A participação popular/quilombola no Enem 2020

O Enem é a porta… E o pedido de isenção é a chave

Flávio Passos

Professor da Rede Estadual de Ensino do Estado da Bahia, integrante da coordenação do Pré-Vestibular Quilombola de Vitória

Completamos o primeiro mês de distanciamento social, recolhidos em nossas famílias e comunidades, no cuidado mútuo. E, neste clima de Páscoa, passagem para uma vida nova, começamos a nos perguntar sobre quando e como sairemos dessa crise de dimensões mundiais.

E, em boa medida, a forma que viermos a atravessar este período de crise dirá bastante da maneira que reconstruiremos as nossas vidas após a Covid-19. É hora de nos “aquilombarmos”, como nos recorda a professora Nilma Lino Gomes.

No dia 17 abril, sexta-feira, encerra-se o prazo para o pedido da isenção de taxa de inscrição do Enem 2020. Sem divulgação alguma, e em pleno isolamento social.

Há tempos que a participação no Exame Nacional do Ensino Médio passou a ser a porta de entrada para o ensino superior, bem como, a possibilidade de alargamento da cidadania para milhões de estudantes brasileiros.

No entanto, o acesso à gratuidade da taxa, única garantia de participação no ENEM, para mais da metade dos participantes, está ameaçada. Em muitas localidades, urbanas e rurais, o acesso à internet já é a primeira barreira. Fora a burocracia.

Devido aos impactos da quarentena, defendemos, além da prorrogação de todos os prazos, a isenção automática da taxa do Enem, no ato da inscrição, para todos os estudantes oriundos de escola pública, como era, até 2016. Pois, se o Enem é a “porta”, para os estudantes de baixa renda a isenção de taxa é a chave que destranca essa porta.

Este texto destina-se especialmente aos estudantes das mais de 4 mil comunidades quilombolas do país, 811 delas na Bahia, principalmente para quem está no terceiro ano, ou já concluiu o ensino médio. E também às comunidades das periferias urbanas, onde resiste grande parte da população negra do país.

Uma forma guerreira de atravessar de cabeça erguida este momento é alimentar um projeto de ingresso no ensino superior. A inspiração? Aquelas e aqueles que, por séculos, enfrentaram a pandemia da escravidão e lutaram contra o racismo para que estivéssemos aqui hoje alimentando sonhos de uma sociedade diferente da que temos.

Brasil adentro, uma silenciosa revolução tem marcado a vida de centenas de famílias e comunidades quilombolas, e de dezenas de universidades públicas. Anualmente, milhares de estudantes quilombolas ingressam no ensino superior, através das cotas adicionais, em todas as áreas do conhecimento.

Na Bahia, na grande maioria das universidades estaduais e federais, além das cotas para estudantes de escolas públicas e para negros, uma ou duas vagas extras são destinadas, em cada curso, exclusivamente para grupos sociais que sofreram opressões históricas diversas, dentre eles, os moradores de comunidades quilombolas.

O desafio posto é que a possibilidade de ocupação da maioria dessas quase 700 vagas está diretamente relacionada com a crescente participação quilombola no Enem.

Em tempos de novo coronavírus, é urgente o entendimento de que conhecimento é poder. E acessar o conhecimento é uma estratégia para nos mantermos vives e fortes enquanto povo, enquanto comunidades que resistem, livres da opressão e do retrocesso.

Desde o dia 06, muitas comunidades quilombolas estão mobilizadas, com as lideranças, as associações, com professores, e com a força da galera universitária quilombola, em mutirão, na divulgação e no apoio a quem deseja solicitar o pedido de isenção da taxa. O momento de garantir a participação no Enem 2020 é agora!

Esperamos que o MEC reveja o calendário do Enem 2020, e flexibilize o critério de concessão da isenção de taxa, considerando o grave contexto da Covid-19. Caso contrário, a exclusão será gritante.

Nestes tempos difíceis, de incertezas, mas também de reconstruções, faz muito bem lembrarmos da velha canção: “quem sabe, faz a hora, não espera acontecer”.

Enquanto isso, cada pedido de isenção que ajudarmos realizar, remotamente, é uma forma de afirmarmos nossa fé na vida vencendo a morte, e de reafirmarmos o conhecimento enquanto uma das mais eficazes “chaves” para o desenvolvimento e a emancipação popular e quilombola.

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Author: Giorlando Lima

Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 58 anos de idade, 42 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

1 thought on “A participação popular/quilombola no Enem 2020

  1. Esse tipo situação, prejudica muito todos os estudantes, principalmente o da rede pública, que no tem condição de acesso à Universia por outra forma, já que o Enem e um dos exames com maior aproveitamento tanto nacionalmente como internacinalmente da nota, sem contar que um dos critérios para a utilização da isenção isenção de taxa para ano que vem de que fez a prova oficialmente nesse ano, e ter conseguido a intenção este ano, então isso não só prejudica a presentes como também as futuras chance que alunos de todo tipo de nessecida de acesso podem ter para fazer sua inscrição

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