Em meio à rotina de plantões, profissionais da saúde relatam mudanças, medo e discriminação durante a pandemia

Por Nanda Feminella
Graduanda em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB)

 

 

Profissionais da saúde em Vitória da Conquista – Ba, compartilham suas rotinas de trabalho nos hospitais em meio a pandemia e o impacto causado pelo coronavírus

Ninguém ainda disse com exatidão como se transmite e como o corpo reage ao coronavírus. Para algumas pessoas, os sintomas são de um resfriado comum, e, para outras, uma infecção mortal. Em meio ao medo e dúvidas, um grupo de alto risco se destaca – os profissionais da saúde –, que por estarem na linha de frente, corre mais risco de contágio em comparação às outras pessoas. De acordo com dados publicados pela Folha de São Paulo[1], no dia 14 de maio de 2020, o Brasil tinha 31.790 profissionais área da saúde contaminados pela Covid-19.

Polliana Almeida é profissional da saúde há mais de 10 anos e trabalha no Hospital Geral de Vitória da Conquista (HGVC) e Hospital Samur. Apesar dos anos de trabalho, Polliana se vê em uma nova realidade, a pandemia causada pelo novo coronavírus (SARS-COV-2), descoberto em 31 de dezembro de 2019, na China. Nos hospitais, o uso da máscara é obrigatório e no momento do intervalo, precisa estar sozinha. Aqueles plantões com pizza na hora do jantar acompanhado de conversas com os colegas de profissão, não existem mais. Há medo. Há insegurança. Há mudança obrigatória. “Não tem como não ter medo, por mais que a gente se protege”, diz Polliana.

Enfermeira, casada e mãe, aos 32 anos ela conta que sua vida de plantões, assim como sua rotina, sempre foi muito tranquila, sem medos ou incertezas, ao contrário do atual momento. “Chegava em casa, tomava café, abraçava meu filho e minha avó, na chegada do plantão. Mas agora, nesse tempo de Covid-19, chego, deixo o sapato no carro, pego uma sandália e entro em casa. Não tomo café ou abraço meu filho ou meu esposo sem antes tomar um banho da cabeça aos pés”, fala. Para Polliana, abraçar o filho de quatro anos ou o companheiro só é possível após esse ritual. Receber a bênção da avó, agora só verbalmente. Sem toques. À distância. Algo que nunca aconteceu. Para estar na linha de frente, sua vida precisou mudar. Dentro e fora dos hospitais.


No Hospital São Vicente de Paula, também em Vitória da Conquista, a rotina dos profissionais da saúde também foi alterada pelo novo coronavírus. Segundo Beatriz Silva, 21 anos, técnica de enfermagem há mais de dois anos no hospital, a jornada de trabalho tornou-se mais extensa. Cansativa. Solitária. Assim como relatado por Polliana, Beatriz conta que na hora do intervalo, os especialistas se veem sozinhos. Cada um em um local. Sem contato. Sem reunião. O uso da máscara também é obrigatório. O tempo todo. E ao chegar ou sair do hospital, é necessário tomar banho. “A rotina de banho é ferrenha, lavagem de cabelo sempre”, conta. Tudo isso pela segurança dos profissionais e dos pacientes, afinal, o coronavírus, é “uma doença muito complexa que pra muita gente não é nada, mas pra muita gente é tudo. Pode mudar a vida da pessoa drasticamente, pode levar a morte”, explica.

Beatriz conta que já teve contato direto com cerca de 30 pacientes, suspeitos e confirmados, de Covid-19, em Vitória da Conquista. Por isso, diz que lida constantemente com a sensação de “estar contaminada”. Apesar da pressão, alto risco de contagio e do medo, ela sabe que as pessoas que estão internadas no hospital precisam do seu trabalho, mesmo que sua própria vida esteja em risco. Então, apesar da sensação que é recorrente, Beatriz explica que se ela ficar pensando demais na possibilidade do contágio, o seu trabalho não flui. Mesmo que seja difícil não pensar. A consequência emocional disso tudo é grande, mas é necessário ter fé e seguir em frente.

As situações vividas por Polliana e Beatriz trazem à tona a rotina de profissionais da saúde no contexto da pandemia. Dentro e fora dos hospitais a rotina de enfermeiros, técnicos, médicos, entre outros profissionais, não é mais a mesma. Sim, se faz necessário a prudência devido a disseminação do vírus. Por isso, para estarem seguros atuando na linha de frente, é indispensável o uso correto dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). Sem eles a segurança dos profissionais da saúde não é alcançada.

Apesar de todo o cuidado necessário e obrigatório, das renuncias pessoais, das longas horas de trabalho, do maior risco de contaminação e, às vezes, da falta dos equipamentos de segurança, os profissionais da saúde, como Polliana e Beatriz, continuam na linha de frente, lidando com o atual inimigo. Combatendo um vírus perigoso e invisível, mas expostos à doença que até o fechamento desta reportagem já provocou a morte de 27.944 pessoas em todo o Brasil. Esses especialistas que vivem novas rotinas de trabalho, lidam também com o medo e preconceito. Os profissionais da saúde enfrentam a dualidade de serem “heróis” e “vilões”.

Há pessoas que aplaudem Pollianas e Beatrizes ou Marcos e Diogos, mas também há pessoas que os excluem. Há um clamor mundial por empatia e gratidão por esses profissionais, nas janelas, sacadas e redes sociais. Mas, longe dos olhares observadores e das filmagens, há discriminação. Há preconceito. Há dificuldade até mesmo para chegar ao trabalho. “Tem muito preconceito com a gente da área. Às vezes eu não consigo pegar nem Uber para ir trabalhar”, Beatriz fala. E ela não está sozinha, Polliana também vive a realidade de discriminação e por isso diz: “as pessoas acham que profissional de saúde transmite mais que os demais. Mas acho que a gente está se cuidando mais, pois estamos vivenciando isso na nossa rotina dentro do hospital”, fala.

O medo é compreensível, mas a discriminação fere. Sempre feriu. Enquanto enterramos mortos por Covid-19, deveríamos desenterrar consciência, reconhecimento e virtude. Beatriz complementa: “é triste né, pensar que a gente está dando tudo de si pra ajudar as pessoas, que não é fácil. Não é fácil mesmo. E as pessoas nos tratam assim”, declara.

 

[1] https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/05/brasil-tem-317-mil-profissionais-de-saude-infectados-pela-covid-19.shtml


A FOTO DESTAQUE NÃO É DE QUALQUER DAS PROFISSIONAIS DA MATÉRIA | CRÉDITO: PAULA FRÓES/GOVBA

Author: Giorlando Lima

Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 58 anos de idade, 42 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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