Foi coronavírus? | Dar uma resposta rápida à família de quem morreu com suspeita de Covid-19 é uma questão de dignidade

O mundo chorou ao ouvir o lamento de filhos, netos e parentes que não puderam dar adeus a entes queridos que perderam a vida por causa do novo coronavírus, causador da doença denominada de Covid-19, que já atingiu três milhões de pessoas, matou 210 mil no mundo e só no Brasil mais de 4.500. Alguns poucos tiveram a “sorte” de poder trocar as últimas palavras por meio de um aplicativo de computador ou celular. Só isso.

As imagens na TV mostraram caixões saindo de hospitais, lacrados, direto para os cemitérios, em cidades da China e da Europa. Os familiares em prantos, de longe, sem poder se despedir. Logo seria assim também nos Estados Unidos. Na América do Sul o nosso choro foi pelas pessoas que morriam nas ruas, seus corpos sobre a sarjeta, em países como o Equador. Isso anteontem. Porque ontem vimos covas coletivas sendo abertas em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Manaus, em Belém… Corpos em caminhões frigoríficos esperando a hora de serem enterrados. Enterros coletivos, sem que os parentes soubessem qual era o caixão do ente querido que a Covid-19 matou.

Na Bahia, até as 17h00 desta segunda-feira (27) morreram 83 pessoas de 22 cidades, nove em 24 horas. Vitória da Conquista tem um óbito registrado e dois sob suspeição. A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) divulgou que os casos estão sendo investigados. Os pacientes estavam internados em hospitais particulares da cidade. Tinham os sintomas, comorbidades e morreram com o agravamento de problemas respiratórios.

Um dos óbitos foi de uma mulher moradora da Patagônia, mãe, 62 anos. Poucos familiares puderam ir ao Cemitério do Kadija para acompanhar o sepultamento da esposa, mãe, irmã… A restrição imposta pelo risco de serem contaminados, se somou à restrição (necessária) determinada por decreto municipal, que proíbe mais de dez pessoas nos enterros. E não pode ter velório.

É triste pensar nisso. Narrar também é. A pessoa morre só, é colocada em um saco mortuário, a funerária recolhe, coloca em um caixão lacrado e avisa à família a hora que chegará ao cemitério. E os poucos que podem estar lá ficam vendo de longe o momento em que o ataúde desce à cova. Um adeus que já seria triste de qualquer jeito. Todo mundo sabe a dor de perder alguém. Perder o pai, perder a mãe. Mas, não somos capazes de sentir o que sentem os que não podem ver o rosto do familiar amado antes de nunca mais vê-lo. É só um corpo, podem dizer. Mas, sabemos que para a imensa maioria da humanidade não é só isso. Os rituais de despedida, em todas as religiões, comprovam. Não é fácil perder, se despedir e ver sumir uma coisa material de estimação, quanto mais o amor da vida.

Quem quer perder o pai, a mãe, o filho, avó, avô, tio, primo, amigo e não poder se despedir, pela tradição, pelo sentimento, pelo desejo de poder estar perto o maior tempo possível antes do nunca mais, do sumiço para sempre? Mas, quem perde uma pessoa para a Covid-19 não pode. Nenhum ritual. Nem velar. Nem abrir a janelinha do caixão e olhar pela última vez. A homenagem possível são as lágrimas. E o cuidado para ficar bem.

Mas, e quando não é a Covid-19 que mata e mesmo assim as pessoas ficam em casa, angustiadas, com medo, temendo serem as próximas a morrer, porque próximas estiveram da pessoa que faleceu e recebeu a etiqueta de “suspeita de Covid-19”? E mesmo quando não é o coronavírus que mata, mas filhos, maridos, parentes, não podem fazer o velório? E quando dizem que pode ter sido o coronavírus e confinam as pessoas em casa, assustadas, evitando sair não apenas porque não devem se expor ao vírus ou expor aos demais, mas porque na rua as pessoas evitam chegar perto delas, com medo de serem infectadas e de morrerem, “como a mãe”?

E o que dizer quando uma família perde a mãe, passa o constrangimento de ver o atestado de óbito dela exposto nas redes sociais, as pessoas comentando sobre ela ter morrido com coronavírus, passar por tudo o que o foi destacado acima, a perda do direito de se despedir, de velar a mãe, de lhe dar um enterro decente, e ainda ficar 26 dias sem saber se foi mesmo a Covid-19 que a matou, o que representaria, pelo menos, o alívio de se saberem não contaminados, sem contar que isso responderia aos que os trataram de um jeito diferente nesses dias, porque eles poderiam estar com a mesma doença da mãe?

Pode parecer pouco ou nada para muita gente. Mas, a família de Lucimara Oliveira Santos, que morreu aos 47 anos, no dia 31 de março, no Hospital Geral de Vitória da Conquista, passou por tudo isso. E esperou o resultado do teste que diria se a morte dela teria sido mesmo causada pelo coronavírus. Ainda espera. Os filhos já sabem que o teste deu negativo. Mara não morreu de Covid-19. Poderia ter recebido um funeral decente. Não pôde ser. A família poderia ter recebido o resultado em casa, um telefonema, uma mensagem de WhatsApp, um recado. Mas, não. É como se o governo, a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab), o Hospital Geral de Vitória da Conquista (HGVC), a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), um só deles ou todos juntos, tivessem agido para deixar morta a dignidade daquela família.

A família de Lucimara Oliveira Santos só soube que a mãe não tinha Covid-19, 26 dias depois que lhe prometeram informar o que realmente teria ocorrido, porque foi avisada pelo jornalista que faz este BLOG, que, por sua vez, foi informado, no domingo, pela Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Vitória da Conquista, depois de ter cobrado muito da SMS, embora a responsabilidade primeira e maior de informar à família sobre o resultado do exame seria da Sesab, representada pelo Núcleo Regional de Saúde. Ninguém o fez, no entanto.

Hoje, há outros dois casos de óbitos tendo como causa suspeita a Covid-19 na cidade, segundo a Prefeitura de Vitória da Conquista. O primeiro óbito ocorreu na última quinta-feira (23) e o segundo no domingo (26), do qual falamos acima. Quem acompanham os boletins da Sesab sabe que os resultados demoram. Em 27 dias, o Laboratório Central da Bahia (Lacen) realizou pouco mais de 15 mil exames, uma média de cerca de 573 por dia. No domingo, às 15h00, havia 1.840 exames aguardando resultado. Na segunda chegou uma quantidade parecida. Isso pode significar que as famílias das duas pessoas falecidas poderão esperar muitos dias para saber do que morreram os entes queridos.

Ou não.

Considera-se que não haja privilégios quanto aos exames e laudos, pode-se, entretanto, pensar que saber se uma pessoa morreu ou não de coronavírus faz muita diferença para a população da cidade, cheia de medo e desconfiança. Mas, principalmente, pode-se levar em conta o sentimento da família e a dignidade que há em abreviar ao máximo a dúvida sobre a razão do falecimento. É digno para a história da pessoa.

Não seria escandaloso, corrupto ou condenável priorizar os laudos dos exames de quem morreu com suspeita de coronavírus, deixando, além de muita tristeza, incerteza e preconceitos. Dá para fazer diferente com o que fizeram com a família de Mara, do que fizeram com a história dela e dos seus filhos, que tiveram de ficar longe da mãe na sua despedida, distanciada, medrosa, cheia de proibições e não receber um único telefonema que lhes confirme a certeza – que todos intimamente preservavam – de que a mãe não tinha Covid-19.

Dá para furar a fila quando a emergência é a dignidade.

 

Author: Giorlando Lima

Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 58 anos de idade, 42 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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