IBOPE | Comparação com eleição indica que avaliação sobre abandono de Bolsonaro pelo eleitor pode estar errada

Entre as várias reações recebidas pelo BLOG após a publicação da pesquisa do Ibope com a avaliação do governo Jair Bolsonaro (PSL), nesta quarta-feira (24) algumas chamaram a atenção. Por WhatsApp, um leitor se assustou: “Nossa! Infelizmente isso demonstra o grau de ignorância cultural e espiritual instalado no país!”. Outro comentou sobre a avaliação por área: “Na maioria ele é desaprovado e isso confirma que está perdendo seguidores, o pessoal está com vergonha”.

Os comentários nos levaram a fazer uma comparação entre os percentuais da pesquisa do Ibope divulgada hoje e os números da eleição. E a constatação difere do que se vê nas postagens dos adversários de Bolsonaro nas redes sociais, onde circulam textos e memes afirmando que os eleitores dele estão desistindo de segui-lo, que se envergonharam de terem votado nele. Duas reações dão força a essa ideia.

O diretor José Padilha, de Tropa de Elite 1 e 2 e da série O Mecanismo, afirmou que errou ao apoiar Sérgio Moro, ministro da Justiça do atual governo, e sua atuação na Lava Jato. Ao mirar em Moro, Padilha acertou em Bolsonaro, em um trecho de seu artigo da Folha de São Paulo: “Sérgio Moro finge não saber o que é milícia porque perdeu sua independência e hoje trabalha para a família Bolsonaro”.

E o cantor Dinho Outro Preto, da banda Capital Inicial, foi na mesma toada de decepção com o novo posicionamento de Moro. Para os influenciadores da oposição a Bolsonaro, as duas falas foram entendidas como sendo contestação ao presidente e representariam uma tendência entre os eleitores dele.

Mas, além de Dinho e Padilha, quantos dos eleitores de Bolsonaro, fãs de Sérgio Moro, estão decepcionados a ponto de deixar de confiar no presidente? De acordo com a pesquisa, poucos, bem poucos.

Presumimos que a esquerda e os adversários do projeto bolsonarista de governo e poder acompanham essa mobilidade e têm elementos para melhor avaliação.

Vamos à comparação com base nos números da eleição e no percentuais da pesquisa do Ibope.

No primeiro turno, Jair Bolsonaro teve 49.276.990 votos (46,3% do votos válidos e 41,98% dos votos totais). Dizendo com simplicidade, estes eram os votos dele, os votos que teria se a eleição fosse apenas de um turno. Chamemos quem votou nele, então, de “eleitores puros” de Bolsonaro.

No segundo turno, o  candidato do PSL se tornaria presidente com 57.797.847 votos (53,13% dos votos válidos e 49,85% dos votos totais). Os eleitores puros ganharam a companhia de eleitores pragmáticos, que não queriam votar em Fernando Haddad e migraram de seus apoios naturais para a opção que viam como “aquele que nos salvará do PT”. Chamam a isso de voto útil, com os quais Bolsonaro cresceu cerca de 15% ou 6,83 pontos percentuais, mais ou menos o que tiveram os outros candidatos da direita no primeiro turno.

Os eleitores que votaram em Bolsonaro no segundo turno não eram puros, daqueles que se mostraram dispostos a tudo na eleição. Para 8.520.857 eleitores o capitão era a opção possível, daí permitir acreditar que em algum momento eles cobrariam do seu governo com mais ênfase que os puros, ou, pelo menos, não iriam concordar facilmente com tudo. Podia-se esperar deles mais desconfiança. Mas, a pesquisa confirma isso? Vejamos.

MAIORIA CONFIA

Segundo o Ibope 51% aprovam a maneira de governar do presidente e 40% desaprovam. A aprovação é superior aos votos que Bolsonaro teve no primeiro turno, os puros, e 40% menos que os votos dados aos candidatos de esquerda. Comparando com o segundo turno, é aceitável afirmar que os percentuais se equivalem, na margem de erro.

O mesmo percentual que aprova o jeito Bolsonaro de governar aprova o jeito dele ser. São 51% dos brasileiros acima de 16 anos que dizem confiar no presidente. Os que não confiam são 45%. Colocando lado a lado com os números da eleição, a situação equivale à anterior, quer se leve em conta apenas os “eleitores puros” como os agregados que chegaram no segundo turno.

Veja-se, ainda, a questão “Perspectivas com relação ao restante do governo”. Para 45% será bom ou ótimo, 23% acham que será ruim ou péssimo e 25% esperam que prossiga regular. Atenção! O PT teve 29,28% no primeiro turno. Chamemos, como no caso dos eleitores de Bolsonaro naquela etapa da eleição, de “eleitores puros do PT”, afinal, no campo do centro para a esquerda havia outros cinco nomes, mas Haddad foi quem capitalizou a confiança da maioria dos eleitores não conservadores. No segundo turno, foram 44,87% para o candidato do PT, com os agregados que resistiram ao discurso de Bolsonaro. Considerando os percentuais do primeiro e segundo turnos, a pesquisa do Ibope possibilita dizer que nem mesmo o eleitor petista espera um governo ruim de Bolsonaro.

REGULAR OU MAIS OU MENOS

Mas, também está autorizado perguntar: e esse regular aí, significa o quê? Que o eleitor não considera o governo nem bom e nem ruim. Mas, não o considera um nada. Diríamos que é a zona da expectativa. De quem ainda espera. Ou, a depender do histórico de pesquisas, a evolução de uma para outra, pode ser entendido como o sinal de que a gestão avança ou está caindo. Mas, não é desaprovação ou aprovação, embora esteja mais perto disso, já que é possível dizer que quem desaprova, não gosta ou rejeita deixa isso muito claro.

Na avaliação do governo, considerando as respostas bom, ótimo, ruim, péssimo e regular, Bolsonaro teve, na pesquisa divulgada nesta quarta-feira, 35% de aprovação direta (ótimo/bom), 27% de desaprovação direta (ruim/péssimo) e 31% de regular. (O instituto não divulgou o percentual separado por tipo de resposta, apenas de forma agregada, somando bom e ótimo e ruim e péssimo).

QUEDA DE POPULARIDADE É EVIDENTE

Na primeira pesquisa de avaliação, em janeiro, o Ibope encontrou 49% dos eleitores que diziam ser o governo bom ou ótimo; achavam-no regular 26% e somente 11% ruim ou péssimo. Desde então, houve uma queda de 14 pontos percentuais na aprovação e um crescimento de 16 pontos percentuais na desaprovação. O regular saiu de 26% para 31%, aumento de 5 pontos percentuais. É clara a queda de popularidade do presidente, que tem a mais baixa aprovação no início entre os governos eleitos depois da ditadura.

Entretanto, porque a política sempre dá espaço para uma conjunção adversativa (ou um “se”, como conjunção subordinativa condicional), a pesquisa dá elementos para afirmar que o eleitor de Bolsonaro ainda não o abandonou. Se (olha ele aí) o regular for dividido, em um exercício especulativo, meio a meio, os percentuais da avaliação do governo (bom/ótimo ou ruim/péssimo) vão a 50,5% e se aproximam (quase exatamente) dos percentuais da aprovação da maneira de Bolsonaro governar, do nível de confiança que o eleitor tem nele (51%) ou mesmo da expectativa de melhora da gestão (45%).

Isso desmente em grande medida a ideia de que o eleitor de Bolsonaro está arrependido. Pode até ficar, mas ainda não está.

VOTAÇÃO DE BOLSONARO NO 1º TURNO (TSE) 46,3%
VOTAÇÃO DE BOLSONARO NO 2º TURNO (TSE) 53,13%
CONFIANÇA NO PRESIDENTE (IBOPE, ABRIL 2019) 51,00%
APROVAÇÃO DA MANEIRA DE GOVERNAR (IBOPE, ABRIL DE 2019) 51,00%
EXPECTATIVA DE QUE VAI MELHORAR (IBOPE, ABRIL DE 2019) 45,00%
AVALIAÇÃO DO GOVERNO/BOM + ÓTIMO (IBOPE, ABRIL DE 2019) 35,00%
AVALIAÇÃO MAIS METADE DO REGULAR* 50,50%

FONTES: IBOPE, PESQUISA REALIZADA ENTRE OS DIAS 12 E 15 DE ABRIL, OUVINDO 2 MIL PESSOAS, EM 126 MUNICÍPIOS. MARGEM DE ERRO: DOIS PONTOS PERCENTUAIS PARA MAIS OU PARA MENOS; TSE: http://divulga.tse.jus.br/oficial/index.html

FOTO: Alan Santos (Palácio do Planalto – Divulgação)

* ABSOLUTAMENTE HIPOTÉTICA A SOMA DAS AVALIAÇÕES BOM E ÓTIMO COM REGULAR.
APENAS PARA EFEITO DE ANÁLISE DO QUE PODERIA EXPLICAR A APROVAÇÃO, A CONFIANÇA E A EXPECTATIVA E, AINDA, SE O ELEITOR BOLSONARISTA O ESTÁ DEIXANDO OU MANTÉM A LIGAÇÃO.


Author: Giorlando Lima

Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 58 anos de idade, 42 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

3 thoughts on “IBOPE | Comparação com eleição indica que avaliação sobre abandono de Bolsonaro pelo eleitor pode estar errada

  1. Quem está contra ou desaprova são os eleitores do PT. Votamos num projeto conservador e está em fase de implantação. O gargalo está sendo a votação da reforma da previdência, que sem dúvida alavancara a economia, muita coisa ja foi feita. Agora querer consertar o estrago de 30 anos em 100 dias é impossível.

  2. Concordo com as conclusões do Blog do Giorlando. Entendo que há uma queda real no índice de popularidade do presidente, mas não tão acentuada como se avalia nas áreas democráticas. Não é fácil o eleitor eleitor reconhecer que errou o seu voto. É próprio da natureza humana. O próprio PT não consegue admitir que errou nas alianças.
    Creio que o projeto direitista que comanda o governo federal não conseguirá resolver, sequer parcialmente, os principais problemas do país. Inclusive, porque adota modelos e concepções errôneas sobre a forma e o conteúdo do processo de globalização existente no mundo.
    Gostaria de saber qual o elemento teórico que define a reforma da previdência como o principal instrumento da recuperação econômica. Não há. Sabemos que administrar o deficit público diminuindo gastos com a previdência e programas sociais alivia a caixa do tesouro, mas, não é, por si só, capaz de gerar poupança e capacidade de investimento. Ao contrário, teremos agravamento das péssimas condições sociais e da qualidade de vida da população trabalhadora e pobre. Se miséria e pobreza gerassem riqueza Uganda seria a Noruega.
    Ainda estamos esperando o aumento do emprego e melhores condições de trabalho que foram os benefícios propagandeados durante a aprovação da reforma trabalhista, deu tudo ao contrário. Agravou a recessão econômica e o desemprego explodiu. A reforma previdenciária, se aprovada como a proposta em discussão, provocará efeitos ainda mais perversos aos trabalhadores e ao povo. Veremos até quanto o presidente ainda gozará de algum prestígio.

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