Exclusivo | Um panorama da Covid-19 em Vitória da Conquista em tempo de toque de recolher


Há um ano, no dia 3 de abril, Vitória da Conquista tinha dois casos de moradores infectados pelo novo coronavírus. O primeiro registrado foi de um homem de 27 anos, médico recém-formado, que havia chegado de viagem ao Rio de Janeiro. O segundo tinha 42 anos e não possuía histórico de viagem.

Demorou para acontecerem as primeiras confirmações de Covid-19, apesar de Conquista ser passagem de uma das rodovias mais movimentadas do país e centro comercial, educacional e de saúde de uma região que direciona para a cidade uma população flutuante de milhares de pessoas todos os dias. O debate, então, era qual o fator que colocava o município naquela situação “privilegiada” de ter sido o último, entre os de maior população do estado, a registrar um caso.

Neste fim de março, em meio à polêmica sobre o período do toque de recolher decretado pelo governador Rui Costa, que chegou a incluir, pela terceira vez, uma ação judicial da Prefeitura contra o Estado, a população se vê diante de números que levantam o debate outra vez. Agora, para saber o que as estatísticas querem dizer e qual a influência da medida restritiva no quadro da Covid-19 no município.

QUESTÕES

O toque de recolher está alcançando os resultados esperados? Qual o critério de avaliação do Governo da Bahia para manutenção da medida diária e do lockdown parcial nos fins de semana? A taxa de ocupação de UTI? A variação da contaminação, a velocidade do contágio, os casos ativos, a quantidade ou a taxa de crescimento dos óbitos?

Por outro lado, o que leva a Prefeitura a questionar as medidas do Estado e ter convicção de que está certa em sua política de maior flexibilização e menos restrição? A taxa de ocupação de UTI? A variação da contaminação, a velocidade do contágio, os casos ativos, a quantidade ou a taxa de crescimento dos óbitos?

É um debate que necessitaria de uma intermediação técnica, que o BLOG não se arvora a fazer. Porém, pode trazer ao leitor dados e números que o ajudem a ter mais conhecimento do cenário da Covid-19 em Vitória da Conquista, às vésperas de mais uma modificação na duração diária do toque de recolher.

Desde que, em 19 de fevereiro, o governador Rui Costa decretou a medida restringindo a locomoção noturna, inicialmente das 20h00 às 5h00, depois começando às 18h00, se passaram 43 dias. A quantidade de casos confirmados saiu de 4.165, entre 7 de janeiro e 18 de fevereiro, para 4.244 no período de 19 de fevereiro até esta sexta-feira (2), crescimento de apenas 1,89%.

  Entre 7/01 e 18/02 Entre 19/02 e 02/04 Variação
Casos 4.165 4.244 1,89%
Óbitos 57 80 40%
Internações de moradores em UTIs locais (média diária) 21 15 28,5%
Conquistenses internados (em Vitória da Conquista e fora da cidade/média diária) 56,74 43,5 23,3%
Taxa de letalidade 1,52 (em 18/02) 1,59 (20/03) 1,59 (2/04)

Fonte: Boletins da Secretaria Municipal de Saúde de Vitória da Conquista 

INTERNAÇÕES

Outro dado a ser considerado diz respeito à média de internações de conquistenses com Covid-19, em hospitais com serviço SUS ou particulares, na cidade ou fora. E este dado é utilizado como argumento tanto pelos defensores do kit Covid quanto dos que não veem solução fora das restrições de locomoção. No período anterior ao toque de recolher, o número de internados chegou a 69 em um dia, média de 56,74. Nos 43 dias em que vigora o toque de recolher, a maior quantidade de conquistenses internados em um dia foi 61, e a média está bem abaixo de 43,5.

Também caiu a média diária de internações de moradores de Vitória da Conquista em UTIs SUS nos três hospitais da cidade com leitos exclusivos para Covid-19. Nos 43 dias de vigência do toque de recolher, chegou a 21,95%, cerca de 15 pacientes. Antes, a taxa ficou em 30,36%, cerca de seis pessoas a mais por dia.

Mas, o fato é que se os casos não cresceram significativamente e as internações de conquistenses caíram no período do toque de recolher, por outro lado, foram contabilizados 80 óbitos, ultrapassando em 40% o mesmo período anterior, que teve 57 mortes. A taxa de letalidade variou de 1,52 na véspera do decretação da medida restritiva para 1,59 30 dias depois. Ontem se mantinha em 1,59. Sob esse aspecto se torna ainda mais necessária a pergunta: o quadro pede ampliação ou relaxamento das medidas.

O Governo do Estado não chegou a esclarecer qual o parâmetro efetivo para definir a duração das medidas restritivas para o município (não são uniformes para toda a Bahia), portanto, desconhece-se a motivação para alterar de 18h00 para 20h00 o início do toque de recolher, proposta feita pela Prefeitura de Vitória da Conquista há dez dias, quando os índices eram muito melhores que agora.

O questionamento é porque, embora na comparação entre o período anterior ao toque de recolher e a vigência da medida tenha havido redução de internações de moradores de Vitória da Conquista (na cidade ou fora dela) e o crescimento de casos tenha sido de pouco mais que 1,5%, na última semana quase todos os números pioraram.

Os casos subiram 2,28% em relação à semana imediatamente anterior, com total acima do registrado na última semana antes ao toque de recolher. Internações de conquistenses em UTI: 37,8% dos penúltimos sete dias (82) para a semana completada nesta sexta.

E os óbitos, que, neste período em que valem as restrições, já estavam bem acima do período anterior, cresceram 62,5%, tendo saído de oito antes para 13 entre 27 de março a 2 de abril. Internação geral (na cidade e fora): 53 ante 41 da semana anterior.

Apenas a taxa de internação em UTI SUS por meio da Central de Regulação (pacientes locais e de fora) teve redução nos últimos sete dias: de 92,1% entre 20 e 26 de março para 89,39% entre 27 de março e 2 de abril.

No entanto, é importante repetir que, depois de 43 dias de medidas restritivas, os casos aumentaram muito pouco em comparação ao mesmo período, antes do toque de recolher e do lockdown, como dito acima.

  De 20 a 26/03 De 27/03 e 2/04 Variação
Casos 658 673 2,28%
Óbitos 8 13 62,5%
Taxa de internação em UTI SUS 92,1% 89,39% 2,71pp
Internações de moradores em UTIs locais (média diária) 16,73% (cerca de 12 pessoas 23,08% (cerca de 16 pessoas) 5,71% (cerca de 4 pessoas)
Conquistenses internados (em Vitória da Conquista e fora da cidade/média diária) 41 53 29,2% (12 pessoas)
Taxa de letalidade 1,590 1,592

Fonte: Boletins da Secretaria Municipal de Saúde de Vitória da Conquista

A população acompanha a situação sem entender direito as políticas de combate à Covid-19 (ou a falta delas). E nisso, há uma outra questão a destacar: os números da Secretaria Municipal de Saúde e da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia permanecem divergentes, sejam acerca de casos ou de óbitos, as políticas idem. No centro, a necessidade de informações claras, para que não prosperem as fake news, os tratamentos sem comprovação científica e a desconfiança nas instituições que devem dar segurança informacional à população.

Por fim, o certo é que não há salvação fora da vacina. Os planos governamentais, todos na direção do bem comum (para impedir que a pandemia se agrave ainda mais, com o aumento a dor das famílias e o medo em quem fica), merecem nosso louvor, o que não nos impede de pedir mais clareza, afinal, se trata da necessidade de salvar nossas vidas.

O BLOG PUBLICARÁ EVENTUAIS MANIFESTAÇÕES DAS SECRETARIAS DE SAÚDE DO MUNICÍPIO E DA BAHIA COMO REPARO OU ACRÉSCIMO

Author: Giorlando Lima

Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 58 anos de idade, 42 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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