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Redes sociais: ódio, ataques, paixão e teorias da conspiração | A morte de Paulo Henrique Amorim

Parece não haver retorno, as redes sociais se tornaram o terreno fértil do ódio, o campo de uma guerra odienta, o ambiente onde as pessoas – sim, quase todas – se sentem à vontade para desfiarem suas conclusões sobre tudo, com a convicção de que sempre, sempre, o outro está errado, mais do que elas estão certas.

As redes sociais são o certificado da divisão nacional. Divisão política, religiosa, regional, esportiva, social. A política (partidária) responde pela maioria das batalhas. E isso vem se afirmando desde 2013, 2014, principalmente depois das eleições presidenciais de 2014.

Mas, tem também as discussões no campo religioso, as respostas à intolerância religiosa quando a religião é a minha ou da minha simpatia. O intolerante é sempre aquele lá, daquela fé.

E assim, uma mesma história causa reações diversas e pode ser encarada como ofensa pelos dois lados ou elogio ao lado oposto, mesmo que não seja uma coisa nem outra. “Governador libera mais verba para o carnaval”, pode significar que o redator está criticando a liberação do dinheiro, ofendem-se os seguidores do governador, ou que está o mesmo redator fazendo propaganda da ação que deveria ser criticada. No caso de matérias jornalísticas nem importa o conteúdo, mas o título, que ganha interpretações e significados extremamente distintos a depender da posição política ideológica de quem o lê. E quase todo mundo só lê o título, mesmo assim desanda a fazer avaliações do conteúdo que não leu, do assunto ao qual não deu a devida atenção.

Uma simples manchete como “Presidente ainda não confirmou presença em inauguração do aeroporto” pode produzir comentários como: “blog petralha, mentiroso, Bolsonaro vem sim, o dinheiro foi federal; leviano!”, ou “bolsominion, forçando a barra, Bolsonaro não tem que vir, a obra é estadual; vendido!” Isso sem que a matéria tenha, do título ao ponto final, qualquer juízo de valor, é apenas a informação, a narrativa do fato. Mas, isso a gente tira de letra. São anos na atividade, se acostuma. Já não dá para evitar.

A afirmação filosófica mais presente é a de que todo mundo tem lado, ou se é esquerda (Lula livre!) ou direita (o homem é mito!). Nos últimos tempos tenho sido mais cobrado pela esquerda, por seguidores do PT. Mas, os bolsonaristas também reclamam. É como se todos tivéssemos que ser ou como o Antagonista ou como o Conversa Afiada. Não diria que não têm razão os que querem assim, porque é verdade que todo mundo tem um lado, uma preferência, a tendência de tomar partido por essa ou aquela corrente política, mas, daí a exigir que isso seja a tônica do que se escreve há uma razoável distância.

Mas, a propósito desse tema, se um blog que procura a isenção, se esforça para ser independente, apanha, como nós apanhamos, imagine quem sustenta uma posição ideológica intransigente, convicta e permanente? Como Diogo Mainard e sua turma de direita no Antagonista, ou como fazia Paulo Henrique Amorim ao expressar sua indignação de esquerda no Conversa Afiada. Mainard está vivo. Apanha e responde, se quiser. PHA morreu hoje. E a notícia de seu falecimento provocou, em maior parte, comoção e lamento. Era um grande jornalista, um dos maiores da história brasileira. Crítico dos governos Temer e Bolsonaro, entre outros associados a projetos chamados de neoliberais e de direita. Por isso, na sua morte, também apanhou muito. Está apanhando.

Atribuindo a ele uma insinuação de duplo sentido ao cantar o hino do Flamengo em um vídeo, com um “em breve” no final, como se desejasse a morte do presidente Bolsonaro, ou apenas porque viam nele um crítico mordaz do governo atual, pessoas que não concordam com o que ele dizia comemoram sua morte, escrevem coisas horríveis, desconsiderando que o ser humano se foi, que a morte de uma pessoa, seja ela quem for, causa dor, perda e tristeza.

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Mas, não apenas lamentos e ataques. Também estão pululando nas redes sociais teorias de conspiração. Gente que acredita e propaga que Paulo Henrique Amorim foi envenenado, morto por interesse dos seus adversários políticos. Como dizem de Teori Zavascki, o ministro do Supremo Tribunal Federal falecido em um desastre de avião quando era relator da Lava Jato no maior tribunal brasileiro. Ou até como fizeram quando morreu Ricardo Boechat. Ali, a teoria da conspiração chegou a envolver o nome de Deus, que teria provocado a morte do jornalista em um acidente de helicóptero porque ele atacou um dia o pastor Silas Malafaia.

As redes sociais e suas interações, a velocidade da informação transitando pelo chamado zap zap, as postagens com interesses diversos, nem sempre nobres, e os comentários no Facebook e no Twitter não serão diferentes no futuro. A guerra, os combates, as conveniências, as ideologias, o sectarismo religioso, as defesas e aversões ao debate de gênero, células tronco, descriminalização de drogas, aborto, porte de armas, gostos musicais, Globo versus Netflix, feijoada versus churrasco, frio versus calor, Venezuela, Cuba, Coreia do Norte, Israel, Estados Unidos, Argentina, meninos de rosas e meninas de azul, Messi, Neymar, veganos versus McDonalds, até o Brexit ou o plebiscito na Catalunha serão sempre motivos para intensos debates, troca de ofensas, defesas exageradas, ataques injustos…

Com o couro grosso para aguentar críticas e uma cada dia mais trabalhada capacidade de tolerar, compreender e deixar passar, já estamos quase acostumados com as reações das redes sociais. Mas, se ainda é difícil compreender o ódio nutrido pela ideologia, pela paixão política, é impossível aceitar que um ser humano que apenas usou do seu direito de expressão, da sua liberdade de manifestação política e jornalística, possa ter sua morte comemorada, ser alvo de agressões como as que estamos vendo acontecer em relação a Paulo Henrique Amorim.

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1 comentário em “Redes sociais: ódio, ataques, paixão e teorias da conspiração | A morte de Paulo Henrique Amorim

  1. Eu posso não concordar com sua opinião, não gostar de seu posicionamento, mas desejar que você morra e quiçá comemorar sua morte, isso tem nome: é maldade. Parabéns pelo texto.

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