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Opinião | O aeroporto está pronto, é hora de mudar de assunto. Vitória da Conquista tem outras prioridades a resolver

Um dia o ex-prefeito Guilherme Menezes disse que a construção da Comunidade de Atendimento Socioeducativo (Case) era mais importante do que o novo aeroporto. Pouca gente entendeu ou deu atenção ao que Guilherme disse. Sua afirmação se deu diante do contexto do crescimento da violência em Vitória da Conquista, com envolvimento de crianças e adolescentes cooptados pelo tráfico de drogas.

Uma realidade em que os meninos e meninas eram – e são – recrutados para o cometimento de crimes que começam com a entrega de encomendas até a prática de homicídios. Apreendidos, são apresentados na delegacia, passam pelo reconhecimento de sua menoridade e, por falta de local para onde serem mandados, voltam para casa. Pior, na verdade, voltam para as ruas, para os braços dos traficantes e para o crime. Quando há vaga em alguma comunidade ou casa de acolhimento em Salvador ou Feira de Santana, vão para longe de suas famílias, do que resta de opção para não se tornarem piores do que estão.

Na semana passada, um adolescente de 14 anos matou uma menina da mesma idade. Ele obedecia às ordens de um dos chefes das muitas facções que guerreiam na cidade pela hegemonia no tráfico de drogas e outros crimes. Nas redes sociais as reações, na maioria, foram condenando os dois adolescentes. O que matou teria que ser morto logo, a que morreu teria feito algo para aquilo acontecer. Quase ninguém sequer levou em conta que se tratava de duas crianças. Não se ouviu uma voz para debater a questão em si. E o ocorrido entra para as estatísticas. O menor foi apreendido pela Policia Militar, em ação rápida e eficiente. A imprensa não foi informada do encaminhamento judicial deste caso, até porque o processo tramita em segredo de justiça.

A Comunidade de Atendimento Socioeducativo (Case) de Vitória da Conquista está em construção, depois de esperar seis anos. Quase o mesmo tempo em que se desenrolam as obras do novo aeroporto. Este sim, tem sido um dos assuntos principais assuntos da nossa imprensa, mais do que a Case ou mesmo a barragem do Catolé, que já deveria ter começado a ser feita há dois anos, para resolver o problema de abastecimento em uma cidade que vive ameaçado por longos períodos de estiagem e racionamentos.

O novo aeroporto tem sido tema de pré-candidatos a prefeito em busca de notoriedade, vereadores em busca de discurso, de um governo pressionado pela agenda e pela necessidade de protagonismo e de uma imprensa acostumada a enlevar-se com celebridades políticas e a aceitar com facilidade teses salvadoras ou de supervalorização da “força da suissa baiana”, da “capital do sudoeste”, da “melhor cidade de todas”.

ÁGUA

Mas, acreditem, não é porque teremos um aeroporto com capacidade para cinco empresas e grandes aeronaves que Vitória da Conquista vai virar São Paulo. Nem mesmo uma Feira de Santana, que tem um aeroporto menor que o atual de Vitória da Conquista. O que atrai uma grande empresa são incentivos fiscais, mercado consumidor local, infraestrutura para mobilidade, energia elétrica e água. Água para produzir – e para beber.

Mas, antes de nos dar a água de que todos precisam, o governo decidiu priorizar um novo aeroporto quando já temos um capaz de suprir a efetiva demanda por mais algum tempo. Há quem adore incensar o aeroporto. Reverberar um discurso de setores empresariais, de uma parcela da sociedade que tem pontos de milhagem para gastar, de que o aeroporto é a panaceia para o ainda incipiente desenvolvimento econômico da terceira maior cidade da Bahia. Balela. Do jeito que estamos Conquista pode receber Bill Gates, Jeff Bezos, Carlos Slim, Jorge Paulo Lemann… No ano passado não esteve aqui Luciano Hang?

Aeroporto é bom? É ótimo. É importante? É necessário. Melhora a cidade? Muito. Incrementa a economia? Sem dúvida. Mas isso no médio e longo prazos e não como a panaceia que se vende. Os insumos e materiais para empresas, principalmente industriais, chegam de caminhão. E os produtos saem para os mercados de caminhão. Dinheiro vai e vem eletronicamente ou, se de avião, ele não precisa ser Boeing ou AirBus. O modo como falamos do nosso aeroporto tem a ver com vaidade. E com política.

Porém, ufa!, o novo aeroporto, finalmente, está pronto. O Blog do Anderson disse que agora é 100% e que ele pode operar em dois meses. Isso é excelente. Uma pena que, ao invés de um viaduto, mais seguro, mais apropriado para fazer a interligação da BR 116 com o acesso ao aeroporto, os governos estadual e federal combinaram fazer uma rotatória, que muitos temem ser perigosa, com risco de provocar acidentes e mortes. A rotatória é resultado, ao mesmo tempo, do atraso e da pressa. A obra demorou demais e virou pauta quase semanal de blogs e de radialistas. O governador Rui Costa cansou de dar prazos, marcar datas. Depois de tanto atraso veio a pressa para inaugurar. Fica estabelecido que aquilo que a cidade não teve por 178 anos precisa ter este ano, daqui a dois meses, impreterivelmente. Não dá para esperar mais quatro meses, tempo de construir o viaduto.

Mas, é isso. Ok. Legal que teremos um novo aeroporto, novinho em folha, operando em maio. Vamos achar uma data para inaugurar e mudar de assunto. Por exemplo: Vitória da Conquista ainda precisa de uma barragem. E muito.

Giorlando Lima
Editor do BLOG


FOTOS: BLOG DO ANDERSON

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