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Aélio | Uma crônica homenagem de Valdir Barbosa

Escritor, poeta, advogado e ex-delegado de polícia, Valdir Barbosa escreveu este texto no dia 16 de agosto de 2019, em Salvador.

Talvez fosse ele o menor, em estatura, dos Tavares da Mota, muito embora, a envergadura moral de alto coturno fosse característica sua como de resto, dos filhos e filhas todos, de Dona de Doralice e Seu João Batista, casal vindo do estado de Sergipe que aportou nas terras frias do sudoeste baiano, onde ambos fizeram história, nos trilhos de honestidade, retidão e esforço, exemplos do bem seguidos pelos seus descendentes.

Ainda engatinhava como Delegado de Polícia, lotado em Itapetinga, quando pude conhecer dita figura, no crepúsculo dos anos setenta, pois passei a visitar com assiduidade Vitória da Conquista, na esteira da atividade exercida, mas, principalmente, fisgado pelos anzóis das amizades que pude construir ali e pelos amores que enredaram meu destino nas alterosas baianas, sitio que veio se tornar minha segunda urbe, vez que, soteropolitano de nascimento, consoante já afirmei em outras oportunidades.

Não lembro o ponto exato onde pude conhecer pela vez primeira, a figura de quem tratam estas linhas. Pode ter sido no Lindoia, ao sabor do tradicional coquinho, no Candelabro, nas noitadas do Carrascão, Cabana, Cafezal, nas tardes do Taquara, no terraço do Hotel Aliança, onde já pontuava o profissionalismo de Aníbal como “chef” por demais qualificado, no Varandá, no Casarão do velho Jaime, casa dos acepipes de D. Elza – charutos, quibes, homus, kaftas, tabules e outras iguarias da culinária árabe – que encantavam a todos, no restaurante de Dalva, defronte a uma galinha de molho pardo, o cozido das quartas feiras, ou a tradicional feijoada do sábado – cujo panelão certo dia foi furtado numa madrugada, delito que não consegui desvendar -, bem como nas casas tolerantes das luzes vermelhas nos pórticos, saídas do Magasapo, por fim postadas no prolongamento do Gancho, próximo a Estação Rodoviária.

Falo de Aélio Tavares da Mota.

Decerto, porém, incontáveis vezes privei da sua companhia e, além de tê-lo feito nos cantos indicados, dentre outros, fi-lo no tradicional Aerobar, do idiossincrásico Nilton, um dos seus irmãos, figura folclórica da suíça baiana. Naquele tempo, o estabelecimento efervescia na esquina da Rua Ascendino Melo, confluência com a Rotary Clube e, ao cair das tardes, bem como nos fins de semana, plêiade de ilustres conquistenses esquentavam o peito, a bordo das doses de caipirinha, cerveja e wisky legítimo, acompanhados por saborosos pastéis, quibes, além da carne de sol farofada, do conhecido Pacheco, a famosa “cesta do povo”, esta, receita mais recente.

Atualmente, o estabelecimento atende seu público fidelizado, na casa onde residia o proprietário, imóvel contíguo ao antigo bar tornado um mix de comercio e morada, destarte, dita circunstancia impõe ainda mais, a todos os frequentadores dali, reflexos dos humores alternados do dono. De bem com a vida, casa cheia, ao contrário resmungos, críticas ácidas e até “cartão vermelho”, sem livrar a cara de senhor ninguém. Inspirado nele, construí o personagem, Nilson, dono de bodega em “Blackmontaindistrict”, encravado nas bandas de “Isnlancyty”, assim como o fiz em relação a um dos grandes frequentadores do lugar, o saudoso João Machado Cafezeiro, no livro Surfando em Pipelines, este, dentro do romance, o guarda livros Jota Malhado.

Todo o prolegômeno se presta a falar da passagem do caríssimo Aélio. Na madrugada desta sexta-feira tratou de desencarnar, justo no canto onde serviu por décadas, uma das propriedades de Gianno Brito, filho de Flavio Brito, expoentes do agronegócio na região, pessoas a quem ofereceu préstimos, anos a fio, com extremosa dedicação. Como uma vela soprada pelo vento do destino cósmico apagou, nas bandas de Machado Mineiro, rodeado pelo cafezal a quem tratou dedicadamente.

Baixo, porém de boa compleição física dizem que na juventude, bom de bola, dono de potente chute, atuante na ponta direita. Fala mansa, gestos finos, educado, gentil, trabalhador incansável sabia, entretanto, curtir suas horas de folga junto a todos quantos amava. Sempre, nos tempos atuais, aos sábados e domingos era possível encontrá-lo no bar do irmão Nilton, ao lado da companheira que o abraçou nestes anos findos, Elodir, a sorrir baixinho embalado nos assuntos todos que povoam ditos ambientes e vê-lo sair meio tropego, sob efeito dos goles levando seu carro embora, numa marcha bem lenta. Foi desta forma e neste cenário que o vi pela derradeira vez, quando trocamos o último aperto de mão que costumava ser demorado, no calor dos eflúvios etílicos, a comprimir repetidamente seus dedos sobre os meus.

Não pude conduzi-lo a ultima morada. Por ironia do destino deixei a cidade, de volta para Salvador, exatamente na quinta que antecedeu a madrugada de sua partida. Envolvido na saudade cuido de prestar esta simples homenagem, a um homem simples que muitas vezes fez valer, com sua presença ao meu lado, tantos instantes que se tornaram memoráveis, em face da sua companhia. Nos momentos necessários recebi de sua parte apoios irrestritos, reconhecimento das minhas labutas, incentivo aos meus propósitos.

Dos muitos presentes que recebi de Aelio lembro as incontáveis vezes que levou Chico Viola, Israel José Silveira, o rei da voz conquistense, quiçá um dos seus maiores amigos, a tiracolo, para cantar como um rouxinol e alegrar nossas horas idílicas, até quando as cordas vocais do menestrel o tornavam quase mudo.

Hoje cedo, quando o sol ainda não havia espargido seus primeiros raios e uma densa chuva molhava o chão de Salvador lavando a Praça do Campo Grande, envolvido no torpor da madorna que precede o despertar completo, penso ter ouvido a voz poderosa de Chico derramando os versos: “Serra da boa esperança, esperança que encerra, no coração do Brasil um punhado de terra, no coração de quem vai, no coração de quem vem, serra da boa esperança meu ultimo bem; parto levando saudades, saudades deixando, murchas caídas na serra…”. Percebi a melodia até o ultimo solfejo: “… hei de guardar sua imagem lá perto de Deus. oh! minha serra eis a hora do adeus, vou-me embora, deixo a luz do olhar no teu luar, adeus.” Então pude perceber que alguém, do lado do cantor sorria um sorriso rouco.

Não tive dúvidas, estavam juntos outra vez.

Abraços amigos, dia destes estaremos de novo ombreados.


FOTO DESTAQUE: AÉLIO, DE CAMISA LISTRADA, COM A FAMÍLIA

 

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Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 56 anos de idade, 40 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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