Em tempos de coronavírus: a voz orienta e ajuda

Por Nanda Feminella
Graduanda em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB)

 

 

 

“Fica aquele receio. A gente pede ajuda pro povo, o povo não quer ajudar a gente. A gente fica com medo do povo ajudar a gente. Um com medo de encostar no outro”, quem diz é Thiago Moreira, aos 22 anos de idade. Thiago nasceu com glaucoma congênito, uma doença rara nos olhos causada pelo aumento da pressão dentro do olho. O estudante enxergou até os sete anos de idade, e depois, perdeu a visão totalmente. Thiago é natural de Itapetinga, mas mora na terceira maior cidade da Bahia, Vitória da Conquista, desde 2010.

A cegueira faz de Thiago parte das estatísticas1. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), de 2010, cerca de 45 milhões de pessoas declararam possuir algum tipo de deficiência. Entre as declaradas, a mais comum foi a visual representando 3,5% da população brasileira. No país, cerca de 6,5 milhões de pessoas declararam ter dificuldade severa ao enxergar, e 143.426 pessoas disseram que não conseguem ver de forma alguma. Thiago não enxerga. Nada.

Em tempos de pandemia de Coronavírus – um pequeno, invisível e devastador vírus-, responsável pela mudança de hábitos em todo o mundo, faz deficientes visuais, que por muitas vezes são esquecidos pela mídia, enfrentar muitas dificuldades com essa mudança. Thiago é um deles. Diante do Coronavírus, o jovem precisou mudar sua rotina que até antes das orientações de isolamento físico, era autônoma. Ele conta que se for necessário sair de casa, precisa estar acompanhado por alguém da família. Algo que não precisava anteriormente à pandemia. Mudou de hábito. É necessária a companhia, pois como o toque está limitado, precisa de alguém para ver por ele. Para Thiago, nunca foi fácil lidar com o desconhecido nas ruas, mas pelo menos, não corria risco de ser infectado pelo vírus trazido para seu corpo, por meio do toque. Tatear uma superfície nunca foi tão perigoso como agora.

Os deficientes visuais se tornam parte do grupo de risco em meio à crise do Coronavírus, por utilizar o tato como uma das principais formas de conexão com tudo que os cercam. Segundo Thiago, ações simples como entrar em um ônibus, passar pela catraca e sentar em uma poltrona, se tornaram difíceis. Principalmente devido a reforma do terminal2 de ônibus coletivo, localizado na Avenida Lauro de Freitas, responsável por alterar os itinerários e pontos de embarque e desembarque por toda a cidade em meio à crise mundial. Ou, ir ao banco, casa lotérica ou supermercado. É necessário tocar. É necessário o tato. É necessário reconhecer o espaço. Para as pessoas cegas, o risco e exposição de contaminação se tornam mais acentuados. Há medo. Há vulnerabilidade. E não há ajuda.

Thiago comenta que ser ajudado por outra pessoa, em tempos de Coronavírus, é muito difícil. Talvez, o receio em ajudar seja pelo medo de se tornar parte do número de infectados, pelo novo vírus, que tanto vemos nos jornais. No dia 27 de abril de 2020, às 11h00, no Brasil havia 62.859 confirmados e 4.271 mortes. E na Bahia, 2.209 confirmados e 73 mortes. Todos pelo Coronavírus. Mas para Islânia Almeida, 24, bancária e estudante, a ajuda aos cegos ainda pode acontecer, mesmo em meio à pandemia. “Acho que está na hora da gente começar a ajudar falando mesmo. ‘Olha, aí tem um obstáculo’. Ou até ir junto, mas não necessariamente tocar. Não ficar junto demais, mas ficar perto”, diz.

Islânia é natural de Jequié, e não encontra com a família há mais de um mês. Morando em Vitória da Conquista, percebe como as pessoas estão reticentes em ajudar. A bancária utiliza uma bengala como extensão do seu corpo, mas a ferramenta só transmite informações dos objetos que estão localizados do seu umbigo para baixo. Devido a isso, é comum usar a mão ou o braço como proteção superior. Precisa tocar. Precisa de auxílio. Ela conta que para os cegos, atividades comuns como atravessar as ruas, tornam-se muito difíceis. Não há ajuda. Há medo. Da mesma forma que a pandemia nos fez entender que podemos realizar mudanças radicais, como fechar escolas, restaurantes, empresas, shoppings – e em tempo recorde -, é possível revelar que também podemos ressignificar a forma como ajudamos o outro. Para Islânia, é possível auxiliar por meio das palavras. É possível orientar. O outro existe. E os cegos, precisam dessa ajuda quando necessitam sair de suas casas.

Nos dias atuais, a empatia torna-se exigência e o cuidado também. Para os cegos, andar com álcool em gel sempre no bolso, para ser utilizado após tocar as superfícies, é mais que necessário. Para os visuais, a voz, para ser emitida como forma de auxílio é sempre bem-vinda. O vírus nos fez entender que dependemos uns dos outros. E os cegos, aqueles que muitas vezes são esquecidos, também.

O esquecimento dessa parcela da população é tão presente em meio a pandemia, que Islânia faz uma observação. Enquanto a pandemia acontece, deseja realizar cursos pela internet, assim como outras pessoas vem realizando, mas lá, também é esquecida. “Lamento que, muitos deles [sites], não sejam acessíveis aos deficientes visuais”, ela fala. Thiago conta, aquele que também faz parte do grupo dos esquecidos, que assim que a pandemia passar, vai retornar à sua rotina de autonomia. Liberdade. Além de “poder sair [de casa] sem estar desconfiado”, fala. Enquanto a liberdade não chega, a voz pode e precisa ser utilizada. Para ajudar.

1 http://www.lmc.org.br/?page_id=141

2 http://www.pmvc.ba.gov.br/reforma-da-estacao-lauro-de-freitas-confira-mudancas-nos-pontos-de-onibus-a-partir-desta-quarta-1o/

Author: Giorlando Lima

Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 58 anos de idade, 42 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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