Começa o debate | Herzistas apostam na força do asfalto para a reeleição do prefeito de Conquista. Pode dar certo?

Não se passou nem um dia após o anúncio do resultado da eleição de 2016, quando Herzem Gusmão (MDB) venceu José Raimundo (PT) no segundo turno, com uma frente de exatos 25.197 votos*, e uma das explicações para a derrota, ao lado do desgaste do partido, foi a de que o prefeito Guilherme Menezes não trabalhou o suficiente naquele ano e no ano anterior. A teoria da conspiração chegou ao ponto de afirmar que o ex-prefeito teria feito “corpo mole” para não ajudar José Raimundo, que, prudente, não deu espaço à tese. Guilherme sequer respondeu.

O fato é que em 2015 e 2016 havia dezenas de obras em andamento. De construção de creches e reformas de escolas, ao Corredor Perimetral. E muito dinheiro na Caixa Econômica Federal para pavimentação de ruas. Em 2015, foram inauguradas obras importantes, como a reforma do Estádio Edivaldo Flores, com iluminação e grama sintética, entre outras melhorias; o Centro Integrado da Criança e do Adolescente; uma grande reforma na Escola Maria Célia Ferraz, no Bairro Ibirapuera; a unidade de saúde do Morada dos Pássaros; entre outros equipamentos. Também houve pavimentação de ruas, mas nada de grande impacto. O trabalho mais significativo foi o começo do asfaltamento do bairro Vila América, incluindo 107 (pequenas) vias locais.

Em 2016, o registro de obras foi reduzido. A prefeitura entregou o Centro de Artes e Esportes Unificados (Ceus), que ficou conhecido como Praça Ceus; deu seguimento à pavimentação no Vila América, embora em ritmo lento, e à construção de creches e reformas em escolas e unidades de saúde. Mas, as inaugurações escassearam. Tinha dinheiro, tinha projeto, mas, o tempo ficou pequeno. Uma usina de asfalto com capacidade para produzir 80 toneladas de asfalto por hora, que havia sido adquirida, chegou atrasada.

Primeiro, compraram uma usina errada, pequena (já tinha uma com capacidade para 20 toneladas por hora) e tiveram que cancelar a compra e fazer nova licitação. Depois, ao receberem o equipamento, descobriram que era necessário fazer uma base que não existia, adquirir um novo transformador de energia, testar o equipamento e então começar a usar, o que só foi acontecer em novembro, a pouco mais de um mês do fim do governo e depois da eleição vencida por Herzem. Ou seja, o asfalto, que é tido como o eleitor de última hora, não veio como se esperava. Nem mesmo os corredores de ônibus foram contemplados. Ficou tudo para o novo governo.


Nesta terça-feira (23), a prefeitura divulgou uma matéria com o título “Prefeitura inicia banho de asfalto no Bairro Miro Cairo”, acompanhada de uma imagem área mostrando quatro ruas cobertas pelo asfalto. Uma foto bonita, que dá uma dimensão grandiosa da obra. São três quarteirões pavimentados. Um seguidor do prefeito enviou mensagem ao BLOG, via WhatsApp, com o link para o site da prefeitura, dizendo: “Herzem começou a pavimentar o caminho da reeleição”. Como ele, outras pessoas, alguns blogueiros, jornalistas e radialistas, inclusive, acreditam que o prefeito, que vem de dois anos de avaliação negativa nas pesquisas de opinião pública, pode começar a reverter a situação ruim, provocada, em grande parte, por posturas pessoais dele, acostumado a comprar ou a começar brigas políticas, como fez a vida toda como radialista, e à ausência de uma comunicação mais efetiva.

Pode ser. Dá para ver que Herzem não está em silêncio, mas diminuiu muito a sua presença em rádios, parou de dar respostas diretas (e irritadas) à imprensa e adversários e passou a se mostrar mais próximo de obras. As fotos dele de capacete, olhando plantas de engenharia, acompanhado de secretários, começam a aparecer com mais frequência. Herzem acredita que seu governo vai entrar para a história de modo diferente do que pensa a oposição. Não será como um governo ruim, diz. Tem certeza que entrará para a história de Conquista, como prefeito, pela porta da frente.

Diz que sua meta é preparar Vitória da Conquista para o futuro, para o momento que completar 200 anos de emancipação, visando em 2040. Colocou quase sete milhões de reais nas mãos da Fundação Politécnica, da Fundação Fipe e da Dom Cabral, para planos diversos, alguns porque o prazo se encerra no fim deste ano e não podiam mais esperar, outros por critérios próprios. Seria a modernização da gestão. Mas, ele aposta, sim, em asfalto. Em urbanização. Fala em Jaime Lerner quase todo dia. É o sonho de consumo do prefeito: ter um projeto com a assinatura do ex-prefeito de Curitiba, um dos nomes mais destacados da arquitetura urbana do mundo. Mas, Lerner nem pisou os pés aqui ainda.

Os planos de Herzem começam com a demolição do viaduto chamado de Bigode de Pedral, na Avenida Régis Pacheco, até um parque público, com revitalização do Rio Verruga e uma opção de lazer com foco na preservação do Meio Ambiente. Por este projeto ele pode conseguir muito. Até mesmo a reeleição. A questão é tempo. Ainda falta muita burocracia para que a obra comece. É praticamente impossível que Herzem entregue o parque da cidade antes da eleição de 2020, marcada para 4 de outubro. Como é pouco provável que ele consiga começar a fazer o centro administrativo na área do atual aeroporto, que será desativado, ou que possa construir os piscinões da Serra do Periperi que já anunciou. Ou até mesmo a implantação do Parque Turístico-Religioso no Cristo, como já falou.

Resta o asfalto.

De forma propositadamente equivocada, Herzem e a Secretaria de Comunicação divulgaram que a prefeitura tem R$ 107 milhões para obras este ano. Eles sabem que não têm e se têm não é para este ano. Não dá tempo, como não deu para Guilherme. Mas, a prefeitura ainda tem mais de 60% dos recursos que estavam na Caixa Econômica Federal quando Herzem assumiu. E tem também R$ 38,5 milhões do empréstimo do Finisa (descontando os R$ 6,5 milhões de investimento no aterro, que já está sendo ampliado). Esse dinheiro está destinado ao parque ambiental, à pavimentação de todo Loteamento Conveima 1, de vilas e povoados da zona rural e de vias da cidade.

Para atender a essa demanda por asfalto e urbanização, a Emurc já contratou cinco empreiteiras, num total de R$ 13.554.281,00 para obras diversas, todas relacionadas a pavimentação na cidade e nos distritos.

Fora essas obras, Herzem ainda conta com a reforma da Avenida Olívia Flores, que segue devagar, mas já dá para começar a perceber que vai ficar um trabalho bonito, também recursos e projeto deixados pela administração anterior (o que não tira o mérito da execução pela administração atual); a sequência do Corredor Perimetral (esta sim, uma obra que caminha muito lenta, quando anda) e o Terminal de Ônibus da Lauro de Freitas, que tem projeto, tem dinheiro e tem urgência. Se a prefeitura conseguir realizar todas entre agora e o início do segundo semestre do ano que vem, parte da sombra que se abate sobre as projeções eleitorais do prefeito pode se dissipar.

Afinal, se se pode atribuir parte da derrota de José Raimundo, em 2016, ao fato de que não foram executadas essas obras todas – que Herzem vem fazendo com o dinheiro que Guilherme já tinha para fazê-las naquele ano -, então se pode dizer que o contrário também pode ser verdade: se Herzem fizer tudo pode passar a ser favorito na disputa. Isso se ele voltar a cair nas graças do povo. Porque, o que não faltam são casos de governos bem avaliados e gestores nem tanto, a ponto de perderem eleições. A conta no final, se debita ao jeito de ser do candidato. O jeito de ser de Herzem, ouve-se por aí, não tem contribuído com os planos políticos dele e de seu grupo. Mas, até isso muda.

* Nas eleições de 2016 Herzem Gusmão teve 78.455 votos (47,82%), José Raimundo 51.989 (31,69%) e os outros cinco candidatos ficaram com 33.625 (20,49%). Os 1.975 votos dados a Roberto Dias (PDT) não foram incluídos porque ele teve a candidatura cancelada pelo TSE. No segundo turno, Herzem cresceu 22% e foi para 95.710 votos e José Raimundo obteve 70.513 (35,6% mais).

 


 


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