Gasoduto: assunto sério que começa a ganhar contornos provincianos, com celeuma até por causa de agenda

O assunto estava esquecido. Foi muito comentado em 2011, quando a Bahiagás anunciou o projeto, mas, desde então, o gasoduto Sudoeste deixou de despertar o interesse da comunidade política local. Em 2014, a empresa abriu a licitação para o projeto executivo da obra e em abril daquele ano a Concremat Engenharia e Tecnologia foi a empresa escolhida. Teve 15 meses para executar o trabalho. E ninguém de Conquista abriu a boca.

Gavazza BahiagásEntre 2014 e 2015, o diretor-presidente da Bahiagás, Luiz Raimundo Barreiros Gavazza, deu entrevista, publicou relatórios e outros documentos informando o trajeto dos dutos e explicando que não passariam por Vitória da Conquista, a ser abastecida com o gás natural comprimido (GNC), por meio de carretas transportadoras do combustível abastecidas na ponta final do duto de distribuição. Ninguém de Conquista disse nada.

Herzem e empresário gasodutoEm março de 2017, o prefeito Herzem Gusmão recebeu no gabinete temporário instalado no Parque de Exposições, o empresário Horácio Andrés, vice-presidente da Galileo Technologies, sediada na Argentina, que demonstrou interesse em instalar em Vitória da Conquista uma unidade de processamento e distribuição de gás natural. A ideia era que Conquista recebesse o gás liquido e o processasse para mandar a Brumado até que o duto chegasse àquela cidade. Ou seja: não era novidade que o gasoduto não passaria por Vitória da Conquista. O prefeito adorou a proposta, mas, desde então, nem ele e nem Horácio Andrés voltaram a falar disso.

Obra gasodutoNo início de 2017, foi aberta a licitação para a construção do gasoduto. Em setembro do ano passado, a obra começou. A Bahiagás e o governo do Estado deram grande publicidade ao fato. E em todo material divulgado, o roteiro sem o nome de Vitória da Conquista. E em nenhum daqueles momentos, não se ouviu qualquer voz da política local ou do empresariado se manifestar, demonstrar que estava atenta ao desenvolvimento do projeto.

Clique no link e leia matéria no site da FGV Energia para entender melhor o projeto.

RETOMADA DO TEMA

Entretanto, no final do ano, o vereador Luciano Gomes, então candidato a presidente da Câmara Municipal, diante do que se supõe ser um cartel de postos de combustível para manter o preço da gasolina acima dos praticados nas cidades vizinhas, tirou o gasoduto do esquecimento. Fez um discurso propondo aos demais vereadores um movimento para que a Bahiagás estenda o projeto até Vitória da Conquista. Para Luciano, a chegada do gasoduto seria a única forma de combater o cartel dos combustíveis, hoje instalado na cidade.

Vereador Luciano Gomes

A proposição de Luciano Gomes contém apenas dois equívocos: 1. Se Conquista for incluída o gasoduto só estará finalizado  e operando em 2022. Até lá (quatro anos) o cartel fica sem a concorrência do gás. 2. A prioridade do gasoduto não é o GNV (gás natural veicular), mas a indústria. Para se ter uma ideia, há um gasoduto passando por Itabuna, mas um único posto que vende GNV, e a clientela é praticamente apenas de taxistas. Há menos de 700 carros adaptados ao GNV naquele cidade. O acerto da proposição está em propor uma movimentação em favor do gasoduto, em si, na perspectiva do desenvolvimento econômico da cidade, considerando o abastecimento de hotéis, restaurantes, hospitais, cozinhas residenciais e da área industrial, apesar de sua incipiência atual.

Depois que o vereador relembrou o esquecido gasoduto, depois de sete anos do nascimento da ideia e quase um ano após o início da sua implantação, a um custo de R$ 433,2 milhões, foi a vez do empresário José Maria Caires, um dos maiores incentivadores da construção do novo aeroporto da cidade, liderando o movimento Conquista Pode Voar Mais Alto, conclamar o setor produtivo para defender a mudança no projeto da Bahiagás e tentar incluir Vitória da Conquista no roteiro do gasoduto. Especialistas estimam que essa mudança no projeto elevaria o custo final a mais de R$ 500 milhões, para atender a uma cidade com potencial de consumo de  menos de 20 mil metros cúbicos por dia, enquanto, em Brumado, só a Magnesita deve consumir mais de 240 mil metros cúbicos/dia.

PROVINCIANISMO

Toda iniciativa em favor do município, que possa proporcionar desenvolvimento econômico e melhoria de vida da população merece aplauso. Mas, é lamentável quando a discussão sobre um tema dessa importância toma ares provincianos. E são esses os sinais. Surgem as reivindicações de paternidade, as reclamações ciumentas, os movimentos políticos e a luta perde o gás, como se diz. O vereador Luciano Gomes diz que a Câmara não pode abrir mão de ser a protagonista dessa história.

Primeiro, o vereador se queixou porque o empresário José Maria e o deputado estadual Fabrício Falcão estiveram na Bahiagás, sozinhos, tratando do assunto. E agora torna público sua chateação porque a diretoria da empresa não pôde manter uma agenda marcada com os vereadores conquistenses para o 21 de janeiro. Enquanto isso, o empresariado continua divulgado reunião com representantes da Bahiagás, marcada para o dia 31 deste mês, quando tanto o que os vereadores quanto a companhia têm a dizer poderá ser dito e ouvido.

Os equívocos de Luciano Gomes e de José Maria Caires: 1. Não unificar as agendas, o movimento. Deixar transparecer uma conotação de disputa. 2. Esquecer que a Bahiagás responde ao governador Rui Costa e a empresa já explicou que o pleito da mudança no projeto para incluir Vitória da Conquista que não é possível atender do ponto de vista econômico, assim, a questão só teria a solução desejada se fosse pela via política.

Sobre o cancelamento da reunião com os vereadores conquistenses, a Bahiagás emitiu uma nota:

A Companhia de Gás da Bahia – Bahiagás esclarece que, diferente do que foi informado pelo presidente da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista, Luciano Gomes, na matéria “Conquista: Bahiagás ‘dá o cano’ em vereadores e irrita presidente da Câmara”, veiculada no Blog do Rodrigo Ferraz, a tentativa de remarcação da reunião deveu-se, exclusivamente, a questões de agenda, não havendo qualquer outra motivação para tal.

Apesar disso, representantes da Companhia estarão presentes no município, no próximo dia 31 de janeiro, para falar com as autoridades, empresários e todos aqueles que queiram discutir a viabilidade de levar o gás natural para Vitória da Conquista.

A Bahiagás ressalta que sempre cumpre com seus compromissos e que tem profundo respeito pelas autoridades, empresariado e toda a comunidade conquistense, esperando, assim, manter a boa relação com todos que querem o melhor para Vitória da Conquista”.

Author: Giorlando Lima

Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 58 anos de idade, 42 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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