Junho fechou com recorde de casos em 24 horas e piora de todos os índices da Covid-19 em Vitória da Conquista

Os números da Covid-19 sobem de maneira assustadora em Vitória da Conquista e desmontam velozmente o discurso do governo municipal de que a situação está sob controle. Ontem, terça-feira (30), a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) informou que o município teve 55 casos em 24 horas. É a maior quantidade de casos em um dia. No geral, o mês de junho teve 577 registros de pessoas infectadas pelo novo coronavírus, um crescimento de 379%. O total chegou a 729, de acordo com a SMS.

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MORTES

Mas, não é apenas o aumento na quantidade de casos que tem gerado questionamento do discurso – e da prática – da administração de Vitória da Conquista em relação à pandemia. Todos os demais números indicam que a situação está se agravando. Em junho, o município chegou a 16 mortes por Covid-10, com 11 perdas de vida em um período de 15 dias. Para continuar pensando em termos percentuais, 220% a mais de óbitos.

QUEDA NA TAXA DE CURADOS

No mês, também se verificou o aumento na velocidade do contágio, o que está jogando para baixo a proporção de curados em relação aos casos notificados. Um percentual que já foi de 86% nesta terça-feira já tinha caído para 67,76%. Ou seja, enquanto antes, para cada dez pessoas doentes oito se recuperavam, agora são menos de sete. A consequência disso é o aumento dos casos ativos, pessoas que adquiriram o vírus, estão em tratamento e ainda podem transmitir para outra pessoa. No dia 1º de junho eram 30, hoje são 219, e em dez dias cresceu quase o dobro.

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AUMENTO DA TAXA DE OCUPAÇÃO

Com todos os índices variando para pior, um risco ainda mais preocupante surge para um curto horizonte: o colapso do sistema de saúde. Embora a taxa de ocupação total dos leitos hospitalares dedicados a pacientes com o novo coronavírus não tenha passado de 46,5%, as UTIs chegaram a 66% de ocupação: dos 50 leitos disponíveis, 33 estavam ocupados ontem, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. Os leitos clínicos de mantiveram em 29,7%, com 19 pacientes.

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No geral, 52 pessoas estavam internadas por causa do novo coronavírus, a maioria – 32 – vinda de 25 municípios, segundo a SMS. Isso significa que, nos leitos dos hospitais separados para a Covid-19, estavam 20 pacientes de Vitória da Conquista. A maior quantidade desde que a pandemia começou. Número que vem crescendo desde o dia 26, como mostra o gráfico. De Vitória da Conquista estavam ontem em UTI nove pessoas e 11 em leitos clínicos.

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O DISCURSO DA COMPARAÇÃO

O governo municipal tem feito discurso comparando números de Vitória da Conquista com outros municípios onde a situação está – numericamente – mais crítica. Numa espécie de comemoração na base da antiga e estereotipada propaganda da Semp Toshiba, “Os nossos japoneses são melhores que os japoneses dos outros”, as mensagens que a Prefeitura vem passando tentam convencer que a nossa tragédia ainda é menor que a tragédia dos outros, então, reclamemos menos e deixemos tudo funcionar normalmente, basta usar máscara. Mas, se todos conhecessem os detalhes, e não apenas os dados que o plenipotenciário Comitê de Gestão de Crise (CGC) permite aos de fora verem, saberíamos que a versão da nossa tragédia não é de fazer de conta.

Que tal o governo dizer que, no caso de Petrolina, usado no discurso do sucesso da gestão em relação ao novo coronavírus, a nossa tragédia está se concretizando mais rápido que a deles? Entre 1º de junho e ontem (30), Petrolina viu os casos confirmados de Covid-19 saírem de 268 para 923, um aumento de 244%. As mortes eram nove no primeiro dia do mês e passaram para 26 no último, crescimento de 188%. No mesmo período, os casos cresceram 358% em Vitória da Conquista e as mortes 220%. Nos últimos dez dias, Petrolina teve 99 casos novos e sete óbitos. Vitória da Conquista, teve 243 casos novos e cinco mortes.

A Prefeitura também faz comparação com Itabuna e Ilhéus, que registraram até ontem 2.520 e 1434 casos confirmados, respectivamente, aumento de 31,6% e 19,9% em uma semana. No caso dos óbitos, há sete dias, Itabuna registrava 64 e ontem eram 67, Ilhéus contava 50 e passou para 56. Em Itabuna, três óbitos a mais e em Ilhéus seis. No mesmo período Vitória da Conquista passou de 14 para 16. Parece pouco? Proporcionalmente, foram 4,47% e 12% de aumento nas duas cidades e 14,28%. A ideia seria manter tudo como está porque nossos mortos ainda são menos que os mortos dos outros?

ESTAMOS BEM?

O discurso do “estamos bem porque os outros estão pior”, foi reiterado pelo prefeito Herzem Gusmão em postagem nas suas redes sociais: “Os números mostram que a nossa cidade possui a menor taxa de mortalidade entre as grandes cidades do Nordeste”. No entanto, não é apenas uma questão de taxa, é uma questão de adoecer e correr o risco de morrer. Na mesma postagem, ao informar que respondeu à Ação Civil Pública movida pelo Ministério Público Estadual, Herzem disse: “Nos autos, apresentamos os estudos que comprovam que o aumento de casos positivos ocorreu em conjunto com o aumento da nossa capacidade de testagem. Também comprovamos, com dados técnicos, que a reabertura do comércio não provocou aumento da pressão hospitalar. Isto demonstra que ampliamos e preparamos a nossa Rede de Saúde para atender aos pacientes infectados do nosso município”.

Faltou o prefeito esclarecer que a testagem é positiva em quem se encontra doente a partir de sete dias, em média. A testagem não é causa, é diagnóstico. É certo que a pessoa pode ser infectada na igreja, no ônibus, na alameda, na reunião de família, no trabalho, não apenas por que saiu para ir a uma loja. Mas, é igualmente certo que o comércio foi reaberto no dia 1º e dez dias depois os casos haviam subido de 159 para 329 – 107% a mais! Deixou Herzem de dizer que a quantidade de pacientes de Vitória da Conquista em leitos de hospital por causa da Covid cresceu, em junho, de dois para 20 e que, neste mesmo tempo, é importante repetir, 11 pessoas morreram.

Tomando emprestada expressão utilizada pelo prefeito em sua postagem: São dados irrefutáveis!

EXISTE ALTERNATIVA

Os números de ontem devem servir para alguma reflexão na Prefeitura, afinal, 55 casos em um dia não são uma vantagem. O ranking que o governo municipal considera um grande trunfo não torna a realidade que aflige a população em menos trágica. Não é uma questão estatística, é de medo. É humanamente compreensível que tenham medo os cerca de 70% da população que pensam o contrário do governo municipal na questão do funcionamento das atividades econômicas consideradas não essenciais.

Ninguém de bom senso quer a falência de comerciantes, o desemprego, a economia quebrada, aumentando a pobreza. Precisamos do comércio. Mas, o governo municipal pode ser mais razoável, pensar em alternativas. Baixar o tom dos discurso, admitir que a situação não está boa como ele propaga. A proposta do governo do Goiás, por exemplo, pode ser útil. Lá, o governador propôs a flexibilização alternada, com o comércio duas semanas aberto e duas semanas fechado. Assim, se pode dizer com maior grau de certeza, se é verdade que lojas abertas e quase tudo funcionando normalmente influenciam ou não nos números do coronavírus.

Herzem Gusmão manteve o comércio fechado por 70 dias, com comerciantes fazendo carreatas e protestos em frente à sua morada e, naquele tempo, os índices do novo coronavírus eram muito, muito menores. Hoje, depois de um mês de explosão de casos e um assustador aumento das mortes, a pergunta é: o que ele entendia naquela época que, atualmente, não serve mais?


FONTES PARA OS GRÁFICOS: BOLETINS DA SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE

FOTO DESTAQUE: MONTAGEM SOBRE FOTOGRAFIA DE SIDNEI FERRAZ

Author: Giorlando Lima

Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 58 anos de idade, 42 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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