Que venham a chuva e 2019. Se é para molhar, que valha a pena.

Bem-vinda chuva, mas venha suave. Traga alegria para a plantação, água para os potes, alívio para o calor. Só não carregue a casinha que o pobre fez na periferia, nem o que ele juntou carregando a vida nas costas.

Venha chuva, chegue altiva e forte, arraste para longe a sujeira das ruas e dos dias, mas não arranque o piso do chão, sob os pés dos que andam a esmo, fugindo do ermo que foi o ano duro e quase cru que acaba.

Venha, chuva, impelida pelo impulso dos céus, só não empurre as paredes abaixo, pois atrás do muro crianças podem estar se protegendo de tudo o que vêem, mas não sabem o que é.

Faz que possamos ouvir seus sons, como cumprimento e aviso. Fala nos telhados, nas portas fechadas, nas latas não catadas, no teto de zinco que há pouco estava quente. É bom ouvir sua voz nem alta nem baixa, ora afago, ora sermão.

Que sejam rudes apenas os berros das nuvens no céu riscado pelos relâmpagos.

Venha chuva. Se demore o tempo necessário para lavar nossas decepções e medos. Vem esfriar os ânimos alterados que nesses tempos irrompem ao menor sinal de discordância. Apaga esse fogo, chuva.

Leva de enxurrada, para oceanos distantes, o preconceito, o desrespeito às diferenças e a falta de empatia e compaixão que cresceram em torno de nós como a lama de Mariana, as balas quentes da guerra nas cidades ou o tsunami da Ásia.

E repõe a esperança, chuva. Que o medo não nos inunde e a nossa fé não se apodreça como chita velha esquecida no varal, não se desfaça como papel molhado.

Que, se for caso, para matar a sede de justiça e deixar correr o rio da liberdade, a nossa indignação rompa as barragens, abra as comportas da nossa coragem e nos banhe de democracia.

Que venham a chuva e 2019. Se é para molhar, que valha a pena.

(Escrito na lata, como se diz, e postado sem reler, para que se mantenha a genuinidade – ou a ingenuidade).

Giorlando Lima, Vitória da Conquista, Bahia, durante a breve chuva do penúltimo dia do longuíssimo 2018.

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