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Foi um sucesso em Conquista a Mostra Glauber em homenagem aos 80 anos de nascimento do pai do Cinema Novo

Mais de mil pessoas foram ver, na Casa Memorial Régis Pacheco, a Mostra Glauber Rocha 80 anos, que teve seu início no dia 14 de março, data de nascimento do cineasta conquistense, um dos maiores nomes do cinema nacional de toda a história falecido em 1981. Promovida pela Prefeitura de Vitória da Conquista, a exposição ia durar apenas dez dias, durou 17, porque um dos visitantes, o prefeito Herzem Gusmão, foi, viu, gostou do que viu e autorizou a Secretaria de Cultura a prolongar por mais uma semana, até o último domingo, 31. Na mostra, filmes, fotos, música, teatro, comentários e debates sobre a obra intensa e instigante do conquistense que criou o Cinema Novo e se tornou um dos brasileiros mais conhecidos da arte e da cultura no mundo.

O cronista e historiador Afonso Silvestre conta como foi:

O ambiente da Casa Régis Pacheco foi totalmente adaptado, com salas temáticas que exploravam o imaginário e as referências do realizador através de suas obras. O clima era glauberiano, com o empilhamento racionalizado de informações recontextualizadas para evidenciar nossas principais desigualdades. Logo na entrada, o visitante se deparava com uma instalação mostrando em um antigo aparelho de TV o programa Abertura (TV Tupi), de 1979, que tinha Glauber como âncora entrevistando pessoas comuns e celebridades da cultura e da política. O programa foi ao ar na mesma onda do processo de abertura promovido pelo ditador João Batista Figueiredo (1918-1999), e o cineasta, ao seu modo (estabanado, com gestos bruscos e expressivos) provocava as pessoas a falarem sobre as realidades brasileiras da época.

Algumas soluções curiosas foram encontradas para a exposição. Para a exibição de Di, documentário sobre a morte do pintor Di Cavalcanti, amigo de Glauber, por exemplo. Para fazer o doc o cineasta invadiu o velório do pintor com equipe e equipamentos, filmando o ambiente e o morto. Esta atitude causou constrangimento e revolta na família, que proibiu a exibição pública do filme, no caso mais longo de censura da história do nosso cinema. Sendo assim, a mostra solucionou esta limitação com uma instalação, “A Morte Como Fé e Não Como Temor”, onde, numa sala escura, vê-se um caixão. À medida que se aproxima, nota-se que o áudio do filme sai de dentro do caixão.

As instalações mostraram, com bastante originalidade, o universo do imaginário glauberiano. Passeando pela casa, encontravam-se aparelhos de televisão, objetos de culto religioso tradicional, textos e referências sobre a obra e o pensamento do diretor. Podia-se, por um aparelho antigo de telefone, interagir com o ditador Porfirio Diaz, deposto no filme Terra em Transe e que reaparece no filme Cabeças Cortadas, paranoico ao telefone com medo de que lhe cortem a cabeça. Na mesma sala, havia uma televisão com um espelho em frente, reproduzindo trecho de Terra em Transe, e mostrando quem é que representa o povo e onde há políticos desqualificando o valor do povo e seus direitos. Quando o espectador se posicionava de frente da TV ele se via na imagem, como um reflexo do próprio povo.

Num dos caminhos do labirinto concebido para a exposição, deparava-se com uma projeção do filme Vento Leste, de Jean-Luc Godard, um trecho que tem participação de Glauber posicionado numa encruzilhada indicando os caminhos para o cinema. Um dos caminhos é o caminho do cinema latino americano, um cinema revolucionário, “um cinema perigoso, divino e maravilhoso”. Na “sala caótica”, uma tv exibia A Idade da Terra em meio a um caos de elementos empilhados representando as referências da Tropicália e com críticas sobre alguns comportamentos submissos. Neste ambiente, também se encontravam declarações feministas de Glauber, entre elas a frase “a violência é um resíduo apocalíptico do machismo”.

Na Casa Régis, a obra como um todo seguia o mesmo princípio de provocar o espectador para a reflexão sobre nossa atual condição, como fazia o realizador em seus filmes, escritos e outras manifestações. Glauber não era apenas um cineasta, mas um dos principais críticos das nossas origens, um crítico e intérprete do mito fundador do Brasil. Embora com uma visível preocupação didática em sua obra, ele não foi compreendido no seu tempo justamente por conta da sua densidade e profunda erudição, tendo encontrado um elo entre a cultura refinada e a cultura popular, ambas desveladas em seus filmes e colocadas como referências importantes da nossa própria identidade.

FOTOS:


COM TEXTO ORIGINAL DE AFONSO SILVESTRE E FOTOS DE PURKI E AFONSO SILVESTRE/SECTEL/PMVC

 

 

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Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 56 anos de idade, 40 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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