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Política

Humor, política e realidade juntas na transmissão de cargo de governador em exercício

As relações dos vices com os titulares na política brasileira são marcadas por desenlaces infelizes, algumas vezes, outras por juras de amor eterno, confirmadas, para sorte de todo mundo. Na política recente da Bahia a história não tem sido de atropelamentos. O vice escolhido por Jaques Wagner, primeiro governador do PT, em 2006, foi um emedebista histórico, amigo de Geddel Vieira Lima, o ex-prefeito de Brumado, Edmundo Pereira. Os quatro anos da administração (2007-2010) tiveram altos e baixos na relação de Wagner com o partido de Edmundo, ou, mais objetivamente, com Geddel, que era o controlador da legenda e avalista da presença do vice no governo. Geddel e Wagner acabaram brigando – e feio. PT e MDB romperam na Bahia. Mas Edmundo entrou para o PT.

Foto Manu Dias/Secom/GovBa

No governo seguinte, Jaques Wagner teve na lealdade de seu vice, Otto Alencar um trunfo para fechar os dois mandatos em paz e poder eleger Rui Costa seu sucessor, tendo a postura de Otto lhe dado a devida tranquilidade para fazer o processo andar favoravelmente. Otto se tornaria senador com apoio de Wagner e Rui, em 2014, quando o atual governador se elegeu pela primeira vez, tendo como vice o controlador do PP no estado, João Leão.

Não haveria vice melhor, já deve ter dito Rui Costa mais de uma vez. João é mais do que leal, é agradável, bem-humorado e articulador. Todo mundo, para ele, é bonito. E assim, vai fazendo história e, dizem, se preparando para um dia ocupar o Palácio de Ondina.

Enquanto esse dia não chega, João Leão vai vivendo em etapas provisórias a experiência da governadoria, tendo assumido várias vezes o exercício do governo em viagens internacionais do governador Rui Costa. Esta semana mesmo, Leão estava lá. Rui faz um périplo que vai dos Estados Unidos à China, passando pela Europa, em busca de investimentos para o estado. Mas, Leão também vai fazer uma viagem. Irá a Londres, onde, segundo a assessoria, se encontrará com plantadores de uva e produtores de vinho com interesses na Bahia. O vice-governador embarca estará fora do Brasil no domigo (12) e o presidente da Assembleia Legislativa da Bahia (Alba), Nelson Leal, não leão, assume até o dia 17, quando Rui Costa retorna,

E assim, chegamos ao motivo deste artigo, para narrar um momento em que se misturam humor (ou graça), política e realidade. Para começar, registramos um trecho do discurso do vice-governador, destacado em release enviado pela assessoria do presidente da Assembleia Legislativa.

De acordo com a nota, “o governador em exercício [João Leão] destacou a confiança de que a Bahia será governada pelos próximos seis dias por um político afinado com o governo, conhecedor das necessidades do Estado e sensível aos anseios dos baianos. ‘Estamos trazendo Nelson Leal para a equipe, consciente de sua capacidade de fazer a gestão da máquina pública com competência. Leal é um político jovem e trabalhador, mas bastante experiente e conhecedor do estado’”. Damos ênfase à frase “estamos trazendo Nelson Leal para a equipe”. Para usar uma interjeição bem jovial, a cara da internet: “Oi?”. Como assim, trazendo Nelson Leal para a equipe? Estando o governador fora do país e partindo em viagem semelhante o vice haveria outro para o lugar?

Isso é, ao mesmo tempo, humor, mesmo que não proposital; política, porque mesmo sabendo que é um processo impositivo (a não ser que o vice resolvesse ficar), Leão quis dar um upgrade político na regra, “levando” Leal para a equipe; e realidade, porque tendo ganhado a presidência da Assembleia por articulação e interesse do governador, Leal fica devendo mais essa, pois, afinal, Leão poderia optar por ficar, só para não dar ao presidente da Alba o gostinho de ser governador.

No discurso de Nelson Leal, uma empolgação que deve ser atribuída à emoção – legítima – de estar assumindo o cargo mais importante do estado da Bahia por uma semana: “Vou trabalhar pelos baianos à frente do Executivo Estadual, com o mesmo afinco com que faço na Assembleia Legislativa. E como fiz nos outros cinco mandatos de deputado que a Bahia me confiou”. O ponto aqui é a afirmação de que vai trabalhar como faz na Alba e fez nos mandatos de deputado. Não vai. Mas, na verdade, vai apenas assinar papéis rotineiros; despachar com secretários pela praxe do cargo e pelo andamento da gestão; fazer reuniões eventuais e fotos com visitantes e manter a legalidade, porque não pode o estado ficar sem governador.

Por fim, disse Nelson Leal: “Buscarei seguir no mesmo trilho dessa gestão, que é modelo para o Brasil. O governo que mais cumpriu compromissos assumidos em campanha”. Esta promessa, sim, tem muito valor. Em seis dias um governador em exercício pode fazer coisas impactantes, mais no sentido de estragar a vida e a gestão do titular. É bom manter-se no mesmo trilho. Nem sempre foi assim. E nem estou falando de Michel Temer.

VICE AMEAÇA?

Vou citar outros três exemplos. Um do Maranhão, ocorrido há 15 anos, outro da terra de Nelson, Livramento de Nossa Senhora, em 2011, e o terceiro, recentíssimo, de Ilheus, também na Bahia.

Era 2004 e o governador do Maranhão era José Reinaldo Tavares, ex-vice de Roseana e ex-ministro no governo quando José Sarney era presidente da República, naquele momento ex-amigo do clã. Reinaldo estava de viagem marcada para o exterior, ia a Paris. O vice dele, Jura Filho, assumiria. Fui chamado por Ricardo Murad (cunhado de Roseana e ex-todo poderoso gerente metropolitano, uma espécie de prefeito indicado pelo governador para uma atuação paralela à da prefeitura) para ir à casa do senador João Alberto, um dos baluartes do saneysismo, líder na região de Bacabal. Queriam minha colaboração para preparar o discurso de Jura, depois que assumisse o governo. E ele ia mudar tudo. Mexer com salário de servidor (para cima), exonerar secretário, abrir e fechas órgãos, uma revolução para uma semana.

Seria a vingança contra José Reinaldo, que desfizera a relação com Roseana, brigara com o cunhado dela, Ricardo Murad e, por conseguinte, rompeu com Sarney. Lembro que as medidas castigariam politicamente Reinaldo se ele resolvesse desfazê-las quando voltasse porque, em um certo sentido, eram muito boas para o Maranhão e para os servidores e melhor ainda para o sarneysismo. Mas, José Reinaldo não viajou, Jura não assumiu. Ficou a lição, no entanto.

Em Livramento, o episódio envolveu o ex-prefeito Carlos Roberto Souto que, à época, estava inimigo de Emerson Leal, conhecido também como Priquitão, pai do hoje presidente Assembleia. Carlão, como é chamado e muito querido, teve um infarto. Precisou ficar em tratamento em Salvador e como o prazo ultrapassava o permitido pela Lei Orgânica Municipal para fazê-lo sem passar o cargo, ele o transmitiu ao vice, Paulo Azevedo, com desconfiança, mas sem ter como evitar. Quando entregou o bastão, temporariamente, Carlão também deixou obras em fase final e luminárias e lâmpadas novas a instalar para melhorar a iluminação da cidade. Pois, o Doutor Paulo, porque no interior o primeiro nome de médico na política é sempre doutor, saiu entregando obra, iluminando rua, fazendo discurso, ganhando tônus eleitoral. O negócio chegou a tal ponto ameaçador, politicamente, que consta que Carlão, ou Doutor Carlos, porque ele é médico também, deixou o hospital antes do tempo, com os cuidados possíveis para a viagem e para continuar convalescendo em casa (ou na gabinete).

Mas, se não teve sequela com o problema do coração, o simpático – e competente – Doutor Carlos, teve sequelas político-eleitorais doloridas. Em 2012 o seu candidato a prefeito perdeu a eleição justamente para o Doutor Paulo, que foi apoiado por Emerson Leal. Em 2016, Ricardo Ribeiro, que não é doutor, ficou contra Carlão, foi apoiado pelo prefeito, que o derrotada anteriormente. Carlão e Emerson se juntaram. Perderam. O episódio do vice ainda não cicatrizou direito.

Por último, que não sirva de exemplo para o presidente da Alba e futuro governador da Bahia a partir deste domingo, o caso foi esta semana em Ilhéus, com o vice-prefeito, o fotógrafo, comunicador e muito sério, José Nazal, que não teve o cargo transmitido pelo titular, Mário Alexandre (PSD), que viajou, como Rui e Leão fizeram e José Reinaldo faria, ao exterior. Nazal, como é legal, legítimo e direito, assumiu e, logo que pôde, exonerou o secretário da Administração, Bento Lima, e reintegrou 268 servidores municipais que haviam sido demitidos pelo prefeito. Marão, como é conhecido, está nos Estados Unidos desde o dia 7. Voltaria no dia 14, resolveu antecipar o retorno para este domingo 11.

Em tempo, com a reintegração dos servidores, Nazal quis dar fim a uma pendência judicial que vem infligindo multas diárias ao Município.

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