Coragem, Herzem! Está dando certo

Nos últimos dias, o governo municipal entrou em mais uma de suas peculiares polêmicas, ao atacar o Governo do Estado, justamente quando este havia assinado um contrato superior a R$ 7 milhões para mais que dobrar a quantidade de leitos de UTI dedicados a casos graves do novo coronavírus em Vitória da Conquista. Aconselhado pela assessoria, o prefeito Herzem Gusmão, ele mesmo impetuoso, repetindo o comportamento que lhe tornou célebre no rádio, foi para cima do secretário estadual de Saúde, Fábio Vilas-Boas, e do próprio Rui Costa, acusando-os de terem confiscado cerca de R$ 700 mil que o Governo Federal teria enviado para o município. Herzem estava certo e errado sobre o assunto.

O acerto: De fato, havia um repasse de R$ 2,00 por habitante destinado ao município. O erro: Mas, a Comissão Intergestora Bipartite (CIB), que gere os recursos da saúde decidira, em reunião à qual o secretário municipal não compareceu (disse que não foi convidado), que, à exceção de Salvador e Feira de Santana, os recursos dos municípios seriam geridos pelo Governo do Estado.

Isso foi o que disseram Fábio Vilas-Boas e Rui Costa. O governo municipal, entretanto, não aceitou. Herzem mandou processar o Governo do Estado, e o secretário Alexsandro Costa gravou uma resposta dura dirigida ao governador, em que pediu respeito e chamou de chantagem a fala feita por Rui no dia anterior afirmando que repassaria o dinheiro reclamado pelo prefeito se o município assumisse o contrato com o Hospital de Clínicas de Conquista (HCC). Com a pressão cada vez maior, o secretário teve picos de hipertensão e dois dias depois pediu demissão, deixando o cargo, em plena dupla crise (do coronavírus e política) com a interina Ramona Cerqueira, uma espécie de reserva qualificada da Secretaria Municipal de Saúde.

Em se tratando do governo do MDB na Prefeitura de Conquista não dá para dizer que as polêmicas acabaram, principalmente porque não faltam adversários interessados no desgaste do prefeito Herzem Gusmão, a pouco mais de cinco meses da eleição (se o calendário for mantido). De olho na eleição e no lugar do prefeito, rivais de vários partidos aparecem de todo lado, com denúncias, notas públicas, memes. Herzem também ajuda. Fez um comitê para definir as ações de enfrentamento do coronavírus apenas com cinco secretários, deixando de fora o Conselho Municipal de Saúde – órgão legítimo de deliberação das políticas municipais de saúde – e a Câmara de Vereadores, a cujas queixas à condução das ações e apelos para fazer parte do colegiado o prefeito tem dado de ombros. Age como se não fosse com ele.

Isso sem contar que hoje esteja reclamando do prefeito uma parcela bem grande do pessoal que o elegeu em 2016. Gente do PIB, ao qual Herzem teceu incansáveis loas, foi fazer protesto na porta da casa dele, com carros de som e palavras de ordem pedindo a reabertura do comércio. Também pararam em frente da prefeitura algumas pessoas ligadas ao setor evangélico para orar pela cidade – e pelo funcionamento das lojas, segundo os blogs do Massinha e do Anderson

No meio da semana, em entrevista a uma rádio da cidade, um secretário deixou no ar indicativos de que o decreto que o prefeito assinaria no domingo (19) poderia  decidir pela reabertura do comércio. O secretário deu o exemplo de Barreiras, onde a lojas chegaram a ser fechadas, mas voltaram a ser abertas. De acordo com o Blog do Anderson, o secretário defendeu alternativas para funcionamento do comércio em Conquista. “Barreiras está dando um bom exemplo de como deve ser feito”, teria dito o secretário. (Em tempo: Barreiras tem um caso de Covid-19, registrado há 27 dias. Conquista já tinha 20 e um óbito no dia da entrevista do secretário).

Mas, para alívio da grande maioria da população, que teme a proliferação do coronavírus, que até as 16 horas desta segunda-feira (20) já tinha infectado 23 pessoas no município, Herzem não seguiu a dica do secretário, nem cedeu à pressão dos comerciantes que foram para a porta de sua casa pedir que o comércio fosse aberto. Aos evangélicos, ele pediu mais um tempo. Há que se considerar que a atitude do prefeito foi uma demonstração de coragem e de compromisso.

Aliás, mesmo com as típicas polêmicas e os seguidos desgastes, como se fossem atos de autossabotagem, o prefeito vem de tomar medidas fundamentais para o controle da pandemia em Vitória a Conquista, a ponto de já ter sido elogiado por adversários como a ex-presidente do Conselho Municipal de Saúde, Monalisa Barros, com quem teve intenso embate no ano passado, por conta da Policlínica.

Herzem foi um dos primeiros prefeitos do Brasil a determinar suspensão de aulas (na rede municipal e privada a até em faculdades), fechar temporariamente academias de ginástica, casas de espetáculo, cancelar o São João, limitar quantidade de passageiros no transporte coletivo, etc. E, mesmo levando em conta a titubeada que ele deu ao reabrir o comércio uma vez e acabar voltando atrás, na próxima quarta-feira (22) completa um mês que o comércio e serviços considerados não essenciais estão temporariamente suspensos. E agora, mesmo os que funcionam terão que cumprir regras, como só deixar entrar quem estiver usando máscara e ainda assim em quantidade limitada.

Os números do coronavírus em Vitória da Conquista surpreendem, considerando o porte da cidade e suas condições geográficas e climáticas. Dizem que a quantidade de casos confirmados é pequena porque não há testes e ocorre subnotificação. Pode ser. Mas, também pode ser porque a cidade vem se esforçando para cumprir as recomendações do isolamento e isso a partir da iniciativa do poder público, leia-se, decretos assinados por Herzem Gusmão. Por isso, não são poucos os conquistenses que desejam que o prefeito se mantenha firme.

É possível encontrar meios de ajudar (com medidas fiscais) os comerciantes que estão perdendo com a restrição das atividades comerciais – que ainda não chegaram a um mês, frise-se. Talvez seja a hora de ouvir a Câmara de Vereadores e outras instituições acerca disso, mas a maioria dos conquistenses tem certeza de que não é hora de mudar o que vem dando certo. Coragem, Herzem.

Author: Giorlando Lima

Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 58 anos de idade, 42 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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