Coronavírus: Secretaria de Saúde de Vitória da Conquista é alvo de críticas: “Não dão atenção a nossas queixas”

Jequié tem 155.966 habitantes, Itabuna 213.223 e Ilhéus 162.327 moradores. Os três municípios registraram, respectivamente, até as 17h00 de quarta-feira (29), 54, 192 e 193 casos confirmados da Covid-19. Vitória da Conquista tem, de acordo com o IBGE (2019), tem 338.480 habitantes e registrou até a mesma data 31 casos. Jequié fez 874 notificações de casos suspeitos, Itabuna fez 1.130 e Ilhéus 3.179. Vitória da Conquista notificou 610 situações.

Jequié ainda não registrou óbito, Itabuna e Ilhéus, tiveram quatro e cinco mortes por Covid-19, respectivamente. A taxa de letalidade de Ilhéus é de 2,6%, de Itabuna 2,07% e de Vitória da Conquista, 9,67%, maior que a de Salvador, que tem o maior número de óbitos causados por coronavírus na Bahia e abaixo apenas de Lauro de Freitas, que é de 10,6%.

A taxa de letalidade joga por terra um argumento recorrente no governo municipal para explicar a pequena quantidade de notificações e pacientes com a doença, de que se houvesse uma proliferação do coronavírus haveria muito mais gente em estado grave e seria alto o percentual de mortes. E é. Por isso, a cada diz cresce o sentimento de que Vitória da Conquista está sendo vítima de uma condução equivocada do problema, que estaria sem controle. E culpa ora recai sobre a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab), ora sobre a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), quase sempre sobre ambas, que travam uma guerra de palavras e de repasse de responsabilidade.

A Prefeitura de Vitória da Conquista admitiu a subnotificação em nota, atribuindo o problema ao Governo do Estado que “tem enviado, semanalmente, para Conquista uma média de 40 kits para coleta de amostra, um número insuficiente para o tamanho da população”, e diz que situação mudará com a chegada de sete mil testes rápidos comprados pelo governo municipal. O Estado não se manifestou. O fato é que a média de coletas não passa de seis por dia.

Independentemente dos testes dois outros pontos têm sido alvo de desconfiança: 1. Por que as notificações são tão baixas? Estará a SMS desconsiderando os informes dados por pessoas com os sintomas e notificando apenas os casos que considera sérios? Sendo assim, isso esconderia a realidade. 2. Por que pessoas que se queixam de sintomas fortes, não estão sendo testadas ou suas queixas notificadas como suspeita? Finalmente, chegamos a um ponto que tem gerado, mais do que desconfiança. indignação.

E essa indignação tem sido manifestada nas redes sociais e causado comoção. Um dos exemplos mãos contundentes é o do advogado e empresário Bruno Melo que fez uma live no Facebook na manhã de ontem denunciando o que teria sido descaso da Secretaria Municipal de Saúde de Vitória da Conquista. No vídeo, compartilhado por centenas de pessoas nas redes, Bruno diz que está acamado há 11 dias, com fortes sintomas de Covid-19, situação que, segundo ele, é conhecida da SMS, que não deu a devida atenção ao seu caso.

Ele conta que ligou mais de uma vez para a SMS, “para um daqueles sete números”. Em uma oportunidade ouviu da pessoa que atendeu a ligação que ele receberia um telefonema, mas não faria o teste para saber se estava ou não com a Covid-19. “Uma pessoa me atendeu e eu perguntei que hora vai fazer minha coleta? Me respondeu: ‘o pessoal vai lhe ligar, e de antemão aviso logo ao senhor: não temos testes suficiente. Nossa prioridade é os médicos e aquelas pessoas que ligam para cá e não conseguem completar uma frase’.”

O empresário diz que a secretaria está com um “leva e traz” com o caso dele, que não foi nem notificado. “O que está acontecendo aqui em Conquista, está acontecendo no Brasil todo. Como eu vou confiar nesses 30 casos que a Prefeitura passa. O meu não está constando. A minha notificação não está constando. Não recebi nenhuma ligação da Secretaria de Saúde de Conquista. Para que o Disque Covid-19? Não contem com isso, não. Se você ama seu pai, sua mãe, seu esposo, sua esposa, o seu filho, preste atenção no que vou dizer: ou você tem dinheiro para pagar, porque se você ficar à mercê da saúde pública de Vitória da Conquista você morre”.

Bruno Melo não é o único a reclamar da falta de atenção da Secretaria Municipal de Saúde. Quando o BLOG fez matéria sobre a queda nas notificações uma leitora protestou contra os números divulgados e afirmou, como Bruno, que foi abandonada pela SMS. Naquele dia, a Prefeitura de Vitória da Conquista informou que havia 26 pessoas aguardando para fazer coleta de material para o teste. Ele perguntou, em mensagem privada ao editor do BLOG: “Será que que não tem 26 testes? Sim”.

“ACHEI QUE IA MORRER SOZINHA”

A leitora expressou sua indignação por ter adoecido, procurado a secretaria e não ter recebido a ajuda que esperava. “Passei pela curva de risco, me sinto curada, fiz os procedimentos via internet com pessoas amigas, não tive nenhum auxílio do governo, a não ser o FIQUE EM CASA. Fiquei, mas, por eles, eu teria morrido, porque eles não tomam nenhuma providência”, contou, afirmando que as autoridades mandam ligar para o 155, quando recebem conselho para tomar paracetamol e ficar em casa. Em sua mensagem ela falou que na unidade de saúde onde a mandaram ir, percebeu que as pessoas não sabiam direito como agir, nem mesmo para onde encaminhar o caso dela.

“Arruinei muito. Liguei para a secretaria municipal, me mandaram procurar o posto de saúde mais próximo. Sem condição nenhuma, lá fui eu, médico completamente despreparado para receber esse tipo de paciente, só com uma máscara, funcionários também, aí te examina, te passa medicamentos e a pergunta do médico para uma funcionária: ‘mando ela pra onde?’ Ninguém sabia. Por fim, voltei pra casa, achei mesmo que eu iria morrer sozinha aqui, depois de ter passado pela prova de fogo. SOBREVIVI. Graças a Deus em primeiro lugar, e depois a amigos: uma psicóloga, uma fisioterapeuta, e um médico, todos meus amigos”.

Para a leitora, o governo está preocupado com estatística e teme que a situação em Vitória da Conquista chegue perto de cenários como o da Itália, onde morreram milhares de pessoas por causa do coronavírus. “Aí. te pergunto: o que o governo fez? Estatística. Eles só querem saber se você está ou não com a doença, NEM TESTE PRA TODOS TEM. Perguntei pra moça se aqui tava igual a Itália, escolhendo quem morre, era isso? Ela me olhou, abaixou a cabeça e repetiu: NÃO TEM TESTE PRA TODOS. Bom, fiz o teste dias depois que passei por tudo, TÔ VIVA”.

PROFISSIONAL DE SAÚDE

Outra leitora, profissional da área de saúde, disse que ela teve os sintomas do novo coronavírus, comunicou à Secretaria Municipal de Saúde, mas não foi testada e teve que ficar em casa, por conta própria, sem qualquer contato da Vigilância Sanitária. Segundo ela, mais gente passou pela mesma situação, inclusive um colega de trabalho. A leitora, de quem vamos preservar a identidade, como fizemos no caso anterior, comentou que se isso acontece com profissional da área de saúde, deve ocorrer ainda mais com outras pessoas.

“Isso [as baixas notificações] é porque só fazem teste em casos graves. Se fizessem em todo mundo que tivesse sintoma respiratório teria mais casos [confirmados]. Eu tive sintomas. Fiquei em isolamento por 14 dias. A vigilância só entrou em contato comigo no último dia para avisar que eu já estava de alta. Nesses 14 dias ninguém entrou em contato para monitorar e nem para fazer o teste”, contou.

“O mesmo aconteceu com um colega de trabalho. Ficou em isolamento e ninguém falou sobre a coleta de teste e olha que trabalhamos na área de saúde”, destacou. Perguntamos a ela se a SMS não notificou o caso? E se acreditaram na sorte para deixar a pessoa em casa e só ligar avisando que ela estava de alta, sem testes ou exames. “Pois é. E eu tive febre. Dificuldade pra respirar. Cansaço. Congestionamento nasal. E fiquei 14 dias em casa com minha família e ninguém ligou. Eles notificaram. Mas não ficaram monitorando e nem vieram ou sequer falaram do teste”.

Apesar da profissional de saúde dizer que o caso dela foi notificado isso dificilmente ocorreu, já que os casos notificados apresentados nos boletins da SMS sempre correspondem a casos que aguardam coleta, feita depois da notificação. Ela não passou pelo teste. Ou seja, ela teve a Covid-19, mas não foi seu caso não foi lançado por falta do teste. A leitora acha provável. “O problema todo é a subnotificação. As pessoas pensam que tem poucos casos em Conquista e não tomam os devidos cuidados”, teme ela.

ENVIAMOS O TEXTO PARA A SECRETARIA DE COMUNICAÇÃO DA PREFEITURA. SE A SMS SE MANIFESTAR SOBRE O ASSUNTO, PUBLICAREMOS UMA MATÉRIA (OU A NOTA) À PARTE, COM O DEVIDO DESTAQUE.

PARA VER O DEPOIMENTO DE BRUNO MELO CLIQUE AQUI.

Author: Giorlando Lima

Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 58 anos de idade, 42 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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