Conquistense que mora nos Estados Unidos teme que coronavírus devaste o Brasil e pede cuidado à família

“Oi, Giorlando, tudo bem?”. A mensagem chegou no WhatsApp de um número estranho. Vi pelo código do DDI, +1, que vinha dos Estados Unidos. A foto de perfil apareceu um pouco depois e mostrou que o contato é Robson Lemos, ator baiano, conquistense, que mora em Boston, capital do estado Massachusetts, nos EUA.

“Tudo bem meu nome eh Robson Lemos, sou de Conquista, mas moro em Boston. Sou filho de Enil Lemos, que faleceu semana passada”, prosseguiu ele. Eu pensei que ele iria me falar algo sobre o pai, que foi meu amigo e colega de profissão e trabalho. Disse a ele que sinto muito pela perda e esperei o que ele diria.

“Minha razão de te contactar eh que estou acompanhando os movimentos de prevenção do coronavírus aqui nos EUA e no mundo”, explicou, para em seguida manifestar sua preocupação com a família e amigos que moram em Vitória da Conquista. “E meus irmãos e amigos de Conquista ainda não entenderam a seriedade. Estou muito preocupado”.

Respondi que a presença do coronavírus entre nós é mesmo motivo para muita preocupação e que só a informação possibilita a compreensão dessa gravidade. Foi quando ele demonstrou toda a sua angústia e disse temer que, no Brasil, as consequências sejam devastadoras. “Olha só, o Brasil não está preparado e vai ser devastado por isso!”.

Robson, então, passou a narrar o quadro na cidade americana onde ele mora. “Aqui, já estou há 10 dias sem sair de casa. Tudo parou, só mercado e farmácia [funcionam]”.

Eu sabia do que ocorre nos Estados Unidos. Meu filho e minha nora moram em Emeryville, na região de São Francisco, Califórnia e vem falando comigo das medidas. A região onde ele vive teve quarentena decretada no dia 16 deste mês e deve durar por, pelo menos, três semanas. Os Estados Unidos contavam, até as 14h00 deste sábado (21), 22.132 casos confirmados do coronavírus e 282 mortes. Mesmo assim, diante do assombro legítimo de Robson, eu tentei ser confortante sobre o Brasil. “Vai ser devastador, não. Confie”.

Mas, ele, que trabalha com saúde pública e prevenção em Boston continuou, naturalmente, muito angustiado e com a certeza de que o nosso país será devastado. A Bahia e Vitória da Conquista, sem dúvida. “Vai amigo [ser devastador]! As pessoas precisam entender isso. E as autoridades precisam fazer uma campanha”. Eu tentei manter o tom ameno, embora, intimamente, compartilhasse do desespero dele: “Acredito que sofreremos muito. Mas, amigo, esse seu desespero não deve ser amplificado”, eu disse, pensando em que a mensagem pudesse deixar outras pessoas muito mal.

“Não estou desesperado – falou – Eh só precaução… Faz parte do meu comportamento adquirido nos EUA, trabalho com saúde pública e prevenção”, explicou, para afirmar que “o Brasil só vai acordar quando tiver fora do controle”.

Foi quando escrevi a minha maior mensagem, meio verdade, meio mentira, meio informação, meio fé. “O governo federal está tomando medidas, sim. Esqueça o presidente. Os Estados Unidos estão em quarentena há dez dias e tem 10 mil casos a mais, 100 mortes a mais. Do ponto de vista de acordar, acordamos antes. As fronteiras foram fechadas, os limites estaduais. As ruas estão vazias aqui na cidade, as autoridades suspenderam aulas, festas, reuniões, as pessoas estão trabalhando em casa (as atividades que permitem)”, listei.

Depois, perguntei se poderia fazer uma matéria com suas preocupações dele e ele concordou, porque está certo de que seu apelo pode ajudar mais pessoas a encararem a situação com a gravidade que ela exige, inclusive a família e os amigos dele. “Por favor!”, disse e enviou um áudio contextualizando a preocupação dele:

“Aqui, qualquer teste que uma pessoa faça, os dados ficam compilados no sistema de saúde, o governo sabe quantas pessoas estão infectadas por alguma doença no bairro tal, se é mulher ou homem, se é negro, se é americano, se é indiano, enfim… Há tecnologia para ajudar no controle da doença. Eu sei que no Brasil é muito mais difícil. Como criar dados em um lugar nem quem mora, invasões, favelas? Os dados no Brasil não são 100% corretos, por conta da disparidade demográfica, geográfica, social, econômica. Por conta dessa miséria toda que existe no Brasil, mais a questão de falta de respeito com leis – as igrejas, por exemplo, vão fazer isso -, o Brasil é um país potencialmente aberto para uma grande crise em relação a esse vírus. Essa é a minha preocupação”.

Robson Lemos, morando longe do Brasil, está agoniado, como dizemos aqui e eles não falam nos Estados Unidos. E tem muita razão. Também ficaremos muito agoniados, se a gente pensar que Vitória da Conquista é a referência em atendimento dos casos graves da região (Hospital de Base), o que significa que as UTIs daqui é que serão usadas por quem, eventualmente, adoecer gravemente do Covid -19 na região. Mas, a capacidade é muito pequena. Sobre isso o BLOG tratará mais tarde.

Author: Giorlando Lima

Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 58 anos de idade, 42 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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