E, finalmente, Conquista vai de Boeing para São Paulo. Quá!, diz D. Edileusa, sonhando com o que ainda falta

Dona Edileusa Pereira Nunes mora na periferia de Vitória da Conquista. Nesta sexta-feira, ela desceu de ônibus para a feira. Tem uma perto da casa dela, mas, por alguma razão, ela entendeu que queria comprar na Ceasa, no centro da cidade. Disse a uma das filhas que queria andar um pouco, passear, ver um povo diferente.

– Tou meia enjoada das mesmas caras todo dia.

Enquanto fazia a feira D. Edileusa ia experimentando biscoitos, jogando punhados de farinha na boca e curtindo a sensação de ver uma gente diferente e, de vez em quando, ver uma conhecida. Como Lindacy, que morava perto dela, é mais nova e trabalha na casa de um casal de médicos moradores do Candeias, no condomínio Morada não sei o quê, Lindacy não soube explicar.

Na hora de irem embora, a amiga de D. Edileusa disse que normalmente os patrões mandam ela pegar um táxi, ou “úbere”, mas que dessa vez não vai dar, porque ela resolveu comprar um pouco mais de avoador e sobraram só três reais, por isso ela iria de van.

– Se passar uma subindo eu vou de van também. Gastei três e oitenta, se sobrar um troco a mais pelo menos eu completo o dinheiro do pão – concordou D. Edileusa.

No meio do caminho, Lindacy falou mais dos patrões e os elogiou muito.

– Eles me tratam bem. Vivem viajando para fora e disseram que um dia me levam com eles. Eu queria ir logo pro estrangeiro, diz que lá é tudo lindo e todo mundo é bom, se não estiver fazendo uma guerra – comentou empolgada. Foi quando D. Edileusa quis saber como é que chega lá.

– E vai de quê? De carro próprio ou ônibus?

– Vai de avião, Edileusa, oxe! – a amiga respondeu e deu uma gargalhada.

D. Edileusa, que mora mais longe, viúva, lavadeira de ganho, pensionista do marido que morreu atropelado por um motorista bêbado, duas meninas para sustentar, só tinha viajado duas vezes, uma para Belo Campo, para passar o São João na casa dos sogros, quando o marido estava vivo, e outra para Feira de Santana, junto com a menina mais velha, que ia fazer um exame, perguntou espantada:

– E tu não tem medo desse bicho cair? – e completou: – Morre todo mundo, mulher!.

Lindacy, desandou a falar como se soubesse quase tudo sobre aviões, porque o filho do patrão mostrou no celular fotos de uns em que ele já tinha viajado e foi explicando como era tudo.

– Pode ser, mas o povo diz que cai mais esses pequenos, teco-teco, que os grandões dificilmente têm acidente – falou procurando, ao mesmo tempo demonstrar conhecimento e acalmar a amiga. – E o menino me mostrou no blog do Anderson que o aeroporto novo já vai funcionar e o povo vai poder ir pra São Paulo em um avião grande que eu não lembro o nome agora, bong, biong…

Um rapaz de óculos que passava perto das duas ouviu a conversa e a ajudou.

– Boeing. Boeing 737-700, cabem 138 passageiros.

– Isso, isso – Lindacy concordou rindo e cheia de esperança.

– Quá! Eu tu acha que o povo vai andar nesse avião mesmo? Vai nada. Primeiro que só cabem 138, o rapaz acabou de dizer, e depois que deve ser cara pra chuchu a passagem daqui pra São Paulo. Se de Novo Horizonte já é o olho da cara, imagina de avião.

– É mesmo. Tomara que meus patrões não desistam de me levar. Para o estrangeiro deve ter desconto.

– Então, esquece esse negócio de Boeing, que não é pra gente. Vamos rezar pro prefeito ajeitar essa confusão das vans e o governo abrir mais emprego pra gente não voltar da feira faltando coisa. Tem tanta coisa que a gente precisa. Esse negócio de Boeing é pra gente rica como teus patrões.

– Vou pegar aquela van ali. Fica com Deus.

– Amém. Beijo nas meninas.


ESTA É UMA PEÇA DE FICÇÃO. EXISTEM PESSOAS COMO DONA EDILEUSA E LINDACY, MAS NÃO FORAM ELAS QUE CONVERSARAM SOBRE O AEROPORTO E O BOEING 737-700, ASSUNTO PREFERIDO DOS BLOGS, DE RUI COSTA, DE OUTROS POLÍTICOS E DOS AGENTES DE VIAGEM. ELAS QUEREM MAIS ESCOLAS DE TEMPO INTEGRAL; SANEAMENTO BÁSICO NO BAIRRO; MÉDICOS E REMÉDIOS NOS POSTOS DE SAÚDE; ÔNIBUS COM PASSAGEM BARATA E, SE POSSÍVEL, NOVOS; EMPREGO E SEGURANÇA PARA ELAS, PARA OS FILHOS E PARA TODOS. TOMARA QUE OS BOEINGS DA GOL TRAGAM.

SEJA BEM-VINDA GOL LINHAS AÉREAS.

Este texto é dedicado, em especial, a Beto Veroneze, Alan Costa, Fábio Sena, Luís Altério, Lucas Spínola, Ricky Mascarenhas, Daniel Thame, Nau Silva, Tiago Franklin, Rosana Guimarães, a Dulcy e aos meus filhos, Giorlando e Alice.

7 Replies to “E, finalmente, Conquista vai de Boeing para São Paulo. Quá!, diz D. Edileusa, sonhando com o que ainda falta”

  1. Que honra! Aquela boa leitura que ainda promove reflexão e narra um contidiano que nem todos prestam atenção. Que contemos mais as histórias da nossa gente. Gratidão pelo texto!

    1. A honra é minha, por sua leitura, por seu comentário e por sua amizade. Desejo toda a alegria na sua vida de pessoa linda. Abraço.

  2. Analítico, investigativo, controverso… Eu ficaria a tarde toda colocando adjetivos no jornalista Giorlando. De vez em quando lendo seus escritos lembro – me do meu grande mestre e amigo Flávio Scaldaferri… Essa matéria é parecida com o que ele fazia em uma coluna Papo firme assinada pelo mesmo no jornal Dimensão!

    1. Grande Júlio! Grande Flávio! Só em ter leitores como você eu considero que vale a pena escrever. Procuro estimular debates, propor reflexões a partir da minha visão dos fatos, dos eventos. Eles é que são controversos. Rs. Abraço. Obrigado por vir aqui. Sou seu fã.

Deixe uma resposta para Adriana Barbosa Cancelar resposta