Anúncios
Eleições Política

Opinião | A lenda do sapo, os postes, o PT e a eleição de prefeito de Vitória da Conquista

Ou: De como o PT vê a eleição de 2020 e como pode não ser como o partido vê

 

Duas declarações recentes, do deputado estadual e ex-prefeito José Raimundo Fontes e do candidato a presidente do diretório municipal do Partidos dos Trabalhadores, Isaac Bonfim, ligado ao deputado, dão uma ideia do que pensa o partido sobre a eleição do ano que vem em Vitória da Conquista. Ambos afirmaram, está nos blogs, que o PT não tem apenas os dois nomes que mais são comentados na cidade como possíveis candidatos a prefeito do partido.

Ao BLOG, em abril deste ano, José Raimundo colocou na lista os seus companheiros de coletivo, o vereador Fernando Jacaré e o ex-vereador Alexandre Pereira, fez uma cortesia com dois nomes do grupo guilhermista, Márcia Viviane e Valdemir Dias, também vereadores, e aumentou a lista colocando, por conta própria, sem consulta prévia aos indicados, três nomes externos ao PT: a psicóloga e professora da Uesb, Monalisa Barros, presidente do Conselho Municipal de Saúde, o empresário e administrador Jaymilton Gusmão, presidente da Coopmac, e Célio Barbosa, vice-presidente do Conselho de Segurança e presidente do Rotary. Os três negaram disposição para a disputa.

Esta semana, segundo os blogs do Rodrigo Ferraz e do Sena, o deputado fez um ajuste na lista. Na que é apresentada por Rodrigo, a partir de entrevista de José Raimundo ao repórter Ricardo Gordo, os nomes são: o ex-prefeito Guilherme Menezes, o deputado federal Waldenor Pereira e os vereadores Fernando Jacaré, Márcia Viviane e Valdemir Dias. Na relação trazida por Sena estão Guilherme, Waldenor, Jacaré, Valdemir, Viviane, Alexandre Pereira e um novo nome: o médico Geovani Moreno, atual diretor do Hospital Geral de Vitória da Conquista (HGVC).

Já o jovem advogado Isaac Bonfim, candidato a presidente do PT de Vitória da Conquista, que, se eleito será o condutor dos debates acerca da escolha do candidato a prefeito, menciona os nomes tradicionais de Guilherme, José Raimundo e Waldenor, reitera o nome de Fernando Jacaré, acrescenta o vereador Coriolano Moraes, que não é nem do grupo Guilherme nem de José Raimundo, mas vai votar nele na eleição interna do partido, e ainda o ex-secretário estadual do Meio Ambiente, Geraldo Reis, o G2, que ficou 12 anos fora da política local, atuando nas gestões estaduais do PT até este ano, quando Rui Costa o deixou de fora.

A partir de cima, em ordem alfabética, as alternativas aos nomes de José Raimundo e Guilherme, segundo o próprio deputado e Isaac Bonfim, candidato a presidente do PT: Alexandre Pereira, Coriolano Moraes, Fernando Jacaré, Geraldo Reis, Giovane Moreno, Valdemir Oliveira, Viviane Sampaio e Waldenor.

Do lado guilhermista pouco se fala em nomes. O próprio Guilherme quando toca no assunto diz que não tem a vaidade de ser candidato de novo, que só será se o partido o convocar, e também diz que o candidato pode ser outro, que ainda pode surgir um nome com condições de representar não apenas o PT, mas a aliança de partidos que outrora se chamou de Frente Popular. Mas, o ex-prefeito de quatro mandatos não sugere quem pode ser essa novidade.

Aqui, uma pausa para uma fábula, inspirada nas respostas requentes de José Raimundo e Guilherme quando lhes perguntam se querem ser candidatos. (A fábula é da tradição oral, minha mãe contava quando eu era bem menino, portanto, há variações, optei por essa forma contada por Ana da Câmara Cascudo, da obra “Contos tradicionais do Brasil para jovens de Luís Câmara Cascudo”).

O sapo é esperto. Uma feita o homem agarrou o sapo e levou-o para os filhos brincarem. Os meninos judiaram dele muito tempo e, quando se fartaram, resolveram matar o sapo.

Como haviam de fazer?

– Vamos jogar o sapo nos espinhos!
– Espinho não fura meu couro – dizia o sapo
– Vamos queimar o sapo!
– Eu no fogo estou em casa!
– Vamos sacudir ele nas pedras!
– Pedra não mata sapo!
– Vamos furar de faca!
– Faca não me atravessa!
– Vamos botar o sapo dentro da lagoa!

Aí o sapo ficou triste e começou a pedir, com voz de choro:
– Me bote no fogo! Me bote no fogo! N’água eu me afogo! N’água eu me afogo! [Na versão da minha casa o sapo gritava: Me jogue no fogo, mas não me bote na água].

– Vamos para a lagoa – Gritaram os meninos.

Foram, pegaram o sapo por uma perna e, t’xim bum, rebolaram lá no meio. O sapo mergulhou, veio em cima d’água, gritando, satisfeito:

– Eu sou bicho d’água! Eu sou bicho d’água!

Por isso quando vemos alguém recusar o que mais gosta, dizemos:
– É sapo com medo d’água…

FÁCIL OU DÍFICIL

Voltando da literatura folclórica para a realidade política conquistense. As falas do deputado José Raimundo e de Isaac Bonfim permitem interpretar que o PT acha que a eleição vai ser fácil. Embora nossa experiência diga que o candidato a prefeito do partido será ou Guilherme ou José Raimundo, mesmo um não querendo que o outro seja, ou, correndo por fora, Waldenor Pereira, se as pesquisas indicarem que com ele o PT continua com chances de vitória, vamos analisar as hipóteses. Fora um ou outro nome citado, Márcia Viviane, talvez, pela representatividade do feminino, os demais seriam postes sem luz suficiente para iluminar a estada da eleição. Hipóteses de eleição muito menos críveis do que a especulada – e assassinada no nascedouro – candidatura de Odir Freire surgida por vontade de Guilherme, em 2016.

Nunca diríamos que se trata de arrogância. Conhecemos os três, Guilherme, José Raimundo e Isaac, são democratas respeitosos. Mas, poderíamos falar em equívoco de leitura, para não dizer que se trata de completa falta de noção da realidade. Como se o PT, ou uma parte dele, considerasse que a eleição é galinha morta, que qualquer um pode disputar com o prefeito Herzem Gusmão e vencer.

É certo que a imagem do prefeito e da gestão dele estão, ainda, muito desgastadas. É certo que, como o PT se ilude que pode ganhar com qualquer um, Herzem acredita que está bem, que a população aprova seu governo e que não precisa mais do que anunciar asfalto para o ano que vem que o desgaste se reverte. Pode ser que não. Mas, há muita chance de que sim. Há recursos financeiros para as obras – muito deixado por Guilherme, muito arrecadado no último ano e muito tomado emprestado da Caixa -, embora pouco projeto. Se Herzem ajustar o timing e a comunicação (não apenas o trabalho da Secom ou a propaganda, mas o que e como falar com a população), a situação pode, sim, mudar, para melhor, no caso de Herzem, para mais difícil, no caso do PT.

A vereadora Márcia Viviane, lúcida, disse em reunião interna do partido, no dia 1º de maio, que não vai ser fácil vencer Herzem Gusmão nas eleições de outubro de 2020. Quando o BLOG publicou isso, petistas viraram a cara para nós. Mas, o que a vereadora fez foi chamar a atenção para a necessidade de colocar sebo nas canelas e lembrar que o governo continua, com os instrumentos para modificações no município e no cenário. Segundo Márcia Viviane: “Não vamos contar que esse governo, esse desgoverno que está aí na Prefeitura de Vitória da Conquista, vai ser tão fácil de a gente varrer”.

E ela ainda chamou a atenção para outro fato político importante, que não apenas o PT despreza, mas o MDB e o time do prefeito também: há mais gente na corrida, com mais ou menos visibilidade hoje, porém com condições reais de crescimento, como o vereador David Salomão, o administrador Ivan Cordeiro e os nomes do PSOL, por exemplo, sem contar com o apetite de alguns setores da cidade de lançar “terceiras vias”, com possibilidade de atrapalhar qualquer dos protagonistas atuais, Herzem e o PT. São candidaturas “que vêm crescendo em nossa cidade”, como disse a vereadora, para quem, a situação pede unidade e estratégia. “[É preciso] que a gente ocupe nosso espaço, porque nós vamos precisar de muita estratégia para 2020”.

Aparenta, porém, que uma parte do PT, senão a sua maioria, está entendendo que estratégia é espalhar hipóteses, oferecer um leque grande de opções, diluindo força, ao invés de potencializar o que já tem aderência. E enquanto os dois principais políticos do partido no município adotam a estratégia do sapo do conto acima, o partido vai tentando escrever a lenda do poste que ganha a eleição.

Anúncios

1 comentário em “Opinião | A lenda do sapo, os postes, o PT e a eleição de prefeito de Vitória da Conquista

  1. Alexandre Rogério

    Parabéns Giorlando. Bela abordagem

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: