito para me desculpar.

Ontem (domingo, 23) cinco pessoas morreram vítimas da violência que tem marcado Vitória da Conquista nos últimos anos, apesar do esforço policial, fartamente noticiado pela imprensa local e regional, o Jornal do Sudoeste incluído. O dia começou lamentável.

Logo cedo da manhã já tinham ocorrido três mortes, de suspeitos que reagiram a abordagens policiais. À noite, por nada, como se diz, outra pessoa foi morta em uma festa de confraternização. Pelos relatos, o homem que atirou o fez a esmo, depois de ter discutido com outra pessoa. Acertou em quem não tinha a ver com a discussão. Uma hora depois, um casal foi vítima de um atentado no bairro Ibirapuera. Um rapaz morreu na hora, a moça que o acompanhava está em estado de coma na UTI do Hospital Geral de Vitória da Conquista.

Felizmente, Conquista não era apenas o aparente campo de guerra que esses tiroteios podem levar a pensar que a cidade virou. Teve festa em vários lugares. Eu fui ao Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, ver o concerto D’Os Sertões e Outras Terras. Foi a minha chance de matar: a saudade do teatro do centro, equipamento que eu dirigi em 1995; a curiosidade sobre a evolução do espetáculo, de que vi a estreia em 2003, agora com a participação do virtuoso violonista Petrônio Joabe; a vontade de ouvir música de Elomar Figueira e poesia de Camillo. Consegui mais. O bônus foi ver um teatro lotado em dia de concerto, com literatura narrada por Elton Becker e música – primorosamente executada por João Omar no violão e no violoncelo -, que não toca nos rádios e nos festivais de inverno e verão, e ainda apreciar a exposição “João, Menestrel dos Sonhos” do artista plástico João Marcos Oliveira.

Uma excelente pré-estreia de Natal, eu diria. No teatro, carreguei as baterias para uma véspera de Natal de paz e alma confortável, desejando que nenhuma notícia ruim que eu tivesse que publicar no BLOG viesse a acontecer. A realidade, por mais otimistas que sejamos, sempre supera nossos sonhos. Nossos desejos costumam perder para as circunstâncias, isso de que é feito o homem, além de si mesmo (José Ortega y Gasset). Infelizmente, chegamos a 176 mortes por arma de fogo em Vitória da Conquista, quase tudo na conta da guerra as drogas, pelo comando do tráfico, por causa de dívidas de usuários ou acertos de contas entre vendedores e traficantes. Foram 169 homicídios até as 20h15 desta segunda. As outras mortes entram na classificação de confrontos polícia e bandido, os autos de resistência.

É muita gente morta. O BLOG levantou, com base em dados oficiais da Secretaria de Segurança Pública (SSP), e informações obtidas com fontes policiais este ano, que, já foram assassinadas em Vitória da Conquista 1.150 pessoas, a imensa maioria jovens. E não chegamos a isso por falta de leis, de polícia ou de orações. Provavelmente por falta da tolerância sobre o que queria que eu escrevesse o meu amigo Antonio Luiz. A intolerância gera violência, de vários tipos, da que mata o corpo e da que fere profundamente a alma, compromete a vida. Também se diz que o vício – que atinge todas as classes sociais e alimenta o tráfico, do qual, dizem, é a mais alta a financiadora – coloca todas as demais questões abaixo, que nenhuma sensibilidade é capaz de interromper a sanha e a velocidade com que ele se alastra, tornando o tráfico cada vez mais poderoso.

A ser assim, estamos perdidos. Debalde serão os esforços dos advogados humanistas, dos Direitos Humanos, dos juízes pela democracia, dos religiosos que oram e pregam a salvação.

Mas, porque é Natal e este é o post de número 1.000 do BLOG, vou manifestar minha fé na nossa capacidade de modificar o quadro atual, entendo como nós sociedade, órgãos de segurança, igrejas, judiciário, ongs, governos (difícil, mas possível). Eu sei que é complicado defender a condição humana do bandido, mas não é defender a condição humana dos não bandidos. Não dá para desistir dos direitos humanos de todos. Mas, não é isso o que tenho em mente. Tenho em mente, mais ou menos, aquilo que muita gente pensa estar na Bíblia, mas foi dito por Pitágoras, uns 500 antes de Cristo: “Educai as crianças e não será preciso punir os homens”.

Educar ensinando o que está nos livros e na escola da vida. Ensinar a viver em sociedade. Educar a empatia e a compaixão. Falar de amor, antes de mostrar a violência. Ensinar a combater o preconceito, a respeitar as diferenças e defender a igualdade perante a lei. Dar ao menino que está jogando por horas seguidas, não apenas uma Bíblia, mas livros e a ensinar a Constituição. E, repetindo, porque era esse o mote do meu milésimo post: educar a empatia e a compaixão. Ensinar sobre amor, que não exige lições caras, distantes, confusas, só o exemplo. Quem ama ensina a amar, a ter empatia.

Já pensei em que como pode ser curiosa essa comemoração do Natal, que é uma forma ocidental de lembrar o nascimento de Jesus Cristo, em que as pessoas enviam mensagens pelo WhatsApp ou postam no Facebook e no Instagram frases lindas, orações, desejos de felicidade, paz, amor, com símbolos como toucas e bolas brilhantes vermelhas, renas, neve caindo sobre pinheiros (quando Cristo nasceu não nevava e nem havia pinheiros por perto), que nem lembram a manjedoura ou o menino que a religião cristã crê que veio ao mundo enviado pelo pai, Jeová, para salvar a humanidade. Mas, isso não retira o valor da data, dos sentimentos, dos desejos de que o bem recaia sobre todos. Pelo contrário, deve ser a essência do momento.

Esta data nos faz pensar em paz, amor. E eu penso que não precisamos esperar a Semana Santa, os dias de graças, para pensarmos na compaixão, na empatia. Em nos colocar no lugar do outro, quando formos fazer um julgamento, que dessa mania não nos livramos nunca.

Nem sei se o que eu queria dizer eu disse direito, mas cumpro a intenção, pelo menos. O milésimo post do BLOG DE GIORLANDO LIMA quer desejar Feliz Natal, feliz vida, paz, amor aos leitores e que seus corações se encham de compaixão pelo ser humano. E isso, para mim, não é passar a mão na cabeça de ninguém, por mais próximo que seja, é pensar que cada um de nós pode ser um professor nessa escola bagunçada que é a vida. Todo mundo, em algum momento tem a chance de ensinar um menino, um jovem, ou mostrar um caminho diferente a um adulto, para que não lamentemos, depois, a violência que nos ameaça.

Este é um post de paz e amor. Um post de esperança.

Abraço. Até amanhã.

Author: Giorlando Lima

Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 58 anos de idade, 42 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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