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PT de Conquista perde força no governo Rui Costa e isso não é bom, avaliam políticos. Cientista social diz que PT local foi rifado

Considerada modelo em suas três primeiras gestões, entre 1997 e 2008, a administração petista de Vitória da Conquista “exportou” para o governo Jaques Wagner, em 2007, aproximadamente uma dúzia de técnicos, que formaram um núcleo influente no Centro Administrativo da Bahia (CAB), embora, no primeiro momento, tenha feito apenas um secretário, Jorge Solla, que não é conquistense, mas construiu seu nome quando ocupou a secretaria municipal de Saúde nos dois primeiros governos de Guilherme Menezes.

Aos poucos, alguns nomes foram se desgastando e foram perdendo cargos importantes. Até o final do governo passado somente Geraldo Reis ocupava lugar no primeiro escalão, como secretário de Meio Ambiente, e o ex-prefeito Guilherme Menezes ocupava (e ainda ocupa) a função de coordenador do Escritório de Representação do Governo do Estado em Brasília. O cargo de Guilherme deve ser passado ao suplente de senador Bebeto Galvão (PSB), conforme vem sendo noticiado pela imprensa, como forma de compensação por não ter sido oferecida uma secretaria do socialista.

Se Guilherme sair, a única representante da original república de Vitória da Conquista na equipe de Rui será Regina Afonso, que foi da equipe de Guilherme e de José Raimundo até ir para Salvador trabalhar no gabinete do ex-governador Jaques Wagner. Regina foi mantida pelo governador na Fundação da Criança e do Adolescente (Fundac). Os demais ou estarão em cargos de terceiro escalão ou esperando um sinal do governador para um chance melhor.

Com um deputado federal, Waldenor Pereira, e um estadual, José Raimundo Fontes, ambos no terceiro mandato, e tendo entrado para a história do PT nacional como uma das administrações mais longevas do país, como 20 anos à frente da prefeitura, o PT conquistense não fala, mas se ressente do tratamento recebido do governador. Os deputados não reclamam, Guilherme Menezes, idem, e nenhum dos petistas conquistenses no CAB, tampouco. Mas, a representação simbólica do cargo e a possibilidade de atuação de um secretário seria importante para o PT na sua tentativa de retomar o poder em Conquista, acreditam alguns.

RELEVANTE

Segundo o presidente do diretório municipal, Rudival Maturano, “para a cidade seria fundamental. Inclusive, pelo que eu sei, o PT e o PCdoB de Conquista não têm colocação importante no governo. Pelo menos até o momento”. Sobre o PCdoB, o presidente do partido em Conquista, Elias Dourado, perdeu a Superintendência dos Desportos do Estado da Bahia (SUDESB). No lugar dele entrou Vicente José de Lima Neto, natural de Castro Alves. Mas, o partido coloca na conta de Conquista a titular da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Bahia (SPM), Julieta Palmeira, embora ela só tenha morado na cidade quando era criança e nunca militou na política municipal.

De acordo com Rudival, o PT de Conquista, chegou a emitir, em janeiro, nota interna direcionada ao diretório estadual, apoiando a indicação de conquistenses para secretarias. Segundo ele, o PT estadual estava responsável por apresentar os nomes do partido para a escolha do governador. Rudival Maturano diz que ter uma secretaria ocupada por um nome do PT local seria “relevante, com certeza”, mas que, “considerando o perfil proativo do governador, acredito que ele atenderá os principais pleitos de conquista, inclusive sendo um dos principais apoiadores em uma eleição”.

INJUSTIÇA

O presidente da Câmara de Vereadores, Luciano Gomes, que é do PR, um partido aliado, o PT e o município perdem pela ausência de secretários estaduais indicados pelo PT conquistense. Segundo Luciano, “o primeiro governo de Jaques Wagner foi montado com uma base de Vitória da Conquista, ou seja, Vitória da Conquista exportou profissionais para a administração estadual e estes foram os que projetaram o governo Wagner para o segundo mandato e, posteriormente, o primeiro mandato de Rui Costa e sua reeleição”. Para o presidente da Câmara Municipal, não é justo, da parte de Rui, que Vitória da Conquista não tenha cargos de relevância, “como sempre teve”.

Luciano Gomes enfatiza que Vitória da Conquista sempre contribuiu com o governo, de maneira positiva, com os quadros que apresentou, e que Rui Costa “deveria olhar com mais carinho para essa situação”. Ele diz que a ausência de nomes conquistenses no secretariado é um sinal de fraqueza política. “Eu acho uma fraqueza enorme dos nossos representantes, Fabrício [Falcão, PCdoB], José Raimundo Fontes e Waldenor Pereira, por deixarem acontecer isso. A força política de nossa região deveria ir para cima do governo para garantir que a nossa região continuasse contribuindo com o governo como sempre contribuiu”.

REORGANIZAÇÃO DE FORÇAS

Matheus Silveira, professor de Ciência Política na Uesb e doutor em Sociologia, disse que chamou à atenção o fato de na escolha da equipe para o segundo mandato o governador Rui Costa não ter mantido em seus cargos ou nomeado para outros com a mesma relevância os petistas conquistenses José Geraldo Reis e César Lisboa. Para Matheus, o PT conquistense foi rifado por Rui, em nome da reorganização das forças políticas em um momento em que a tendência é a aproximação com a direita, tendo como horizonte um possível êxito do governo Bolsonaro, que impactaria a política baiana.

“Este mandato, mais do que no anterior e mais do que nos mandatos de Jaques Wagner, tem uma clivagem claramente mais conservadora. Já se desenhou isso desde a eleição, em que Lídice [da Mata] foi preterida [da candidatura ao Senado] para poderem compor com Ângelo Coronel [PSD, ex-presidente da Assembleia Legislativa] e me parece que neste momento as forças de esquerda têm um espaço reduzido no governo, em face do fortalecimento da direita no país inteiro”, raciocina o cientista.

Matheus vê essa guinada mais à direita como uma forma de Rui Costa não perder a base, que, por sua vez, para não perder o espaço político com o virtual crescimento do bolsonarismo, estaria caminhando naquela direção. “É mais tentador, para esses partidos da base de Rui Costa, irem aos poucos se direcionando para uma base mais próxima do bolsonarismo, que está vindo muito forte e tem uma promessa de futuro mais duradouro do que a experiência do PT na Bahia, que, ao que tudo indica, já em 2022 vai ter muita dificuldade de eleger governador.” Na leitura de Matheus Silveira, essa tendência está associada ao fato histórico de que a Bahia é um estado “que raramente se desalinha com a estrutura do poder federal, inclusive por ser um estado pobre cuja margem de autonomia é muito pequena”.

Com essa perspectiva da perda de força política, com a base podendo virar mais à direita em face do potencial sucesso do bolsonarismo, Rui Costa teria decidido sacrificar um pouco mais o PT. Nessa linha, o PT conquistense teria sido preterido por estar fraco. “Por que rifar justamente essas forças daqui de Conquista? Aí tem a ver com a derrota do PT local na eleição de prefeito de 2016, interrompendo uma sequência de cinco mandatos e deixando o partido claramente mais fraco”, analisa o cientista social, para quem, se o PT de Conquista está mais fraco no contexto estadual e o partido está perdendo espaço em seu próprio governo, a lógica natural seria rifar o PT daqui. “Foi a ‘gordurinha’ que Rui Costa viu para cortar e poder rearranjar as forças políticas”.

Matheus esclarece que essa uma visão ampla do processo, “mas há questões muito específicas que nos escapam”. Não é condenável especular que isso também se dê porque Rui Cosa está se sentindo muito bem no papel de único arauto das boas notícias para Vitória da Conquista. Desde 2015, é ele quem anuncia obras e serviços, dá entrevistas, aparece nas fotos. E a verdade é que, em quatro anos, Rui Costa superou todos os demais governadores em número de obras realizadas ou em fase de execução em Conquista. E nenhuma foi indicação de deputado ou projeto de secretário conquistense.

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