Anúncios
Sociedade Transporte e Trânsito

Perigosa combinação | Não é na blitz que deve pensar quem quer beber e dirigir, é na vida

Num dos bares mais frequentados da cidade, três rapazes conversavam à mesa, na noite de sexta-feira (6), sobre a blitz que Polícia Militar e Simtrans faziam ali perto. Na ação, os agentes estavam usando o conhecido bafômetro para aferir o eventual nível de álcool no sangue dos motoristas abordados. Os três já estavam no bar há algum tempo e optaram por ficar mais um pouco, até que a blitz fosse encerrada. Quando isso aconteceu, pediram a conta e comentaram que gastaram mais que na sexta-feira anterior, porque, ao demorarem mais no bar, esperando a blitz do bafômetro acabar, beberam mais cervejas. No dia seguinte, os três estavam bem. Ufa! Na noite anterior, conseguiram conduzir seus carros sem maiores problemas até chegarem em casa.

No mesmo dia, algumas horas depois, outro jovem, Fernando Otávio Lemos Cardoso, de 20 anos, dirigia pela Avenida Olívia Flores e fez uma curva brusca para entrar na Rua Rio de Contas, onde fica o campus Anísio da Teixeira, da UFBA. Não deu certo. O carro capotou.

No mesmo momento, a jovem Raíssa Alves Ferreira, de 18 anos, ria ao atravessar a rua com amigos, depois de uma festa. Vivera mais um dia alegre, certamente povoado de sonhos e planos de tudo o que ainda teria para viver.

Raíssa e Fernando estavam na mesma festa. O Reg Danado, na Arena Miraflores. A garota e um grupo de amigos teriam tentado chamar um Uber, mas não tinham bom sinal de internet. Resolveram ir andando até um ponto de ônibus. Fernando tinha um carro. Um carro com o qual ele chegaria mais rápido do que ela a qualquer lugar.

Quando atravessavam, o carro de Fernando apareceu de repente. Sons de pneus queimando no asfalto. O carro já virando. Todos pularam, para não serem atropelados. Raíssa e um amigo não conseguiram. O amigo dela teve ferimentos leves. Ela foi atingida, arrastada por alguns metros e morreu. Chegou mais rápido ao céu que motorista do carro sem direção. Mas, ela não pediu para ser agora. E ele disse que foi sem querer.

Raíssa, dizem os testemunhos, tinha uma direção na vida. Queria ser advogada. Fernando, provavelmente também tinha, mas a perdeu, temporariamente. Está na cadeia. Não se sabe por quanto tempo. Ainda pode fazer planos, sonhar – e até voltar a dirigir, talvez depois de beber. Raíssa não pode mais nada, aqui neste plano terreno.

Mortes são causa de tristeza. E a morte violenta de uma pessoa jovem, de profunda tristeza. Nenhum de nós pode medir a dor dos pais, dos irmãos, namorado, namorada, família, amigos… A tragédia que tirou a vida de Raíssa não foi a primeira e nem será a última. Mesmo que saibamos porque aconteceu.

Mas, entre lágrimas e indignação, todos nós podemos tirar lições, fazer preces e manifestar o desejo de que um dia – quem sabe um dia – possamos entender que o prazer da bebida, o estímulo da droga, a valentia gratuita ao volante, representam ameaça à vida. Haverá sempre uma consequência quando se dirige embriagado, drogado ou de qualquer modo irresponsável. E, infelizmente, muitas vezes acontecem as piores consequências.

Diante dos históricos tristes que conhecemos, aos quais se somam a perda de Raíssa e o profundo desespero dos pais dela, dos pais de Rodrigo, do próprio Rodrigo, tomara aqueles rapazes do começo desta crônica possam entender que não é a blitz que deve ser levada em conta na hora de decidir combinar álcool e direção. É a vida. As próprias e a de terceiros. Como a de Raíssa.

 

Anúncios

Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 56 anos de idade, 40 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

4 comentários em “Perigosa combinação | Não é na blitz que deve pensar quem quer beber e dirigir, é na vida

  1. Parabéns pelo excelente texto…

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: