Homenagem | Ilza Matos, uma mulher com história na política (e na vida) de Vitória da Conquista


O ex-vereador Ubirajara Mota, que atuou na política conquistense por muitos anos e hoje mora em Brasília, postou em seu perfil do Fabebook uma bela crônica sobre Ilza Matos, que foi sua colega da Câmara de Vereadores e faleceu na quinta-feira (23). O texto de Bira fala de uma mulher inteligente, corajosa, bonita e muito impressionante. E vai além, ao discorrer sobre aspectos políticos e familiares de Nova Canaã, município a 106 quilômetros de Vitória da Conquista e com fortes ligações com a cidade.

Vale a pena ler. Tem história, humor, sabedoria. De Ilza, de Reubi, de Jadiel, de Bolodoro. E de Bira, claro.

Ubirajara Mota

Tive a honra de compor a Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista junto com Ilza Matos, na legislatura de 1983 a 1988. Aquele mandato teve seis anos. Não sei por que.

Foi vereadora pela primeira vez na eleição de 1972, quando foi eleito o extraordinário prefeito Jadiel Matos.

Ilza foi a primeira mulher a assumir a presidência da Câmara de Vereadores de Conquista.

Muito bonita, sempre elegantíssima, era paparicada pelos 14 vereadores do sexo masculino.

Além de ser a única mulher na Câmara, era educadíssima, culta, bem informada, acompanhava tudo de relevante que acontecia em Conquista, na Bahia, no Brasil, na Terra, no Universo.

Quando ela pedia a palavra, no plenário ou nas reuniões das comissões, todos os marmanjos se calavam e muitos pediam pra aparteá-la, porque era uma honra tentar botar uma pitada de “qualquer coisa”, insignificante que fosse, nos discursos de Ilza.

Posse do prefeito Jadiel Matos (no centro) e dos vereadores, em 1973. Ilza é a que está à esquerda de Jadiel. Na foto estão da esquerda para a direita: Hélio Silveira Dias, José Goes, Elquisson Soares, Naason Carvalho, Alvinéia Matos (esposa de Jadiel Matos), Onildo Carvalho, Valmir Silva e Ney Ferreira. (Foto: Perfil de Reuber Matos, filho de Ilza)

Fomos eleitos pelo velho e histórico MDB pela sublegenda capitaneada por Sebastião Castro, que teve como concorrente José Pedral, eleito prefeito naquele ano de 1982 (após amargar um afastamento da vida política desde 1964, imposto pela ditadura militar, cassado que fora em 1964).

Só havia 2 partidos, MDB e Arena: e a ditadura permitia as sublegendas.

As reuniões da cúpula (e adjacências) da sublegenda do MDB eram, via de regra, na casa de Ilza e Reubi, que fazia as honras da casa, distribuindo café, cerveja, salgados, quitutes, salamaleques e gentileza à beça.

Eu e Sônia éramos representantes das “adjacências”, pois até os paralepípedos do bairro Alto Maron sabiam que éramos “comunistas” abrigados no guarda-chuva do MDB.

Aqui, um parêntese, já que citei Reubi: um gentleman, um cavalheiro na acepção da palavra. Ilza expressava suas opiniões solene e elegantemente e Reubi fazia tudo (e mais alguma coisa) para deixá-la feliz.

Sou obrigado a fazer outro parêntese. Reubi é da família Matos, de Nova Canaã e Conquista. Digo sem receio: a família Matos de Nova Canaã e Conquista é o único grupo familiar que traiu a origem. Fazendeiros, bem aquinhoados economicamente, foram os principais expoentes da família, revolucionários.

Seo Love (fundador de Nova Canaã), Jadiel Matos (os caatingueiros de Conquista pronunciam Jadiellll ao invés de Jadiéu), Jesiel (odontólogo e vereador em Conquista – que Cara!), Jesimiel (pastor, fundador do Gimnasio Florestal e primeiro prefeito de Canecos), Jovan (fazendeiro, prefeito de Canecos, gente boa, aceitou fazer as pazes com Benvindo Mota, meu pai, reconciliação (hã?) promovida por Bolodoro e Zilton), João Norberto (meu professor de francês no Gimnasio Florestal).

Nenhuma mulher na lista. Mas eles se casaram com mulheres arretadas: Marlu, Abigail, Elita… E tiveram filhas do balacobaco: exemplo: Elaine…

O prefeito mais revolucionário da história longa de Conquista foi Jadiel:

– Botou Ruy Medeiros, um comunista, como procurador da prefeitura;

– Escolheu Ferreira como Secretário de Desenvolvimento Econômico, que levou a cafeicultura para a região do Planalto de Conquista e convenceu os caatingueiros a derrubarem as cercas para os caprinos comerem comunitariamente, além de introduzir o capim brachiaria, algo sem tamanho;

– Botou o maluco beleza Bolodoro (Fernando Eleodoro de Santana) na Secretaria de Educação, que levou o não menos desmiolado Guilherme Menezes para professor na Cachoeira das Araras, estatizou um colégio particular e o transformou em modelo sob a batuta de Núbia, Mercia, Maria Cândida (Candoca) e Maria do Rosário (Maroca), introduziu óleo vegetal e bacalhau na merenda escolar, mudou o calendário escolar na caatinga, para as crianças trabalharem nas roças sem faltar às aulas, trouxe para a sede, nos fins de semana, os professores da zona rural para se capacitarem e concluir o supletivo de 1º grau… E aí por diante…

Ilza não era de esquerda, mas era contra a ditadura até a medula. Não convocava greves, passeatas, mas apoiava decididamente todas as arruaças contra o regime militar e pela diminuição da desigualdade social.

Que o diga o também vereador, na mesma legislatura, Pedro Alexandre, o Massinha, o maior agitador cultural e esportivo da longa história de Vitória da Conquista até os dias de hoje. Quando eu e Massinha – os dois vereadores balburdeiros – propusemos fechar o tráfego na rodovia Rio-Bahia (que divide Conquista ao meio) para exigirmos quebra-molas da Serra do Peri-Peri até a rodoviária, Ilza foi a primeira a apoiar.

Ilza contava histórias como poucos. Algumas:

“Nei Ferreira. Vereador colega dela, representante do Distrito de Bate Pé, em discurso para a eleição em que Jadiel (Jadiellll) foi eleito prefeito:

– Médico bom é Jadielll! Minha mulher ficou doente e Jadiel curou ela! Ficou ali, em cima dela, 15 dias!… Até ela ficar boa!…”

“Orlando Leite. Advogado. Um dos maiores intelectuais de Conquista na época. Leitor voraz e avaliador de textos.

Dona Edite leva o manuscrito de um livro pra Orlando Leite fazer uma leitura crítica. Uma semana depois, ela foi buscar o veredicto do doutor Orlando Leite:

– Dona Edite. Escreva, mas não edite.”

Não conheci os filhos de Ilza e Reubi. Porém – como diria Fred, morador em situação de rua do Sudoeste, Brasília:

– “Só gente boa!”

Garanto.


FOTO DESTAQUE: ILZA DISCURSA COMO PRESIDENTE DA CÂMARA  DE VEREADORES (ARQUIVO FAMILIAR. PERFIL DE REUBER MATOS NO FACEBOOK)

One Reply to “Homenagem | Ilza Matos, uma mulher com história na política (e na vida) de Vitória da Conquista”

  1. Realmente vale a pena a leitura. Bela não, belíssima crônica caro Giorlando Lima. Parabéns por mais um texto enriquecedor.

Comente