Do rádio para a política, a trajetória que colocou Herzem Gusmão na história


Herzem Gusmão nasceu na Rua do Gancho, em 2 de junho de 1948, em uma das famílias mais tradicionais de Vitória da Conquista, filho de Eunildo Gusmão Pereira (falecido) e Zilda Gusmão Pereira. Na juventude, praticante de esportes, com razoável destaque no basquete e no vôlei, descobriu o radialismo como vocação. A voz grave, mas bem dosada, trazia desde o nascimento. A coragem que levou para os estúdios herdou dos avós e o talento ele foi lapidando à medida que passava o tempo, até adquirir a máxima intimidade com o microfone, aquele deu sustento, nome e futuro.

 

Herzem até foi bancário – respondeu pela gerência da Associação de Poupança e Empréstimo da Bahia (ASPEB) e trabalhou no extinto Banco Econômico. Também foi gerente da unidade conquistense das Lojas Unilar, vendedor na Codisman e chegou a ter um posto de lavagem de carros. Formou-se, ainda, em Direito e fez uma pós-graduação em Comunicação e Jornalismo, mas o rádio estava em seu sangue. E, mais tarde, como se viu, a política ganhou o seu lugar.

Herzem ficou por quase meio século no rádio, cobriu copas do mundo, narrou campeonatos, mas se notabilizou, especialmente, pelo jornalismo político. Com seus editoriais conquistou fama e uma mistura de admiração, respeito e inimizades e entrou para a história como um dos maiores radialistas da Bahia e o mais importante formador de opinião da história de Vitória da Conquista. Do rádio, onde ajudou a eleger deputados, vereadores e prefeitos e a manter ou arranhar governos, ele foi para a política, como candidato, quando já completara 60 anos de idade. Na concepção dele, que já havia sido convidado a candidatar-se a vários cargos, era a hora certa.

A primeira candidatura veio em 2008. No auge da força do PT, com Lula presidente, Jaques Wagner no governo do Estado e Zé Raimundo no governo municipal, ele enfrentou Guilherme Menezes, um ícone do partido, que voltava de um intervalo de seis anos fora da Prefeitura, tendo exercido, neste tempo, dois mandatos de deputado federal. Herzem ficou em segundo lugar, com 43.159 votos, representando 30,42% do votos válidos.

Em 2010, ele candidatou-se a deputado federal e foi o mais votado no município, com 31.650 votos, 21,68% do total de válidos. O desempenho em 2008 e a votação para deputado catapultaram Herzem à condição de líder da oposição ao PT em Vitória da Conquista e, nessa condição, ele foi candidato a prefeito mais uma vez, de novo contra Guilherme, que ia em busca do quarto mandato.

Foi a primeira eleição conquistense em dois turnos e Herzem foi para o segundo com a liderança petista, para ser o escolhido de 70.760 eleitores, com 43,72% dos votos válidos. No primeiro turno, ele já havia obtido 63.130 votos, 46,2% a mais que a eleição de prefeito anterior.

Foi o candidato a deputado estadual mais votado no município, na eleição de 2014, tendo assumido o mandato entre março de 2015 e maio de 2016.

O sinal era claro: o radialista que ajudou a criar a imagem das boas gestões do PT de Vitória da Conquista e que, dez anos depois, mudou de opinião, passando a combater o partido, estava pronto para vencer os antigos aliados.

Em 2016, o desgaste do Partido dos Trabalhadores era crescente em todo o país e não era diferente em Conquista, apesar de ter nomes respeitados, sem histórico de corrupção e com gestões bem-sucedidas. E este foi o argumento apresentado por parte do PT e da imprensa para justificar a derrota de Zé Raimundo para Herzem. E o intenso desgaste nacional do partido ajudou, certamente, mas, a trajetória eleitoral do radialista, eleito prefeito no segundo turno, com 57,58% dos votos depositados por 95.710 conquistenses, foi, sem dúvida, o principal fator para a mudança no poder municipal, que passou de Guilherme Menezes e do PT, para um radialista que virou prefeito.

O primeiro governo começou confuso, marcado por algumas ações desgastantes do próprio prefeito. Ele mesmo chegou a dizer, com extrema sinceridade, em discurso na Câmara de Vereadores, um ano depois da posse, que era um neófito. Os desgastes duraram um bom tempo. Herzem teve grande dificuldade de se despir do traje de radialista combativo e assumir o de líder – que administra conflitos e não os cria. O tempo mostrou, entretanto, que ao contrário do que acreditaram seus adversários, a percepção da população em relação a ele mudara muito pouco desde a eleição vitoriosa.

Com a ajuda da Câmara de Vereadores, Herzem ampliou o portifólio de obras na cidade, já recheado de realizações que concluiu ou iniciou com projetos e dinheiro deixados pelo antecessor. Aproveitou bem os recursos públicos vindos de Brasília -, como, aliás, deveria ser – e a oportunidade. Com dinheiro e ritmo, a partir de 2019, após dois anos de efeitos ‘bumerangue’, bate-boca, arranca rabos com sindicatos de servidores e parte da imprensa, alguma truculência e arranhões de imagem, a popularidade do governo e do gestor, que chegara a ter 70% de reprovação, iniciou uma trajetória de reversão.

E deu no que deu. O eleitor de Herzem ficou com Herzem, sua aceitação aumentou e ele foi reeleito em 2020 com 97.364 votos, mais que no pleito de quatro anos antes e se preparava para mais quatro anos à frente do terceiro maior município da Bahia e um dos mais importantes da Bahia.

Porém, quis Deus, por quem ele clamou e exaltou durante todo a gestão, que Herzem não continuasse sua trajetória política e ele nem chegou a assumir o cargo para o qual foi reeleito.

Descobriu que tinha Covid-19 no dia 7 de dezembro, foi internado no Hospital Samur no dia 18, tendo sido transferido para o Sírio-Libanês, em São Paulo, nove dias depois. Só foi empossado – por meio virtual – uma semana após a data oficial, quando esteve na UTI pela primeira vez.

Ficou dez dias na UTI e saiu no dia 14 de janeiro, fortalecendo a confiança de quem esperava que ele deixasse o hospital, voltasse para Vitória da Conquista e retomasse o governo.

Mas, o próprio Herzem Gusmão deu a notícia da segunda internação na unidade de terapia intensiva: “Tive esse imprevisto, mas continuo firme, crendo na minha recuperação e que muito em breve estarei na nossa cidade. Conto com as orações de todos!”

Infelizmente, não deu. Na sexta-feira (12), um aviso postado nas redes sociais informava que o quadro de saúde se agravou e Herzem teve que ser intubado. A situação já era irreversível. Serviu para o último ato da vida de Herzem: unir Vitória da Conquista. A dor congraçou família, amigos, eleitores, correligionários e adversários.

Nesta quinta-feira (18), por volta das  21 horas, depois de muitos dias de angústia e esperança, ele teve interrompida sua jornada na Terra, falecendo na capital paulista, vítima de fibrose pulmonar, agravada pela Covid-19.

Herzem Gusmão tinha 72 anos, deixa a mãe, com 92 anos, a esposa, D. Luci, os filhos Thayse, Danilo e Erica, o neto Arthur e uma multidão de conquistenses com saudade.

Vitória da Conquista e D. Zilda perderam um filho apaixonado. Herzem, definitivamente, não foi uma pessoa qualquer.

 

Author: Giorlando Lima

Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 58 anos de idade, 42 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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