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Política

Artigo | Fake news, a lama de Mariana


Fábio Sena, historiador e jornalista, editor do blog que leva o seu nome

Há um câncer que se generaliza no corpo social. Um câncer que se alastra, se enraíza, se naturaliza até, silenciosamente admitido não mais como patologia, mas como arma de guerra perfeitamente integrada ao campo de batalha política que se tornou o Brasil. Doença gravíssima, este câncer aniquila reputações, relativiza qualquer valor ético ou moral, amiúda o debate público, abre fossos intransponíveis.

As notícias falsas são apenas sintomas – embora os mais perversos – desta patologia infame, que institucionalizou o cinismo como instrumento prioritário do debate político; que atenuou a níveis jamais imagináveis a fronteira entre mentira e verdade, relativo e absoluto, amor e ódio. Assimiladas e difundidas sem nesgas de constrangimento pelas infantarias do whatsapp, as fake news são a lama de Mariana de nossa seara política.

Esquerda, centro e direita: já não há santos leves no andor político. Como em Cambalache, misturam-se Beethoven, Ringo Star e Napoleão. Legislativo, Executivo, Judiciário, grandes balcões para troca de interesses particulares, de grupos e partidos e empresas e gentes de toda laia. O voto, último reduto possível de autonomia popular, mera mercadoria. A Democracia, cambaleante, mero mercado do consumo, peteca, joguete.

Daí que as multidões, de parte a parte odiando-se, dilacerando-se em ataques estéreis, vagam em insossas procissões, ora à cata de sebastiões, ora exorcizando demônios, orientadas por razões que a própria razão desconhece. De tão triste esta tristeza, enche de trevas a natureza. Só por causa de crenças – de altíssimo teor religioso – na existência de salvadores da pátria. Sim. Perece medievo e trevoso, entretanto, é forçoso reconhecer que regredimos, sim.

Mas há inteligências funcionando. Arquitetos do mal. Nas fábricas de fake news. Os ambientes virtuais estão repletos desses operários, dos que produzem, dos que difundem. Uns no confortável anonimato, outros despudoradamente, de peito aberto. Adiantaram quase nada as medidas do whatsapp de limitar o compartilhamento. Há mais gente interessada em disseminar o mal do que possa imaginar nossa vã filosofia. E não há réstias de constrangimento. Dissemina-se, sabendo-se falso o conteúdo.

As fake news alcançaram um dos objetivos mais torpes: generalizar o sentimento de suspeição de todos contra todos, pessoas contra pessoas, instituições contra instituições. Invadiram todos os ambientes e já é praticamente impossível discernir mentira de verdade. Mesmo quando os conteúdos parecem absolutamente incríveis, surreais, improváveis, há quem neles creia – por conveniência, ignorância, ou pura e simples má-fé.

Daí a natureza perversa das fake news, que ganham alimento diário na arena política – controversa e repleta de absurdos –, mas que irradiam seus tentáculos para todos os terrenos da sociedade. Daí que uma notícia aparentemente descabida, como da transmissão do vírus da AIDS pela picada do Aedes Aegypt, poderia ganhar ares de verdade absoluta, exigindo uma monumental campanha de desmistificação. Em suma: as fake news estão cobrindo de lama o planeta.

Mas as fake news não têm pernas próprias. Não sobrevivem sem o auxílio luxuoso de quem as promova nas redes, de quem as conduza aos destinos finais. A rapidez com que alcançam corações e mentes tem direta relação com o cinismo generalizado que assola o Brasil. Gentes muitas sérias, muito devotas da moral cristã, muito caridosas, já não ruborizam ao disseminarem notícias de evidente falso teor. O fazem e aguardam, cinicamente, a advertência para, num gesto farisaico, solenemente pedir desculpas.

Os grupos de whatsapp estão repletos dos proverbiais “me perdoe, não sabia que era falso” ou do dissimuladíssimo “será que é verdade?”. E assim, mentindo uns para os outros, vão para o ralo a democracia, o debate político, a confiança nas instituições, nas lideranças, nos partidos, nos órgãos públicos e seus gestores. Alguns voluntariamente, outros compulsoriamente, mas estamos todos cobertos pela lama de Mariana, sufocados até a alma pelo cinismo que se espraia e que vai criando uma sociedade, não mais da Justiça, mas da vingança, do linchamento.


FOTO DESTAQUE: DOUGLAS MAGNO. PUBLICADA NO BLOG DO DANIEL HENRIQUE STUDIO (Espero que nos perdoe pelo uso)

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Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 56 anos de idade, 40 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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