Um ano neste sábado | Mais completa do interior, Policlínica de Conquista teve chegada marcada por polêmicas. Relembre



A unidade foi reaberta no dia 1º de julho, após um período com atividades suspensas por causa da pandemia do novo coronavírus. Está funcionando sob rígido protocolo, em que, por exemplo, não são realizados exames invasivos. Os ônibus que transportam pacientes dos municípios que fazem parte do consórcio regional só conduzem 18 pessoas por viagem e o imóvel e a área do seu entorno passam por higienização especial frequente.

Público na inauguração

A Policlínica Regional de Saúde de Vitória da Conquista, inaugurada em um grande ato político no dia 1º de agosto do ano passado, é a única do interior da Bahia a ofertar todas as especialidades médicas e exames existentes na rede*. Foi a 11ª a entrar em funcionamento. Não sem antes ser alvo de uma polêmica política histórica, envolvendo o prefeito Herzem Gusmão (MDB), o Governo do Estado e o prefeito de Belo Campo José Henrique Silva Tigre (PSD), mais conhecido por Quinho, além de outros, que acabaram sendo envolvidos a partir da gravação acidental de uma conversa.

Rui Costa fala durante evento de entrega da Policlínica

A policlínica de Vitória da Conquista foi anunciada pelo governador Rui Costa (PT) quase dois anos antes da inauguração, no dia 7 de novembro de 2017, no seu programa semanal “Papo Correria”, pelas redes sociais. O anúncio foi muito bem recebido, inclusive pelo prefeito Herzem Gusmão, adversário do governador. Menos de um mês depois, no dia 1º de dezembro, ele participou de reunião da Associação dos Municípios dos Vales do Rio do Antônio e Rio Gavião (Amvagra) e anunciou a adesão de Vitória da Conquista ao consórcio que iria gerir a policlínica. Em matéria publicada no site oficial da Prefeitura, foi anunciado que, nos próximos dias seria encaminhado o projeto de lei para formalizar a adesão do município.

PREFEITO CANDIDATO

Herzem (no centro) posa com prefeitos dos municípios que viriam a formar o consórcio, em dezembro de 2017

Herzem disse, então, que Conquista já tem uma policlínica, o Cemae, mas desejava “esse outro equipamento porque temos competência para abrigá-lo” e colocou o nome dele como candidato a presidente do consórcio. “Queremos estar à frente da gestão da policlínica”, afirmou o prefeito de Vitória da Conquista, na ocasião.

Acontece que a escolha para dirigir a entendida foi diferente do que imaginou Herzem. O presidente eleito foi Quinho, prefeito da pequena Belo Campo, a 58 quilômetros de Conquista e antigo distrito do município (emancipado em 22 de fevereiro de 1962, em estratégia utilizada pelo ex-prefeito José Pedral e pelo então deputado Padre Palmeira, visando as eleições daquele ano). A reação foi imediata. O prefeito conquistense se sentiu desprestigiado pelo governador, que não o apoiou, e passou a sinalizar que não haveria adesão à policlínica.

ADESÃO ANUNCIADA

Geanne e Ceres (de vestido) falam com Rui Costa sobre decisão de Herzem de aderir ao consórcio, promessa que seria negada mais tarde

Entretanto, em uma das muitas idas e voltas nessa história, no dia 22 de dezembro, quando a dúvida sobre a participação de Vitória da Conquista já incomodava, o prefeito determinou à então secretária de Saúde, Ceres Almeida, e à então assessora especial, Geanne Oliveira, que o representassem na solenidade de assinatura da ordem de serviço para a construção da policlínica, feita pelo governador Rui Costa. As duas levaram a notícia de que o prefeito decidira que o município estaria dentro da policlínica.

Segundo o site oficial da Prefeitura, Herzem Gusmão e sua equipe analisaram profundamente o impacto que o investimento teria para a população de Conquista: “A saúde do conquistense está acima de quaisquer questões partidárias. Nos debruçamos no projeto para saber o quanto a população seria beneficiada. Depois desta análise decidimos definir pela adesão”, declarou o prefeito.

VAI E VEM

O tempo, no entanto, não confirmaria as palavras do prefeito. Em novembro, perto do fim do prazo para a adesão, a Câmara de Vereadores informou que não havia projeto de lei do Executivo pedindo autorização para aderir ao consórcio. O documento até tinha sido enviado, mas foram encontradas incorreções e foi devolvido,. A Prefeitura, no entanto, não o reenviara. Depois de muitas explicações e desculpas, uma nova versão do projeto foi para a Câmara e os vereadores aprovaram a adesão no dia 12 de dezembro de 2018.

Mas, a aprovação do projeto não mudou a situação. A posição do governo municipal ainda era a de não participar. E Herzem viria confirmar isso da forma mais desgastante possível, com repercussão estadual.

Herzem já havia dito, no programa do radialista Pedro Alexandre Massinha, no dia 30 de novembro daquele ano, na Rádio Transamérica, que estava com o coração fechado para a policlínica e disse qual a razão: “Eu confesso a você, Massinha, que meu coração está fechado para a policlínica. Nós temos a nossa Policlínica, o CEMAE, que atende cerca de 700 pacientes por dia. Aí, a Policlínica de Saúde do Governo do Estado vem pra Conquista e o presidente do consórcio é o prefeito de Belo Campo, com todo respeito a Belo Campo, mas quem tem que comandar é Conquista. E eu indiquei o prefeito de Itapetinga ou o prefeito de Condeúba, mas a vontade de Conquista não foi atendida”. O prefeito não comentou que ele colocara o próprio nome para dirigir a entidade, como publicou o site da Prefeitura.

ÁUDIO VAZADO

Uma semana depois da votação na Câmara de Vereadores, no dia 19 de dezembro, vazou um áudio em que o prefeito reiterava sua contrariedade com a eleição do prefeito de Belo Campo para a presidência do consórcio gestor da policlínica. O áudio era de uma conversa de Herzem com o mesmo Massinha, em que o prefeito diz acreditar que se a policlínica tiver sucesso beneficiará o prefeito de Belo Campo, Rui Costa e seus possíveis adversários do PT na eleição de 2020. A conversa é recheada de palavrões e impropérios e ofende até a presidente do Conselho Municipal de Saúde, Monalisa Barros, com citações ao seu pai, Hormindo Barros, falecido em 1996.

A cisma de Herzem prosseguiu. O projeto de lei da adesão foi aprovado, mas ele não sancionou, teve que ser promulgado (quando a Mesa da Câmara de Vereadores sanciona depois que expira o prazo para o prefeito fazê-lo). E à medida que se aproximava a inauguração, aumentava a angústia da população, que queria a policlínica.

OUTRAS EXPERIÊNCIAS

Herzem (embaixo, no canto esquerdo) com os prefeitos do consórcio, depois de assinar a adesão, em abril de 2019

Antes de, finalmente, concretizar a adesão, Herzem Gusmão investiu em viagens dele e de sua equipe para ver como funcionavam as policlínicas existentes. Ele mesmo foi longe, a Sobral, no Ceará, município pelo qual estava encantado e elogiou a unidade de lá. A equipe viajou para Feira de Santana, Jequié e Guanambi. Pressionado pela comunidade, o prefeito somou as avaliações pessoal e dos técnicos e no dia 17 de abril de 2019 voltou a se reunir com os demais prefeitos e assinar o documento que deu o direito de a população conquistense ser atendida pela policlínica.

Mas, as polêmicas não acabaram aí. Herzem não foi à inauguração, no dia 1º de agosto, e em outubro o consórcio interfederativo que administra o equipamento teve que suspender o atendimento dos usuários locais por falta do repasse da Prefeitura de Vitória da Conquista, situação que foi regularizada no mesmo mês. Desde então, mantém-se a cisma. Mas, à exceção da interrupção provocada pela pandemia do novo coronavírus, parece não haver mais problemas na relação da Prefeitura com a Policlínica Regional de Saúde.

* Especialidades médicas: angiologia; cardiologia; endocrinologia; gastroenterologia; ginecologia/obstetrícia; mastologia; neurologia; oftalmologia; ortopedia; otorrinolaringologia e urologia.

Exames: ressonância magnética (com e sem contraste); tomografia (com e sem contraste); mamografia; ultrassonografia com doppler; ecocardiografia; eletroneuromiografia; teste ergométrico; mapa; holter; eletroencefalograma; Raio-X de 500Am; eletrocardiograma; endoscopia; colonoscopia; nasolaringoscopia, entre outros, ligados à especialidade de oftalmologia.

Author: Giorlando Lima

Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 58 anos de idade, 42 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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