José Dirceu: Um povo conservador não teria dado quatro mandatos ao PT


A chegada do automóvel preto, parecido com os carros que servem aos ministros em Brasília, por um instante fez as pessoas lembrarem que o homem que desceu em frente ao Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Construção Civil e da Madeira de Vitória da Conquista já foi um dos mais poderosos da República. Mas, quando desceu do carro e passou a cumprimentar os militantes que estavam na entrada, esperando por ele há quase uma hora, viu-se que era apenas Zé Dirceu, militante como eles.

Aos 73 anos, José Dirceu de Oliveira Silva, está viajando o país para, aproveitando a oportunidade de lançar seu livro de memórias, “Zé Dirceu – Memórias Volume 1”, falar sobre o Brasil do presente, da preocupação com o futuro, sempre com um olho no passado, coisa que ele diz ter aprendido com Leonel Brizola.

Em outros tempos, o lançamento de um livro de Dirceu, ainda mais, supõe-se, a sua biografia, teria outra dimensão. Naquela noite de quarta-feira, 18 de dezembro – vestido em uma camisa polo vermelha, com a frase Lula Livre bordada no lado direito e a estrela do PT no esquerdo, por fora da calça jeans – Zé Dirceu foi apresentado, como isso fosse necessário, a cerca de 100 pessoas, num auditório acanhado, onde militantes do PT, alguns jornalistas e uns poucos que não eram nem uma coisa nem outra, ocupavam 72 cadeiras ou se encostavam nas paredes laterais e no fundo da sala.

ZÉ DA GUERRA

Por uma hora, Zé Dirceu falou da história do Brasil. Getúlio Vargas, Juscelino, João Goulart, Fernando Henrique, Lula, Dilma e Jair Bolsonaro. Rede Globo, também. Conhecedor do processo político brasileiro como poucos, ele mesmo personagem de vários momentos da história, Dirceu prendeu a atenção da plateia, que o ouvia em silêncio, à exceção das interrupções de um irrequieto Zé da Paz, que filmava tudo, gritava de vez em quando e reclamou que a palestra acabou cedo. No fim, quando se apresentou, Zé da Paz ouviu de um Dirceu já sentado, pronto para autografar os 36 livros vendidos naquela noite: “Prazer, eu sou Zé da Guerra”.

E era o Zé da Guerra que uma grande parte da plateia, talvez a maioria, queria ouvir ali. E ele até que falou, porém mais como estrategista, um Szu Tsu nacional, como disse um jovem petista presente, carregando na admiração. Mais de uma vez, deu indicações que o Zé da Guerra também estava presente, mas, tomado de cuidados. “Tem imprensa, tem que ter cuidado com o que fala”, “deixa eu parar, para não falar demais”, “peixe morre pela boca”.

No final, não quis falar para a imprensa, mas enquanto escrevia dedicatórias, explicou que evitava usar as mesmas palavras, mas o contexto de suas palestras em encontros como aquele ainda era o mesmo da entrevista dada à repórter Mônica Bergamo e publicado pela Folha de São Paulo, em 28 de abril do ano passado. (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/04/eu-nao-posso-brigar-com-a-cadeia-nem-me-render-vou-ler-estudar-e-fazer-politica-diz-dirceu.shtml)

A diferença, segundo Dirceu, é que, agora, ele mostra a necessidade da reorganização partidária, da retomada do ímpeto que fez o PT crescer. Ele disse mais coisas, deixou vazar sua mágoa com a ex-presidente Dilma Rousseff e com Fernando Haddad e, mesmo às vésperas das eleições municipais, que podem dimensionar a força dos partidos e ajudar a impulsioná-los para 2022, inclusive o PT, José Dirceu afirmou que não estava preocupado com as disputas nas cidades. Não quis opinar sobre Vitória da Conquista ou Itabuna, mas arriscou Ilhéus, onde foi hóspede do pré-candidato do PT, Nilton Cruz: “Lá vai ser bem difícil, os caras são bem organizados”.

Para aquele que foi considerado o mentor do crescimento do PT e de Lula e também o cabeça do famigerado mensalão, o que importa é a eleição presidencial. É chegar lá com sentimento de força e disposição para lutar. “O Brasil precisa de uma revolução. Política ideológica. Mas, isso não se faz no gogó. Precisa de organização. De fortalecimento das bases”, disse em tom grave.

PÉ NO CHÃO

Dirceu deixou claro que não se trata de esperar a eleição em 2022. Como na música de Geraldo Vandré, avisa aos cem militantes na sala que não dá para esperar, tem que fazer a hora. “Temos que pôr o pé no chão. Meu papel é esse. Depois de tantos anos, sou um sobrevivente, tenho experiência. Vivi todos os episódios políticos desde os anos 1950. Quero ajudar a reorganizar as forças, a preparar a luta”, afirmou diante do silêncio admirado da plateia, com exceção do “é isso!”, de Zé da Paz.

Para reagir com possibilidade de sucesso, José Dirceu diz que o PT e os partidos de esquerda devem compreender que o presidente Jair Bolsonaro não é burro em política. “Não pensa que Bolsonaro não tem cabeça política. Ele tem todos os defeitos, é preconceituoso, racista, misógino, mas pensa politicamente. E tem as Forças Armadas, que apoiam tudo o que Bolsonaro e Guedes querem”.

FORÇAS ARMADAS

Sobre as Forças Armadas, Dirceu dedicou uma análise sobre os riscos da presença delas na política. Acha que não vai acabar bem. “Não podem fazer política. Senão, vai perder a hierarquia e vão se dividir. Isso é perigoso”. Para ele, essa avaliação “não é ser contra as Forças Armadas, é ser contra o militarismo. Bolsonaro vive nos quartéis, fazendo política; colocando até a Polícia Militar para agir politicamente, isso não pode”, considerou o líder petista.

Para José Dirceu, as Forças Armadas estão deslizando para um ponto perigoso. E citou a reforma da previdência dos militares. Comentou contra as vantagens asseguradas por Bolsonaro e Guedes. “Não que os militares não mereçam uma aposentadoria especial. Merecem. Mas, professor também merece”, ressaltou. Neste ponto, Dirceu avisou que não valia a pena falar mais, considerou que o momento não era propício e citou a presença a imprensa.

Depois, disse ao BLOG que não era apenas isso, é que, segundo ele, uma avaliação política, racional, pode ganhar outra interpretação, apaixonada, e criar um impacto maior que o desejado para o momento. “Teremos uma eleição em 2022, vamos nos preparar para ganhar e devolver o país à democracia, às liberdades e ao desenvolvimento a que o brasileiro se acostumou nos governos petistas”, falou, em conversa informal com o jornalista Giorlando Lima. Antes, se dirigindo à plateia já havia mostrado confiança: “Eleição nós sabemos como é, sabemos como ganhar. Se Lula fosse candidato ganharia. Se ele estivesse solto, Haddad ganharia”.

REDE GLOBO

Até a imprensa que os militantes rebatem com fervor, com a Rede Globo no meio, tem papel nessa preparação para retomar o país da ameaça do conservadorismo prejudicial, fundamentalista, com setores da religião ajudando a fortalecer os atrasos, “não apenas os neopentecostais, mas também outras religiões, inclusive o catolicismo”, ressalvou Dirceu, ao que, Zé da Paz gritou: “Jesus bélico!”, levando o líder petista a demonstrar que, assim como os políticos, também conhece bastante da história de Jesus.

Dirceu comentou sobre a oposição de veículos identificados como direita ou centro-direita como a Folha de São Paulo e a Rede Globo. Ele chamou o posicionamento deles de posição liberal. Ressalvou que aprovam “toda parte econômica do Guedes, mas, não aprovam nada do que Bolsonaro fala”. Na visão de José Dirceu isso se dá porque “o que Bolsonaro faz pode levar a uma vitória da esquerda”. Mesmo assim, disse que os setores de centro-direita que reagem às atitudes do presidente da República “são empresários cosmopolitas, que têm uma visão diferenciada”.

Na verdade, não foi pouco o que Dirceu falou da Globo. Sem que fossem ataques. Disse ver que a emissora tem colocado no ar conteúdo que contrasta com o que pensam e desejam os defensores de Bolsonaro e os conservadores que não querem ver os brasileiros penando e agindo livremente, em defesa das liberdades dos indivíduos. “Temos, de um lado a Globo das novelas, do aborto, do casamento gay, e do outro, um setor conservador, com os religiosos, não apenas neopentecostais, mas também católicos”.

O conflito, de acordo com José Dirceu, remete ao que se viu na preparação do golpe de 1964 no seio da sociedade. “Vi as pessoas mandando desligar a Globo. Eu que não assistia, fui ver e entendi. Foi assim em 64. O golpe foi dado a partir do movimento Por Deus, Pela Família… Hoje, a Globo provoca esse pessoal”, pontuou. E o povo segue isso porque se identifica. “O povo brasileiro não é conservador. Um povo conservador não dá quatro mandatos ao PT”.

OLHAR PARA TRÁS E VER NA FRENTE

A história não é estanque, conforme as palavras de José Dirceu. Ele citou Leonel Brizola, ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de janeiro, com quem teria aprendido que o passado explica o presente. “Aprendi com Brizola a olhar para a história”.

Depois de escrever mensagens e assinar na primeira página da autobiografia, José Dirceu foi conhecer as instalações do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil lamentou o desemprego consequente da redução de investimentos na construção de casas populares do programa Minha Casa, Minha Vida, em seguida, despediu-se das poucas pessoas que ficaram depois dos autógrafos e deixou o local em companhia do amigo Dáurio, que fez as vezes de motorista. O destino era Itabuna, onde Dirceu repetiria a palestra que fez em Vitória da Conquista.

Sobre o painel do carro, o livro “21 lições para o século 21”, em que o autor, o brilhante cientista Yuval Noah Harari, trata do presente da humanidade e traz questões (e sugestões) sobre o mundo atual e o que pode ser feito para melhorá-lo. Olhando para trás, Dirceu propõe a mesma coisa: que os militantes do PT e da esquerda pensem o que pode ser feito para melhorar o que, agora, é considerado uma ameaça.

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Author: Giorlando Lima

Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 58 anos de idade, 42 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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