Pode causar mortes | Médicos do Sudoeste criticam medida do secretário de Saúde da Bahia de tirar regulação dos municípios

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Em uma carta aberta, médicos plantonistas que atuam em hospitais da região Sudoeste da Bahia criticaram duramente a extinção da Central de Regulação de Leitos que funcionava em Vitória da Conquista, medida tomada pelo secretário de Saúde do estado, Fábio Vilas-Boas, no dia 6 de maio deste ano. Além da central do Sudoeste, foi desativada a do Sul do estado, instalada em Itabuna. A decisão de Vilas-Boas teve a concordância do governador Rui Costa. Desde então, a regulação de leitos está centralizada em Salvador.

Os médicos afirmam que a medida criou dificuldade para a transferência de pacientes dos hospitais de baixa complexidade para os hospitais de maior porte e que eles estão com problemas para encaminhar os pacientes que necessitam de maiores cuidados. O documento diz que a situação é grave e cita os fatores que levaram a isso, entre os quais, dificuldade para contato direto com a Central via telefone, falta de transparência nos relatórios de vaga zero, morosidade para autorização de transferência, falta de comunicação com os médicos reguladores e o desconhecimento da rede hospitalar regional por parte dos reguladores, que autorizam transferências utilizando apenas o critério de disponibilidade de vaga, sem considerar, por exemplo, a distância do hospital de destino em relação ao local de partida.

Na carta aberta, os profissionais dizem que a consequência da centralização da regulação de leitos de um estado tão grande “é a desorganização e o retrocesso na forma de transferir os pacientes”. Para eles, a medida traz como consequência o “agravamento dos casos, piora dos prognósticos, atraso nos tratamentos e em último caso, no óbito de pacientes tratáveis”.

Os médicos plantonistas do Sudoeste baiano cobram uma solução do Governo do Estado.

SECRETÁRIO: “CORPORATIVISMO”

De acordo com o site Pimenta, há cerca de 30 dias, durante videoconferência com secretários municipais de Saúde, que se queixavam das dificuldades com o novo sistema, o secretário Vilas-Boas falou da sua determinação de centralizar a regulação de leitos em Salvador, onde um prédio foi construído para essa finalidade, e teria dito que “o corporativismo do servidor público é resistente. Pagaram pra ver se eu ia fechar mesmo [as centrais de regulação no interior]. Não acreditaram que eu ia fechar. Eu mandei fechar e botei todo mundo em aviso prévio –  disse ele aos secretários municipais”.

A reação de Vilas-Boas contra os servidores – muito parecida à de membro do governo federal – deixou secretários indignados, mas ele não se pronunciaram publicamente, segundo o Pimenta, por temerem retaliações em tempos de pandemia. O site diz que o secretário estadual de Saúde afirmou que demorou 30 dias para montar a equipe para a central em Salvador. Foi quando decidiu intervir e determinar a contratação de funcionários centralizar a regulação de leitos na capital. “Estou esperando, essa semana, poder voltar a ter número de pessoas para manter a tela limpa”, disse Fabio Vilas-Boas.

Central de Comando e Regulação da Saúde, em Salvador, inaugurado em marçopelo governador Rui Costa

Leia na íntegra da carta dos médicos platonistas do Sudoeste da Bahia

CARTA ABERTA À IMPRENSA

Vitória da Conquista-BA, 25 de maio de 2020

Utilizamos o presente instrumento de comunicação para informar à sociedade sobre a situação grave em que os serviços de saúde da região sudoeste se encontram após a centralização da regulação de leitos na capital do estado da Bahia.

Desde que a regulação regional de leitos (com sede em Vitória da Conquista) encerrou suas atividades, no início do mês de maio, os hospitais regionais e seus respectivos médicos plantonistas do sudoeste baiano, estão enfrentando dificuldades para transferir seus pacientes dos hospitais de baixa complexidade para os hospitais de maior porte.

A Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (SESAB), comandada pelo médico Dr. Fábio Vilas-Boas, realizou a centralização da regulação de leitos do estado em Salvador oficialmente em 06 de maio do corrente ano. Desde então, as dificuldades enfrentadas pelos médicos plantonistas são contínuas, pois além de atenderem casos clínicos diversos, muitas vezes sobrecarregados pela quantidade de pacientes, agora estão com problemas para encaminharem os pacientes que necessitam de maiores cuidados.

Antes da mudança, o sistema de regulação possuía uma sede regional em Vitória da Conquista e era operado por médicos reguladores locais, que conheciam a realidade da região sudoeste, as limitações dos serviços de saúde e o fluxo era organizado de acordo com a capacidade das unidades hospitalares. Dessa forma, a análise dos casos clínicos era realizada em tempo hábil, possibilitando a priorização na transferência dos pacientes mais graves para os hospitais de referência da região ou do estado. Os médicos reguladores também participavam de discussão clínica com os respectivos plantonistas das cidades menores, auxiliando na condução do tratamento, o que infelizmente se perdeu após a mudança.

Após a centralização em Salvador, as regulações de casos mais graves vem enfrentando vários problemas, entre eles a morosidade para autorização de transferência, falta de transparência nos relatórios de vaga zero, dificuldade para contato direto com a Central via telefone, transferências desordenadas para cidades muito distantes do local de partida, escassez de informações por parte da Central para com os hospitais regionais, falta de comunicação com os médicos reguladores, insuficiência de informações sobre a transferência (vaga zero, maca retida, necessidade do médico acompanhando) e o desconhecimento da rede hospitalar regional por parte dos reguladores, que autorizam transferências para hospitais diversos, em algumas situações muito distantes da cidade de origem, utilizando apenas o critério de disponibilidade de vaga.

A consequência da centralização da regulação de leitos de um Estado tão grande como a Bahia, é a desorganização e retrocesso na forma de transferir os pacientes e isso fatalmente resulta em agravamento dos casos, piora dos prognósticos, atraso nos tratamentos e em último caso, no óbito de pacientes tratáveis.

O objetivo dessa carta é tornar público esse problema que nós, médicos plantonistas, estamos enfrentando, além de cobrar do Governo Estadual uma solução urgente desse imbróglio, que está afetando inúmeros pacientes da região sudoeste da Bahia.

Atenciosamente

Médicos plantonistas da região sudoeste da Bahia

Author: Giorlando Lima

Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 58 anos de idade, 42 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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