A defesa de um parto gentil | Uma entrevista IMPERDÍVEL com a psicóloga Monalisa Barros


No Brasil, 90% dos partos são cesarianas quando realizados na rede privada de saúde e cerca de 45% quando na pública. Nem sempre foi assim, mas, faz muito tempo. Até meados dos anos 1970 era comum que os nascimentos ocorressem em casa, com as parteiras. Naquele tempo e ainda por alguns anos depois, mesmo quando os partos ocorriam em hospitais, a maioria era normal. Mas, aos poucos, a cesárea foi ganhando espaço a ponto de chegar a percentuais tão altos, enquanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza que não passe de 15%.

O que levou ao crescimento da cesariana a esse patamar no Brasil? E o que tem acontecido no ambiente feminino em relação a isso nos últimos anos?

Para entender melhor o assunto, delicado e importante, o BLOG conversou com Monalisa Barros, psicóloga pela Universidade Federal da Bahia (1987), mestre em Pesquisa Aplicada à População pela Exeter University, Inglaterra (1997), doutora em Psicologia – Estudos da Subjetividade, pela Universidade Federal Fluminense (2015), com pós-doutorado feito na Maternity Care Research Group da Trinity College, Dublin, Irlanda (2016), professora adjunta da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e ativista contra a violência obstétrica e da defesa do parto gentil. A humanização do parto é linha de estudo de Monalisa e, nessa busca por conhecimento, ela acabou descobrindo o GentleBirth, um programa voltado para o preparo da mulher (e do companheiro) para o parto, com foco no parto natural e baseado em evidências científicas.

Segundo a apresentação, na página da empresa, o GentleBirth combina neurociência, obstetrícia e tecnologia para viabilizar o parto positivo através da preparação. O programa inclui treinamento e educação em Mindfulness, Hipnose, TCC e Psicologia do Esporte. A empresa foi fundada em 2006 por Tracy Donegan e caminha para se tornar um líder global em educação perinatal. Tem escritórios em Dublin, Irlanda; Mountain View, Califórnia e Brasil, mais precisamente em Vitória da Conquista, a sede nacional do programa.

A conversa do BLOG com Monalisa Barros foi em agosto, atualizada este mês. Demoramos para publicar em razão do tamanho, era preciso achar uma forma de oferecer ao público as informações que ela passou sem que o texto ficasse enfadonho. Pela importância, dividimos em sua parte, a primeira é esta. A publicação, neste domingo (24), coincide com a despedida de Monalisa de Vitória da Conquista. Ela partiu para mais um pós-doc, desta vez em Coimbra, Portugal, onde ficará por dois anos.

Ela nos disse que para falar da existência, objetivos e funcionalidades do GentleBirth teria que começar a narrar a história anterior ao momento em que ela conheceu a empresa. “A luta por um parto humanizado é uma luta feminista, é uma luta de protagonismo feminino, de reaver esse protagonismo em uma cena de um momento que é dos mais importantes para a mulher. Comecei a estudar o tema por uma questão pessoal, eu tive dois filhos prematuros e no terceiro, como foi uma gravidez de muito risco, eu estudei muito sobre parto e sobre psicologia da gravidez, parto e puerpério. Então, o parto de Leo (Leonardo Barros Mascarenhas, médico ortopedista do Samur), há 34 anos, foi à meia luz, vertical, já dentro de uma proposta muito mais humanizada do que se pensava e se falava na época”.

Monalisa ressalta que, de lá para cá, o Ministério da Saúde tentou e continua empreendendo várias políticas públicas no sentido de garantir um acesso mais humanizado à cena de parto. “Primeiro, em 1985, com o PAISM, o Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher, depois com o PHPN – Programa de Humanização do Parto e Nascimento, depois com a própria Política Nacional de Humanização – PNH, aí com a Rede Cegonha, com o Parto Adequado, com o APICE-ON, que é o aprimoramento dos profissionais de obstetrícia e neonatologia e esses movimentos eles nunca ganharam força, porque eram sempre, com exceção dos últimos, sempre de cima para baixo”.

Monalisa conta que quando fazia o doutorado na Universidade Federal Fluminense um documentário quase a fez desistir da tese que preparava, mas acabou se tornando uma das bases da sua peça acadêmica. “No meio do doutorado, entra em cartaz um documentário brasileiro chamado Renascimento do Parto. Esse documentário marca uma mudança no país, com relação ao parto. É um documentário muito bom, está, inclusive, na Netflix, e eu recomendo que assistam, são três partes, mas basta assistir a primeira, que foi a mais emblemática. Quando vi, saí do cinema arrasada, chorando, liguei para minha orientadora e disse que não adiantava mais estudar nada, porque estava tudo no filme. Tudo o que eu tinha feito, nos últimos três anos, estava resumido no filme e eu disse que não precisava de tese nenhuma, eu estava atrasada. A minha orientadora disse: ‘Calma, não é assim. A gente vai colocar o filme na tese. Vamos estudar qual é o efeito desse filme’.”

Ela lembra que o filme produziu um efeito muito importante no país e fez eclodir movimentos de mulheres, rodas de gestantes, no país inteiro. “Inclusive aqui, em Conquista, começa com uma roda, em 2013, uma roda aberta, gratuita, que ainda ocorre, quinzenalmente, para quem quiser vir. Eu me juntei à roda um ano depois que ela já existia. E foi com essas pessoas que me juntei que montamos o GentleBirth no Brasil. Somos cinco mulheres”.

Monalisa com a criadora do GentleBirth, a irlandesa Tracy Donegan

EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS

As rodas uniam mulheres falando de seus corpos, sobre serem protagonistas desse corpo, de terem direito de saber o que fazer com ele, de terem direito de autorizar ou não uma intervenção em seu corpo, conta Monalisa. “E junto com isso vieram os movimentos mundiais. Um a partir da década de 1980, o Movimento da Medicina Baseada em Evidências, que é uma distinção do que é ciência e do que é evidência. Um artigo científico é científico mesmo relatando apenas um caso, mas esse artigo não é uma evidência científica, porque é preciso que haja uma meta-análise, uma sistematização de vários estudos com a mesma metodologia, que permita que eu generalize aquela recomendação para toda uma comunidade, uma comunidade grande ou para todo mundo. Isso é uma evidência”, explica.

Monalisa esclarece que a Medicina Baseada em Evidências Científicas é o pilar da existência e da prática de algumas especialidades como cardiologia, neurologia, “porque foram especialidades que precisaram brigar muito, politicamente, para ter o direito de abrir um coração vivo ou uma cabeça com a pessoa viva. Para fazer isso eles precisavam ter muita certeza de que não iriam produzir uma iatrogenia [efeito adverso, complicação], um problema. Na obstetrícia, isso não aconteceu. Por quê? Porque a mulher grávida é um corpo saudável, hígido, então as intervenções foram sendo cada vez mais autocráticas, de decisão do médico, e isso provocava poucos problemas porque como é uma mulher saudável, ela conseguia sobreviver às agressões”.

VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA

Em seguida, de acordo com a psicóloga conquistense e representante da empresa GentleBirth no Brasil, na década de 1990, surge o movimento internacional contra a violência obstétrica. “E aí há uma grande polêmica, inclusive com o ministro de Bolsonaro proibindo o uso desse termo. Mas, não é a violência do obstetra, é a violência que acontece na cena obstétrica, que pode ser feita por qualquer pessoa, até pelo cara da portaria, o segurança, a moça da limpeza. É uma violência que ocorre na institucionalização de uma prática intervencionista, que nasce na medicina, claro, mas que pode se estender a todos os profissionais que estão ali”.

Ela diz que o que ocorre na cena de parto é o contrário do que a fisiologia preconiza e espera. “Só para ilustrar, quando uma aliá, uma elefoa, vai parir, a comunidade de elefantes faz uma roda em torno dela, de costas para ela, para que ela esteja segura de que não vai haver nenhum predador e que não esteja ameaçada com o olhar de ninguém. Ela fica ali, protegida, aí ela pare e depois todos se viram para conhecer o novo membro. Isso, se a gente for levar do ponto de vista bioquímico, é perfeito, porque o hormônio do parto é a ocitocina, um hormônio que a gente libera  no orgasmo, no momento de carinho e no momento de parir, é o hormônio do amor, o hormônio da vinculação, mas ele só é secretado na corrente sanguínea numa situação de segurança, de tranquilidade e que você não esteja sob ameaça, nenhuma ameaça”. Isso é o inverso do que acontece quando a mulher chega à cena do hospital, afirma Monalisa. “Ela chega e ouve: ‘Deite aqui, não levante’, ‘cale a boca’, ‘pare de gritar’, ‘na hora de fazer gostou e agora está reclamando’. As violências produzem uma série de distocias [ocorrência de anormalidades de tamanho ou posição fetal, resultando em dificuldades no parto] na cena do parto”.

O movimento que se posiciona contra isso cresce em todo mundo e já existem observatórios de violência obstétrica em inúmeros países, comenta Monalisa. Esses movimentos ganharam força depois do documentário Renascimento do Parto. No Brasil, o momento crucial se deu em 2013, segundo Monalisa, com 30 anos de atraso, com o Simpósio Internacional de Assistência ao Parto (Siaparto), em São Paulo, que não está vinculado à Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, mas a um grupo de profissionais de saúde multidisciplinar que pensa a obstetrícia do ponto de vista humanizado e inclui os movimentos das mulheres nesse movimento.

EXPERIÊNCIA NA IRLANDA

Em 2016, Monalisa Barros estava na Irlanda. Começava um pós-doutorado no Maternity Care Research Group, parte da Trinity College Dublin. Lá, como parte do projeto de pesquisa, foi conhecer a assistência obstétrica no país do noroeste da Europa. Passou a acompanhar pré-natais e partos. “Primeiro, tenho que dizer que a realidade obstétrica lá é muito diferente daqui. Não existe oferta de cesariana eletiva, de a mulher escolher quando parir, sempre se espera a mulher entrar em trabalho de parto, a não ser que tenha alguma coisa muito grave, que precise interromper a gestação. E os índices de cesárea são muito menores que os daqui, embora grandes em relação à Europa, em torno de 24%, 25%, enquanto aqui, no setor privado, é 90% e no público é em torno de 45%, que, na média, vai para 52%, porque no setor privado é bem menor que a população do público”.

Ela conta que quando dizia que no Brasil 90% dos partos eram feitos por cesariana, as pessoas perguntavam se aqui não tem polícia. “’Como assim, você tira 90% das crianças antes que elas digam que estão prontas para nascer?’, perguntavam. Isso porque o entendimento lá é de que é a maturidade pulmonar do bebê que faz a mulher entrar em trabalho de parto. O bebê, ao estar maduro, ele produz uma substância no pulmão chamada surfactante, que ele expele no líquido amniótico, essa informação vai para o hipotálamo da mulher e então, começa todo um mecanismo de troca e mudança hormonal, uma orquestra hormonal, para que ela entre em trabalho de parto. Ou seja, se ela entrou em trabalho de parto é porque o bebê diz que está pronto para respirar. Para alguns médicos de lá qualquer momento que você tire o bebê antes disso é uma prematuridade. Você está obrigando o bebê a respirar antes de ele estar pronto”.

A antecipação da hora, produz uma série de iatrogenias, fala Monalisa. “Por exemplo, produz uma situação de ter uma UTI para o parto, porque boa parte dos bebês vão precisar de UTI, mas ninguém diz que essa necessidade se dá porque o bebê foi tirado antes da hora. E ele vai ter uma hipoglicemia, vai precisar de uma fototerapia, vai ter um baixo peso. Fora que é uma cirurgia de alto risco, de média complexidade, que pode ter outras intercorrências possíveis, como 120 vezes mais desconforto respiratório porque foi uma cesariana agendada”.

COMEÇO DA MUDANÇA

Recentemente, de acordo com Monalisa, as mulheres passaram a ter acesso a essas informações e passaram a reivindicar outro tipo de tratamento. Descobriram que a medicina baseada em evidências científicas vinha exatamente ao encontro do que elas pediam. “Comprovava que a intervenção desnecessária atrapalha, como provava que a episiotomia não facilita nem acelera o trabalho de parto ou que o uso da ocitocina sintética interrompe a produção da ocitocina endógena, que é aquele hormônio do amor, além de aumentar a dor cinco vezes e não produzir vinculação”. Ela diz que houve um casamento da ciência com o movimento mundial que afirma que fazer a episio sem autorização da mulher é uma violência, mandar a mulher calar, é uma violência. “Houve uma confluência desses grupos, que passaram a dizer: ‘A gente não quer mais esse tipo de parto, a gente quer, agora, um parto respeitoso””.

Essa visão sobre a cesárea não é uma condenação do método, ressalta Monalisa. “Não se pode negar todo o avanço da cesárea, que veio para salvar vidas, mas ele só deve ser usada até 15% dos casos. Estudos da OMS demonstram que acima de 15% a cesárea produz complicações, produz morbidade, não melhora o cenário de mortalidade materna e nem de morbidade materna, mas piora. Imagine num cenário de 90% de cesáreas, como é o setor privado no Brasil”.

À pergunta se o grande número de cesáreas ocorreria por que os médicos não querem perder dinheiro se o parto fosse normal, Monalisa responde que não é o caso, pois o valor pago pelo SUS e pelos planos de saúde é o mesmo. A questão seria o tempo que o profissional teria que dedicar à mulher no caso do parto normal. “Uma cesárea é feita em 20 minutos. O profissional marca e tem a vida arrumada, faz 10 partos em um turno de trabalho, se quiser. No parto normal, não. É preciso ter disponibilidade para estar lá. Isso tem complicado um pouco. Mas, em Vitória da Conquista e região a gente tem tido um movimento de humanização no Hospital Esaú Matos, abriu o CPN de Poções e o próprio SAMUR colocou uma sala para parto normal. Isso está acontecendo porque as mulheres estão pedindo”.

GENTLEBIRTH

Monalisa conta que nos acompanhamentos de pré-natais e partos como parte de sua pesquisa de pós-doc ouvia casos – “que não tinham nada a ver com meu pós-doc” – dizerem “somos casal gentlebirth”. No começo ela achou que era uma expressão da língua inglesa que ela não conhecia e anotou para verificar depois.  “Mas, esqueci. Na outra semana, mais um casal disse a mesma coisa. Então, comecei a verifiar se tinha alguma diferença no comportamento deles e vi que eram muito mais participativos, que o homem falava muito mais, questionava. O casal era muito mais seguro. Não vi muita ansiedade, nem medo, o que é muito comum no final da gestação, mas, guardei para mim”.

O que Monalisa viu despertou encantamento e curiosidade. “O marido, sabendo seu papel, mostrava atividade, garantindo proteção à mulher, quando alguém vinha falar, ele dizia ‘fale comigo’, para que ela ficasse tranquila. Uma postura de guardião da cena e tanta cumplicidade que parecia que eles tinham combinado muitas coisas antes”. Foi quando Monalisa procurou na internet o que era mesmo gentleBirth. “Descobri que era um curso de formação que capacitava profissionais a ofertar workshops para gestantes, que tinha um aplicativo de preparação mental para o parto. Decidi comprar e fazer o curso. Fiquei encantada. O curso era o casamento da obstetrícia, com a neurociência e a psicologia. Tudo o que tem pode ser encontrado na biblioteca do Cochrane, está na base de dados científica, mas a pessoa que criou o curso colocou tudo junto, casou. É como se a psicologia e a obstetrícia estivessem caminhando em linhas paralelas, mas nunca tivessem se encontrado”.

Tendo conhecido o aplicativo em todas as suas fases, Monalisa decidiu que o traria para o Brasil. “Pensei que se aquilo era importante lá na Irlanda, onde não existe uma cultura de cesárea como no Brasil, seria ainda mais importante no Brasil. Aqui, se a mulher disse que vai parir, o que vai ouvir é: ‘ela é louca, para que ela quer fazer isso, por que vai sentir dor se pode fazer uma coisa sem dor?’ Como se na cesárea não fosse sentir dor, mas essa é uma opção que não existe. Ou sente antes, com o parto normal, ou sente depois, com a cesárea. A opção é em que momento quer sentir essa dor”.

De volta ao Brasil, Monalisa apresentou o curso às companheiras da roda de gestantes. “Conversei com as meninas e topamos encarar o desafio. Sozinha, ninguém faz nada! No começo éramos eu; Marcella Aguiar, psicóloga familiar e educadora perinatal e Clarice Campos, a Kika, que é doula. Depois juntamos ainda Clara Barros, minha irmã e advogada, e Ariana Magalhães, nossa chefa… que tem larga experiência em grandes empresas, já trabalhou na Suzano Celulose, Apple e tem know-how de administração moderna e relações públicas. Esse é o time que trabalha duro desde 2016”.

A primeira preocupação de Monalisa na conversa com a criadora da GentleBirth, Tracy Donegan, foi explicar que o Brasil tem uma situação muito grave de desigualdade social e que não terá como trazer um aplicativo que não fosse acessível à maioria das pessoas. Psicóloga preocupada com a luta da mulher pelo direito de decidir como parir, Monalisa explicou que negociou o máximo para que o preço do curso de preparação ao parto oferecido pela Gentlebirh seja o mais acessível possível. Custa R$ 19,90. Ao adquirir o aplicativo, a pessoa pode colocar em três aparelhos diferentes, “para que a mulher dê acesso ao marido ou use, por exemplo, em outro aparelho que ela tenha. Ou, se ela quiser, pode dividir com outras duas, então o custo fica ainda menor. Estamos falando da preparação para o parto, destinado às mães ou ao casal”.

Além do aplicativo para a mãe (ou para o casal), a Gentlebirh oferece um curso de atualização profissional e este tem um custo maior, entendendo que os profissionais têm uma outra condição. Segundo Monalisa, o curso é indicado para qualquer profissional que atue na cena do parto. “Pode ser o fotógrafo que queira entender sobre o processo do parto. São dois cursos dentro de um, todo baseado em evidências. Tem um de mindfulness para profissionais do parto, porque as evidências mostram que quanto menos você intervier melhor o processo, mas, sustentar essa não-intervenção precisa de controle emocional. O curso de mindfulness é para ajudar o profissional a controlar seus pensamentos, a sua respiração e meter menos a mão”.

A parte teórica dispõe de 23 módulos, incluindo neurociência, obstetrícia, psicologia, bioquímica, para capacitar os profissionais. A representante da GentleBirth no Brasil esclarece que o curso não autoriza o profissional a fazer nada. “Se eu sou psicóloga e fiz o curso eu não estou autorizada a fazer parto, mas tive acesso ao conhecimento científico todo ao redor do parto, desde o manejo farmacológico da dor ou manejo não-farmacológico da dor; aos processos de gestação, puerpério e amamentação, porque o conhecimento é público, todo mundo pode ter acesso”.

O público maior são obstetras e enfermeiras, mas também tem terapeutas, fonoaudiólogas, advogadas, doulas, psicólogos, entre outros. É um curso online e Monalisa é a tutora no Brasil. Nessa condição ela faz encontros presenciais, reuniões, quando necessárias, além de uma live por mês nas redes sociais, com um grupo dos certificados. “Toda a plataforma, o que foi um trabalho hercúleo, com tradução, regravação de vídeos e adaptação para todas as normas do Ministério da Saúde. Isso feito por nossa equipe de cinco pessoas. Todos os áudios estão em português, com a minha voz”.

“Concluímos que é importante ter uma identidade nossa, de quem trouxe o curso para o país, por isso resolvemos manter a  nossa cara e a nossa fala, porque o trabalho de adaptação foi nosso, aqui de Conquista, a sede da GentleBirth é aqui, mesmo que o nosso grande mercado não esteja aqui, mas no país todo, principalmente em São Paulo. Há pessoas fazendo o curso na maioria dos estados brasileiros”.

BLOG – Você poderia estar ganhando dinheiro com muitas atividades, certamente não está nisso para tirar dois dólares por aplicativo, há uma força interna que lhe move nisso, não?

MONALISA BARROS – Sim. Isso é muito presente no mundo da humanização. É muito difícil separar o ativismo por um direito, que nem digo que é um direito feminino, mas humano, direito de a criança ser recebida com dignidade, respeito. É muito triste ver como as crianças são recebidas em nosso país, como as mulheres são tratadas no momento de maior vulnerabilidade, em que ela precisa de toda proteção social, em que ela precisava daquela roda de elefantes, dizendo estou aqui para te ajudar, a gente encontra a roda de elefantes dizendo “você vai morrer”, “não sei porque você fez isso, vai ser uma dor insuportável”.

Como eu sou psicóloga e trabalho com essas dores emocionais e vejo como essas mulheres ficam destroçadas depois de um parto assim e ter que lidar com toda mudança da identidade feminina, de mulher para mãe, de conjugar essas duas coisas que vão continuar convivendo, é impensável não lutar contra isso. E, para completar, eu vivi partos maravilhosos e quem viveu partos maravilhosos quer que todo mundo tenha oportunidade de viver, porque há uma coisa que não se fala, é do prazer que há em parir. A mulher que pare encara qualquer coisa. Pode matar um leão. Parir é uma potência. E eu acho que é por isso que os homens têm tanto medo de a gente retomar essa potência.

Author: Giorlando Lima

Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 58 anos de idade, 42 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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