Desculpem, Itabuna e Ilhéus, a gente não queria fazer o que fez. É o medo do coronavírus

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Não era para esse vírus ter vindo tirar a nossa paz, interromper a nossa jornada de sobrevivência, impor restrições ao nosso convívio familiar e social, trazer medo e dor, proibindo festas de batizado, aniversário, casamento, formaturas, futebol, bar, escola, missa, culto, teatro, cinema, shows em espaço aberto, reuniões de trabalho, passeatas, encontros, abraços, beijos, se intrometendo, até, na nossa maneira de amar. E parece ter se intrometido para valer, de um jeito que a gente pode não saber mais consertar. E os exemplos disso não estão longe.

O coronavírus é uma visita desgraçada. Não haveria hora pior para esse vírus vir se meter entre nós. Logo no ano da eleição. Nos últimos anos, o brasileiro só precisa da política como motivo para sair trocando ofensas e bordoadas. A política deixou, há muito, de ser ferramenta de construção da sociedade, para ser o motor da discórdia nacional. É um cenário muito poluído, lotado de germes, bactérias e vírus horríveis, que corrompem o bom senso, afetam a capacidade de enxergar as razões que nos fazem uma nação e levam seguidores, militantes, apaixonados e cegos que tais, a atacar qualquer um que pense diferente, mesmo que seja pai e mãe.

É um casamento trágico o do coronavírus com a política, essa que viceja no Brasil, sem respeito, sem afeto, apenas uma paixão cega que descaracteriza da condição de sensato – e até de humano – quem a pratica.

Se não, como explicar que, apenas por paixão política, uma multidão nada desprezível (quantitativamente falando) repita um presidente cada dia mais insensível e boquirroto, de olhos vendados, como se máscaras lhes cobrissem os olhos e não nariz e boca, agindo e falando como se não estivéssemos diante de uma tragédia e perder mais de sete mil vidas de brasileiros fosse quase nada, a afirmar que caixões amontoados em covas coletiva sejam “obra de adversários” para atingir aquele que não é coveiro?

Como explicar, senão tendo a política como causa, aquela vergonha da semana passada em Vitória da Conquista, quando – depois de ter saído em uma TV da capital e confirmada pelo secretário estadual de Saúde (via blog local) -, uma possibilidade de ajudar o próximo, de salvar vidas, se tornou um constrangimento, uma prova de que muitos sequer estão dispostos a avaliar a necessidade do outro se o que lhes pedem é algo que, em algum momento, eles podem precisar? Falo da polêmica rejeição a uma eventual ocupação de leitos hospitalares de Conquista por pacientes com Covid-19 de Ilhéus e Itabuna.

Os dois municípios, juntos, têm 487 casos confirmados de coronavírus, as demais cidades da região contabilizam outras dezenas, e os leitos hospitalares de lá, principalmente, UTIs, estão se esgotando. Por seu lado, Vitória da Conquista dispõe de 40 leitos de UTI públicos ou contratados (pelo Governo do Estado e pela Prefeitura) e outros 50 de enfermaria clínica, incluindo respiradores, exclusivos para Covid-19, podendo contratar mais 20 leitos de UTI e 20 de enfermaria do IBR, cujas negociação está em curso de deve ser definida esta semana.

Com 35 casos confirmados, quatro óbitos e 26 pacientes recuperados, ou seja, oficialmente, há cinco pessoas se tratando da Covid-19 em Conquista. Destas, uma está internada. Além disso, dos 73 casos investigados, com suspeita de coronavírus, dois estão internados e 71 em isolamento domiciliar. E, finalmente, das três pessoas que estão internadas, só duas ocupam leitos públicos ou contratados e estão em UTI, isso é 5% da estrutura de terapia intensiva disponível em Conquista.

Certamente, por desconhecimento ou pelo medo, que toma quase todo mundo, de que uma hora qualquer sejamos nós a necessitar da internação, houve uma fortíssima e lamentável reação à ventilada possibilidade de pacientes de Itabuna e Ilhéus serem mandados para hospitais de Vitória da Conquista. Não foi pouca gente que reclamou, xingou o governador, atacou o secretário de Saúde, em manifestações nas redes sociais, com direito a cards e memes e até em programas de rádio.

Muitos reagiram pensando, justificadamente, que, assim, estariam garantindo que não vai faltar se precisarem ou por não entender que leitos hospitalares da rede pública não têm possuidores ou donos, pertencem ao Estado e aos seus cidadãos, estejam onde estiverem. Aliás, os leitos dos hospitais pertencem à doença. Mas, a maioria, infelizmente, apenas não queria ajudar, não queria os doentes de fora nas UTIs dos conquistenses. E isso de maneira acintosa, rude e até desumana.

Ainda bem que também houve quem reagiu favoravelmente, entendendo que a hora não é de egoísmo, lembrando, por exemplo, que crianças de Conquista vão fazer quimioterapia em Itabuna e que Ilhéus, por mais motivos além das praias, tem integração com Conquista, pois as pessoas têm laços não apenas geográficos ou políticos. Mas, estes, ou eram poucos ou sua manifestação não teve força. Até porque, viram logo depois que a política estava no meio. E aí, a mistura deu ruim. E eu temo que possa dar ruim quando isso tudo acabar e começar a caça ao tempo e ao dinheiro perdidos.

A não ser que continuemos a acreditar que a humanidade vale a pena e os que desejam ver o bem triunfar saiam de casa – quando todos puderem -, para dizerem e fazerem o que pensam, para fazerem os reparos necessários, colocarem o afeto acima da política, a vida acima do dinheiro e o amor acima do egoísmo.

Podemos começar pedindo desculpas a Itabuna e Ilhéus. Afinal, não foi por querer, foi por medo.

Author: Giorlando Lima

Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 58 anos de idade, 42 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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